Foto: Victor Jucá

Por Yuto Sanot

No ano de 1895, a França – e posteriormente o mundo – testemunhava as exibições públicas de cinema realizadas pelos irmãos Lumiére, marco que inaugura uma das mais importantes formas de arte do século XX. Em paralelo, na Inglaterra, outro elemento que viria a se tornar parte fundamental da cultura brasileira chegava ao país: o futebol.

No mesmo ano, o brasileiro Charles Miller retornou da Inglaterra trazendo consigo a primeira bola de futebol e o livro de regras. A partir daquele momento, o futebol começou a se espalhar pelo país, inicialmente entre as elites urbanas e, posteriormente, entre as classes populares.

Charles Miller, brasileiro de origem inglesa. Foto: Reprodução.

Desde então, esses dois elementos identitários se tornaram intrínsecos na formação da cultura brasileira, sendo o futebol a identidade que mais se desenvolveu com o passar das décadas. O esporte se consolidou como um símbolo da identidade nacional, capaz de mobilizar multidões e atravessar barreiras sociais unindo diferentes classes sociais e regiões do país em torno de um sentimento coletivo de pertencimento. 

Grandes conquistas esportivas, como os títulos mundiais da seleção brasileira, ajudaram a consolidar essa imagem do Brasil como o “país do futebol”, reforçando a presença do esporte no imaginário popular e no cotidiano da população.

No entanto, nos últimos anos, outro campo cultural vem ganhando cada vez mais espaço na atenção do público: o cinema. 

O crescimento do cinema brasileiro

Nos últimos anos, o crescimento das produções audiovisuais brasileiras, aliado ao surgimento de novas plataformas de distribuição e ao fortalecimento de políticas públicas de incentivo à cultura, tem contribuído para ampliar o interesse da população pelo cinema nacional. 

Foto: Divulgação/Sony Pictures

A expansão do acesso ao audiovisual também está diretamente ligada às transformações das plataformas de streaming, internet e às novas formas de distribuição digital, permitindo que filmes brasileiros alcancem públicos mais amplos. Festivais, mostras, salas de exibição e até mesmo as redes sociais passaram a desempenhar um papel importante na aproximação entre o público e as produções cinematográficas. 

Os filmes e documentários não contam apenas histórias, mas sim, recortes da própria sociedade brasileira, discutindo temas como desigualdade, identidade, política, memória e cotidiano; o público se reconhece nessas narrativas, estabelecendo forte interesse pelo audiovisual brasileiro.

Foto: Victor Jucá

Através dessa lente, logo o futebol não seria mais o único símbolo nacional com poder para unir as pessoas do seu país. O cinema então começa a ocupar um espaço cada vez mais relevante dentro do cenário cultural brasileiro, se mostrando uma poderosa ferramenta de reflexão social e representação cultural. 

Uma nova forma de consumir cultura

Outro fator que contribuiu para o aumento do interesse do cinema brasileiro é a transformação nos hábitos de consumo cultural da população. Durante muito tempo, grande parte do conteúdo audiovisual consumido no Brasil foi dominado por produções estrangeiras – principalmente de Hollywood – que traziam narrativas centradas em contextos norte-americanos e europeus.

Com o passar do tempo, essas produções não conseguem mais ser verossímeis com outras realidades, perdendo espaço. O público então começa a demonstrar interesse por histórias mais próximas de sua própria realidade e a demanda por conteúdos que retratam a identidade brasileira, abrindo possibilidade para o crescimento de produções audiovisuais nacionais.

Embora o futebol continue sendo um dos maiores símbolos da cultura brasileira, observa-se uma mudança gradual no comportamento da população, que passa a valorizar também outras formas de expressão cultural, com o cinema surgindo como esse espaço de construção de identidade, debate social e valorização da diversidade do país.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.