Filmes indicados ao Oscar que abordam guerras e governos autoritários

‘A Voz de Hind Rajab’ e ‘Foi Apenas Um Acidente’ chegam ao Oscar com coragem e resistência.

Por Leo Dantas

Foto: Divulgação do filme (IMDB)

Dentre os filmes indicados ao Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional, duas produções têm destaque por terem sido feitas e divulgadas sob risco ao abordar temas sensíveis da atualidade. ‘A Voz de Hind Rajab’, que representa a Tunísia, e ‘Foi apenas um acidente’, que está indicado pela França, mostram coragem e desafiam questões políticas complexas do mundo atual.

Kaouther Ben Hania, cineasta tunisiana que escreveu e dirigiu ‘A Voz de Hind Rajab’, já é conhecida por tratar de temas sociais de forma contundente. O filme dramatiza os pedidos de socorro feitos em janeiro de 2024 por uma menina palestina de 5 anos na Faixa de Gaza. Presa em um carro cercado por tanques israelenses, ela entrou em contato com um grupo de ajuda humanitária enquanto estava cercada pelos corpos de familiares que já haviam sido atingidos.

Embora o filme não tenha sido filmado na região da Faixa de Gaza, esse tipo de produção representa a resistência e o testemunho de uma realidade trágica que está em andamento, impondo riscos severos à cineasta e ao elenco do longa, que tem diversos membros palestinos. Relatos apontam que estúdios estadunidenses teriam evitado o filme, supostamente por medo da controvérsia política envolvendo o relato da morte da pequena Hind por forças israelenses.

Saja Kilani no Festival Internacional de Cinema de Veneza, divulgando ‘A Voz de Hind Rajab’— Foto: Elisabetta A. Villa.

No tapete vermelho do 82º Festival Internacional de Cinema de Veneza, realizado em 3 de setembro de 2025, a atriz palestina-jordaniana Saja Kilani exibiu brincos que ressaltam a herança palestina. Saja estrela o filme no papel de Rana, uma das supervisoras de atendimento humanitário da organização Crescente Vermelho. Durante boa parte do filme, a personagem tenta confortar Hind enquanto a menina passa por momentos de medo e sofrimento, e a angústia da atriz, que contracena com áudios reais da pequena, é bastante perceptível. O ator Motaz Malhees, que interpreta o voluntário Omar, contou que teve ataques de pânico durante as filmagens. Ele disse que ouvir a voz de Hind implorando por ajuda no fone de ouvido durante as cenas foi uma experiência insuportável, a ponto de sentir que seu coração iria explodir”.

De forma semelhante, ‘Foi Apenas Um Acidente’, do diretor iraniano Jafar Panahi, trouxe riscos sérios a toda a equipe envolvida na produção. Panahi faz uma forte oposição ao governo conservador do Irã, tema que é central no longa indicado a Melhor Filme Internacional. Mesmo já tendo sido preso e proibido de filmar em seu país, o cineasta rodou o filme no Irã de forma clandestina. O país pelo qual o filme está indicado ao Oscar é a França, onde o longa foi finalizado.

Créditos: Mariam Afshari e Vahid Mobasseri em cena de ‘Foi Apenas Um Acidente’ — Divulgação do filme (IMDB).

Em diversas cenas do filme, atrizes iranianas aparecem sem o véu cobrindo a cabeça, desafiando a obrigatoriedade imposta pela lei do Irã. E esse é apenas um dos exemplos de como o filme resiste ao autoritarismo estatal.

Na trama de ‘Foi Apenas Um Acidente’, um acontecimento aparentemente banal desencadeia um encontro inesperado entre pessoas marcadas pela repressão do regime iraniano. Conforme a situação se desenrola, o filme expõe cicatrizes deixadas pelo autoritarismo e revela como memórias de violência estatal alimentam um sentimento de revolta, transformando um simples acaso em um momento de confronto com o poder e de resistência ao governo.

Ter um filme praticamente todo produzido no Irã indicado ao Oscar no cenário global atual não poderia ser mais representativo. Estamos acompanhando recentemente a violência que o governo estadunidense tem direcionado ao país, inclusive vitimizando muitas meninas e mulheres. A despeito de haver um regime autoritário no Irã há anos, o abrir fogo dos Estados Unidos, além de ser repleto de intenções perversas e não resolver o problema, só faz mais vítimas num território já tão sofrido. Neste sentido, ter representação iraniana numa cerimônia em Hollywood atualmente deve incomodar, e deveria chamar cada vez mais a atenção da mídia internacional.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.