‘Pecadores’ e o cinema de Ryan Coogler: parcerias consolidadas, contrato ousado e recorde histórico
Em seu quinto longa-metragem, o diretor apresenta o melhor de sua filmografia e inova em um novo território
Por Samuel Fernandes

Na 98ª edição do Oscar, um novo recorde foi batido por ‘Pecadores’ (2025), que se tornou o primeiro filme a receber 16 indicações em uma mesma edição. Um recorde que era, até então, dos longas ‘A Malvada’ (1950), ‘Titanic’ (1997) e ‘La La Land’ (2016), com 14 indicações em suas respectivas edições.
Vindo do cinema independente, Coogler se destaca desde seu primeiro longa, ‘Fruitvale Station’ (2013), que projetou seu nome ao vencer o prêmio do público no festival de Sundance.
Mas o que marcou a trajetória de Ryan Coogler até o maior filme recordista da história do Oscar?

Parceria com Michael B. Jordan
Praticamente um “Scorsese e De Niro” da nova geração, a dupla Ryan Coogler e Michael B. Jordan já é um sucesso consolidado, com Jordan presente em todos os filmes de Coogler, sempre entregando atuações elogiadas pela crítica internacional.
Uma parceria que também impulsionou a carreira do ator, que, até então, era conhecido na indústria por papéis coadjuvantes na série ‘The Wire’ (2002-2008) e em filmes como ‘Hardball – O Jogo da Vida’ (2001). Mas foi ‘Fruitvale Station’ (2013) que deu a Jordan seu primeiro papel principal. Um voto de confiança que se tornaria um dos maiores acertos do diretor.
De 2013 para cá, e após diferentes personagens, o mais novo trabalho da parceria recebeu, entre outras várias, a indicação de Melhor Ator para Michael B. Jordan pelos papéis dos gêmeos Fumaça e Fuligem, em ‘Pecadores’ (2025).

Um novo capítulo de uma franquia consagrada
Dois anos após seu primeiro longa, Coogler lança o sucesso de críticas ‘Creed’ (2015), o spin-off (quando uma obra se deriva de outra preexistente) da franquia ‘Rocky’ (1976-2006), centrada no filho de Apollo Creed, o Adonis, vivido por Michael B. Jordan.
Solidificando sua forte conexão com temáticas negras e, mais uma vez, trazendo sua dupla, ‘Creed’ (2015) foi o filme que o provou ser não apenas uma promessa do cinema independente, mas um diretor capaz de assumir grandes franquias e revitalizá-las com alma e paixão. Um ponto que chamou a atenção da Marvel.

A reinvenção de um herói potente
Seu lançamento seguinte, ‘Pantera Negra’ (2018), trouxe uma proposta diferente para um filme de super-herói, o que acarretou a indicação para Melhor Filme, em 2019, levando para casa três estatuetas na premiação: Trilha Sonora Original, Figurino e Edição de Som. Isso colocou o filme na lista de maiores premiados à frente de outros grandes sucessos do gênero, como ‘Superman’ (1978), ‘Homem-Aranha 2’ (2004) e ‘Batman: O Cavaleiro das Trevas’ (2008), sendo este último considerado injustiçado ao não receber a mesma indicação em seu ano.
Não podemos deixar de citar também que um dos maiores responsáveis para o sucesso de ‘Pantera Negra’ (2018) foi seu brilhante elenco, composto por nomes como Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Daniel Kaluuya, Forest Whitaker, Andy Serkis e outros.

