Por Hyader Epaminondas

Foto: themoviedb

Dirigido por Richard Linklater com o roteiro de Robert Kaplow, ‘Blue Moon: Música e Solidão’ (2025) recria a noite de 31 de março de 1943, quando o letrista Lorenz Hart passou horas num bar em Nova York confrontando as próprias escolhas de vida enquanto seu antigo parceiro criativo, Richard Rodgers celebra a estreia triunfal do musical ‘Oklahoma!’. Preso entre o sucesso alheio e suas próprias ruínas emocionais, Hart transforma essa espera em um acerto de contas íntimo, onde memória, desejo e frustração se misturam em tempo real.

À primeira vista, ‘Blue Moon’ (2025) parece um projeto condenado ao tédio. Um único cenário, um bar carregado de signos reconhecíveis, personagens que surgem como tipos e um protagonista que ocupa a cena quase sozinho. Tudo aponta para um exercício de estagnação formal, um filme que poderia facilmente se tornar verborrágico, autoindulgente e monotônico. Mas Linklater subverte essa expectativa ao transformar a limitação espacial em método e o excesso verbal em dramaturgia.

O bar não funciona como cenário, mas como estado mental. É um espaço suspenso no tempo, onde passado e presente se confundem e onde a ação não progride por acontecimentos, mas por acumulação emocional. Nesse ambiente fechado, Ethan Hawke assume o controle absoluto do filme. Sua atuação se constrói como um fluxo contínuo de consciência, um monólogo que nunca se fecha sobre si mesmo, pois é constantemente atravessado por lembranças, frustrações e desejos não resolvidos. 

As interrupções dos personagens secundários, ou melhor dos figurantes como Larry diria, não quebram esse fluxo. Elas o contaminam, funcionando como rachaduras por onde o mundo real tenta, sem sucesso, invadir a narrativa subjetiva do protagonista.

Uma ode melancólica aos excessos

A escrita do filme aposta em diálogos densos, musicalizados, repletos de adjetivos e construções rítmicas que se organizam como letras não cantadas. A biografia não tem interesse pelos fatos, mas em sensações. Linklater abandona qualquer pretensão de linearidade histórica para construir um retrato emocional da psique de seu personagem biografado. Tudo é filtrado pelo olhar de Larry, o que torna o filme menos um relato sobre um homem e mais uma imersão na maneira como ele se percebe onde a subjetividade moral é o próprio tema.

Larry é um homem movido por uma contradição central, ele destila inveja do antigo parceiro de trabalho, mas é incapaz de sustentar esse ressentimento como força motriz. O que emerge com mais intensidade é uma carência afetiva profunda, seu hábito de falar excessivamente, de forma rápida e descontrolada, muitas vezes sem dizer algo de grande importância ou sentido não é arrogância, mas defesa. Ele fala para não encarar o vazio. Ele narra para não silenciar. A figura que se desenha é a de um homem que confunde amor com memória e desejo com idealização, alguém que acredita que o passado pode ser revivido se for repetido com precisão suficiente.

A trilha sonora não acompanha a narrativa como comentário externo, mas ela opera como extensão do corpo do protagonista. Sua função é fisiológica, quase orgânica. O som pulsa, respira, desacelera e se intensifica conforme as flutuações emocionais de Larry. Isso transforma ‘Blue Moon’ (2025) em um musical deslocado, onde não há números musicais, mas onde tudo é regido por ritmo, cadência e entonação. A voz de Hawke se torna instrumento narrativo onde seus silêncios têm tanto peso quanto suas palavras, organizando a dramaturgia interna do filme.

A atuação de Hawke oscila com primor entre o encantamento juvenil e a amargura madura, criando uma figura permanentemente desalinhada com o próprio tempo. Larry se comporta como alguém que ainda sente com intensidade adolescente, mas já carrega o corpo e as consequências de uma vida em excesso. Essa dissonância é fundamental para compreender o personagem. Ele não envelheceu emocionalmente. Ele apenas acumulou perdas. O filme inteiro se constrói a partir dessa fratura.

