Foto: Eli Adé/ Warner Bros Pictures via AP

Por Flavia Tofoli

Em sua 98ª edição, que acontecerá no próximo domingo (15/03), Autumn Durald Arkapaw, diretora de fotografia do filme Pecadores (Sinners), torna-se a 4ª mulher em toda a história da premiação a concorrer na categoria de Melhor Fotografia. A diretora de fotografia ainda registra outro marco: além de ser uma das poucas mulheres indicadas nessa categoria, também é a primeira mulher não branca a concorrer. Se vencer no próximo domingo, ela se tornará a primeira mulher a conquistar o prêmio na categoria.

Apesar de existir desde a primeira cerimônia do Oscar, realizada em 1929, a categoria de Melhor Fotografia sempre contou com uma presença majoritariamente masculina. Em quase um século de premiação, apenas quatro mulheres foram indicadas: Rachel Morrison, por Mudbound (2018); Ari Wegner, por Ataque dos Cães (2022); Mandy Walker, por Elvis (2023); e agora Autumn Durald Arkapaw, por Pecadores (Sinners). O número reduzido evidencia como a direção de fotografia permanece sendo uma das áreas mais fechadas para mulheres dentro da indústria cinematográfica, especialmente em funções técnicas historicamente dominadas por homens.

De origem filipina por parte de mãe e afro-americana por parte de pai, Arkapaw fez seu primeiro grande trabalho fotográfico no filme Palo Alto, dirigido por Gia Coppola, e também trabalhou na direção de fotografia da série Loki, da Disney+. A parceria com o diretor Ryan Coogler na produção de Pantera Negra: Wakanda Para Sempre (2022) deu certo, tanto que repetiram a dose em Pecadores, filme que está concorrendo a 16 indicações ao Oscar de 2026. O diretor de Pecadores, prioriza equipes diversas em seus projetos, incluindo profissionais negros e ampliando a participação de mulheres em diferentes funções criativas e técnicas dentro das produções.

Foto: Eli Adé/ Warner Bros Pictures via AP

A crítica tem destacado a direção fotográfica do filme, sendo considerada um dos pontos fortes da narrativa. Arkapaw se destaca pelo uso expressivo da luz e da cor para construir a atmosfera dramática do filme. A combinação dos enquadramentos amplos da paisagem com composições mais íntimas cria contraste entre a dimensão épica do cenário e a intensidade emocional dos personagens. A iluminação trabalha com fontes quentes e sombras profundas, reforçando um clima denso e por vezes inquietante, enquanto a paleta cromática valoriza tons terrosos e avermelhados que evocam tanto a ambientação histórica quanto a tensão narrativa. Além disso, a câmera privilegia movimentos controlados e uma profundidade de campo bem marcada, recursos que ajudam a guiar o olhar do espectador e a intensificar a experiência visual do filme. Os feitos da diretora de fotografia não param apenas no seu primorismo visual,  já que ela também fez história ao se tornar a primeira mulher a filmar um longa em formato IMAX — tecnologia que comporta qualidade máxima de imagem para telas gigante —, operando ela mesma, na maior parte das cenas, a câmera de cerca de 65 quilos.

Apesar do reconhecimento ao trabalho de Arkapaw, sua indicação também chama a atenção para um cenário mais amplo da indústria cinematográfica. A presença feminina na direção de fotografia ainda é reduzida, tanto nas grandes produções quanto nas principais premiações do cinema. Uma pesquisa publicada pela San Diego State University, de autoria da pesquisadora Drª. Martha M. Lauzen, que conduz o Centro de Estudos das Mulheres na Televisão e no Cinema, mostra que as mulheres representaram 8% das diretoras de fotografia que trabalharam em filmes de streaming e 7% das que atuaram nos 250 filmes de maior bilheteria de 2022.

Outro levantamento da pesquisadora, intitulado “Women On Screen and Behind the Scenes on Broadcast and Streaming Television in 2024–25”, aponta que a presença feminina na direção de fotografia na televisão também permanece extremamente baixa. Entre os episódios analisados no período de 2024–2025, 98% não tiveram mulheres atuando como diretoras de fotografia. O estudo também indica que, considerando diferentes funções criativas e técnicas — como criação, direção, roteiro, produção, produção executiva, edição e direção de fotografia —, as mulheres representaram apenas 30% dos profissionais que trabalharam em programas das redes de televisão aberta e plataformas de streaming no período analisado.

A baixa representatividade também se reflete em espaços de prestígio da própria categoria. A American Society of Cinematographers (ASC), organização cultural, profissional e educacional norte-americana fundada em 1919, reúne diretores de fotografia e especialistas em efeitos visuais com destaque na indústria cinematográfica, sendo uma associação por convite. Mesmo nesse espaço, a participação feminina ainda é limitada: considerando uma lista aproximada de 690 membros, apenas 38 são mulheres, o que representa cerca de 6% do total. O cenário também se evidencia na liderança da instituição: em 107 anos de história, apenas em 2025 a ASC passou a ter sua primeira presidente mulher, a diretora de fotografia Mandy Walker.

Foto: Reprodução

O número reduzido de mulheres na direção de fotografia não se explica pela falta de participação feminina na história do cinema. Nos primórdios desta indústria, quando o cinema ainda engatinhava e as funções dentro de um set não estavam rigidamente separadas, era comum que uma mesma pessoa acumulasse várias tarefas. Foi nesse contexto que atuou Alice Guy Blaché, frequentemente lembrada como a primeira mulher cineasta da história. 

Em 1896, ela realizou La Fée Aux Choux (“A Fada do Repolho”), um filme de cerca de um minuto que não apenas marcou a estreia de uma mulher na direção, como também é considerado por muitos historiadores um dos primeiros filmes narrativos já produzidos. Guy Blaché escreveu, dirigiu, produziu e também fotografou a obra. Naquele momento, o cinematógrafo ainda era usado sobretudo para registrar cenas cotidianas, quase sempre com caráter documental.

Alice, no entanto, enxergou ali outra possibilidade: contar histórias. Inspirada por uma antiga lenda francesa segundo a qual meninas nasciam de rosas e meninos de repolhos, transformou a anedota em encenação diante da câmera. Portanto, mulheres já estavam presentes não apenas na frente das telas, mas também na construção estética e técnica das imagens.

A presença de mulheres na direção de fotografia também depende das oportunidades de entrada e permanência nesse mercado. Em uma indústria marcada por redes profissionais consolidadas e historicamente masculinas, a escolha de quem compõe as equipes técnicas costuma influenciar diretamente quem consegue ocupar esses espaços. Nos últimos anos, alguns realizadores têm buscado ampliar essa diversidade dentro dos sets de filmagem. A parceria de  Ryan Coogler com Autumn Durald Arkapaw em Pecadores ilustra como a abertura de espaço para novas vozes na cinematografia pode não apenas ampliar a representatividade, mas também trazer novas abordagens visuais e narrativas para o cinema contemporâneo.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.