Do Mississippi ao Recife: ‘Pecadores’ e ‘O Agente Secreto’ mostram que o horror nunca foi fantasia
‘Pecadores’ e ‘O Agente Secreto’ usam o cinema de gênero para expor feridas históricas que seguem presentes.

Por Dani Zetum
Há algo de provocação intencional em colocar ‘Pecadores’ e ‘O Agente Secreto’ na mesma frase. Um é um thriller de terror americano ambientado no Mississippi de 1932. O outro é um thriller político brasileiro que respira o Recife de 1977. Gêneros diferentes, países diferentes, décadas diferentes. Mas, quando você assiste aos dois, especialmente de longe, como eu, de uma cidade no norte da Itália, o que fica não é a diferença, é a assustadora semelhança.
Os dois filmes usam o gênero como armadilha. Você assiste pensando que vai ver fantasia, vampiros, agentes secretos, tensão cinematográfica, e de repente percebe que o verdadeiro horror já estava lá antes das câmeras ligarem.
Em ‘Pecadores’, os vampiros são quase um alívio perto da Ku Klux Klan. Não porque sejam menos violentos, mas porque são ficção. A KKK não é. E o filme sabe exatamente o que está fazendo ao colocar os dois na mesma tela, nos lembrar de que o monstro mais assustador nunca precisou de presas. Em ‘O Agente Secreto’, nenhum thriller supera o medo real de viver sob uma ditadura. Ryan Coogler e Kleber Mendonça Filho – diretores dos filmes – sabem exatamente o que estão fazendo, usam o medo do cinema para falar do medo da história.
O blues em ‘Pecadores’ não é trilha sonora, é o que mantém uma comunidade negra viva, livre no sul estadunidense que quer vê-la morta ou invisível. No Recife de Kleber, o carnaval, a música e o cotidiano existem com a mesma função de resistir através da alegria, mesmo quando o medo é real e cotidiano. Nos dois filmes, a cultura não é celebração, é sobrevivência. É o único espaço onde corpos marginalizados podem existir plenamente e é exatamente por isso que se tornam alvo.
Tem um detalhe que não é pequeno: Michael B. Jordan e Wagner Moura disputam o Oscar de Melhor Ator de 2026. Dois corpos que carregam em si a história dos seus países. Dois atores que não estão apenas interpretando personagens, estão carregando memória coletiva numa tela que o mundo inteiro vai assistir. Isso não é coincidência. É um recado que o cinema está dando sobre o que importa ser visto agora.
Como brasileira morando fora, eu sinto isso com muita força: assistir aos dois filmes morando na Europa é uma experiência que desorganiza. Daqui, o Brasil e os Estados Unidos parecem distantes, mas o que esses filmes falam chega sem sotaque. Porque racismo e autoritarismo não têm nacionalidade, e a resistência também não.
O Oscar 2026 está sendo disputado por filmes que recusam o consolo fácil, que não deixam o espectador sair da sala aliviado. ‘Pecadores’ e ‘O Agente Secreto’ pertencem a essa linhagem, a do cinema que entende que sua função não é entreter para distrair, mas entreter para acordar. O horror que os dois mostram nunca foi fantasia. Estava na rua e ainda está.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.