O sucesso de ‘Pecadores’ (2025) e seu contrato ousado
O destaque da vez, ‘Pecadores’ (2025) é o filme mais ambicioso de Ryan Coogler, trazendo um terror de época, com roteiro original que, de forma vibrante e visceral, conta uma história tipicamente negra no Sul dos Estados Unidos. Leia a análise feita pela cobertura colaborativa do Cine Ninja aqui.
Mas, para além do filme, a produção ganha os olhos de Hollywood desde antes de sua estreia, quando portais noticiaram o contrato que Coogler negociou com a Warner Bros., com condições que chamaram a atenção de especialistas, sendo elas: o controle total do corte final, ou seja, a palavra final sobre mudanças que o estúdio possa querer impor na obra; além de participação nos lucros da bilheteria desde a estreia, algo que, na maioria dos casos, só é dado ao diretor após o filme conseguir se pagar; por fim, o que mais chocou, a garantia da propriedade intelectual do filme após 25 anos, algo visto somente em casos muito raros e com diretores mais renomados.

A marca de Coogler
Muitos escritores, produtores musicais, cartunistas e outros profissionais criativos buscam ter sua própria assinatura em seus trabalhos, algo que deixe claro quem fez aquela obra. Nas obras de Coogler, podem-se notar alguns destes atributos.
Um destes é a trilha potente, um ponto determinante, que não é usado apenas como acessório, mas como enredo. Em ‘Creed’ (2015), por exemplo, o som das luvas e a respiração ofegante viram música e aparecem em cena de forma rítmica. Em ‘Pantera Negra’ (2018) e em ‘Pecadores’ (2025), instrumentos tribais e clássicos formam um casamento perfeito com batidas de hip-hop para criar a atmosfera de suas histórias — mérito de outro parceiro recorrente, o compositor Ludwig Göransson.
Os planos-sequência também são recursos bem utilizados por Coogler, como a luta de boxe em take único no filme ‘Creed’ (2015) (vídeo abaixo) e a cena do cassino em ‘Pantera Negra’ (2018). Ambas as cenas criam imersão que prende o espectador na adrenalina do momento.
Mestre de cenários também, cada um dos grandes filmes de sua filmografia constrói um mundo tão palpável que parece real, como é o caso da Filadélfia de ‘Creed’ (2015), mas também dos Estados Unidos de ‘Pecadores’ (2025) e da Wakanda de ‘Pantera Negra’ (2018).
Legenda: Luta em plano-sequência de Creed. Vídeo: Reprodução / Warner Bros. Pictures
O crescimento do cinema negro no Oscar
O “cinema negro americano” começou nos anos 1910 com Oscar Micheaux e os chamados “race films”, filmes produzidos e estrelados por afro-americanos, como uma resposta à segregação e também a filmes de sucesso que faziam representações racistas. O cinema negro era exibido apenas em circuitos alternativos.
Demorou, mas após muitos anos de baixa representatividade no Oscar, nos anos 2010, um marco na 90ª edição levantou a hashtag “#OscarsSoWhite” e forçou reformas estruturais na premiação, pavimentando espaço para novos talentos e rompendo barreiras históricas.
Disso, saíram vitórias que elevaram o cinema feito por mãos negras, mesmo que sendo poucas. Abaixo, alguns exemplos:
- ‘12 Anos de Escravidão’ (2013): o britânico Steve McQueen foi o primeiro diretor negro a vencer o Melhor Filme, com seu longa que retrata a escravidão de forma crua, garantindo à estreante Lupita Nyong’o o prêmio Melhor Atriz Coadjuvante;
- ‘Moonlight’ (2016): segundo negro a vencer o Melhor Filme, Barry Jenkins trouxe à categoria, pela primeira vez na história, um filme de elenco inteiramente negro, com destaque para Mahershala Ali, primeiro muçulmano vencedor do Melhor Ator Coadjuvante;
- ‘Corra!’ (2017): Jordan Peele foi o primeiro negro a vencer o Melhor Roteiro Original, categoria historicamente pouco diversificada, tanto em etnia quanto em temática de filmes, já que Peele foi também o primeiro a vencê-la com um filme de terror.
Nove anos após ‘Corra!’ (2017), Ryan Coogler tem a oportunidade não apenas de sacramentar seu nome na história do cinema internacional, mas também de continuar abrindo portas para que a diversidade encontre espaço e reconhecimento na premiação que, apesar de tudo, continua sendo o maior holofote do cinema mundial.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.