Visualmente, Linklater reforça essa condição por meio de enquadramentos que frequentemente posicionam Larry em ângulos que o diminuem, inferiorizam como um reflexo da sua própria visão de si mesmo. A câmera o observa de cima, não para julgá-lo, mas para evidenciar seu sentimento constante de inadequação. Diante do antigo parceiro, agora celebrado, Larry se percebe como uma figura obsoleta, presa a vícios e hábitos que perderam qualquer glamour. O alcoolismo não é tratado como espetáculo, mas como sintoma de paralisia. Ele bebe não para fugir, mas para permanecer onde está.

A metalinguagem surge como um dos eixos mais sofisticados do filme quando Larry critica ‘Oklahoma!’ por sua nostalgia excessivamente romantizada, ele formula sem perceber a acusação mais precisa contra si mesmo. Ele rejeita uma obra por idealizar um passado que nunca existiu, ao mesmo tempo em que constrói sua identidade a partir de uma versão fantasiosa de sua própria carreira, é uma transposição onde a sua arte é atravessada pela mesma operação que ele condena. 

Ele canta lembranças como se fossem verdades absolutas, quando são apenas versões emocionais adulteradas, revisadas e lentamente sabotadas pelo mecanismo silencioso do tempo.

Essa contradição revela um personagem em sofrimento evidente, mas profundamente incapaz de nomear sua dor. Larry evita o luto explícito. Ele o dilui em humor, em memória, em performance. A melancolia nunca explode porque está sempre em circulação. Não há catarse porque Larry não permite que ela exista. 

O bar assume contornos mitológicos, um espaço onde a bebida funciona como abraço líquido, aquecendo por dentro enquanto apaga o mundo exterior e mantém Larry imóvel, protegido da passagem do tempo enquanto o mantém estagnado, imóvel, à margem da própria vida.

O mal que existe em todo homem, quando viver demais se torna um abismo

O elenco de apoio é organizado como um sistema de forças que não dialoga diretamente entre si, mas gravita em torno do protagonista como corpos celestes presos à sua órbita emocional. Andrew Scott, no papel do antigo parceiro, encarna a possibilidade concreta de continuidade, o caminho que seguiu adiante sem olhar para trás. Sua presença é quase sempre indireta, evocada mais do que vivida, como uma lembrança que dói justamente por não carregar culpa. Ele é o passado que sobreviveu, que prosperou, que não precisou se autodestruir para existir. Para Larry, esse passado não é uma memória, mas uma ferida aberta, um lembrete constante de que o tempo avançou para todos, menos para ele.

Margaret Qualley, como a musa e paixão platônica, ocupa um espaço ainda mais etéreo. Ela não é exatamente um personagem, mas uma projeção afetiva. Representa o futuro idealizado, o amor que poderia ter sido, a vida que ainda parecia possível antes da decadência se instalar. Sua existência nunca se completa em presença real. 

Ela surge como promessa reciclada do passado, como imagem suspensa, sempre à distância, sempre inalcançável. É o futuro que Larry insiste em imaginar, mas jamais consegue tocar. Um horizonte que existe apenas enquanto fantasia, condenado a desaparecer no instante em que se aproxima demais da realidade.

Já Bobby Cannavale, como o barista, cumpre uma função radicalmente distinta. Ele não pertence ao passado nem ao futuro. É o único personagem verdadeiramente ancorado no presente, sua presença é física, concreta, reiterada. Ele escuta, reage, observa e permanece. Enquanto os outros atravessam a narrativa como espectros temporais, o barista é matéria, peso, chão. Ele representa o agora que Larry se recusa a habitar. Não por acaso, é com ele que Larry interage de forma mais direta, como se precisasse constantemente reafirmar sua existência diante de alguém que ainda vive fora da memória.

Essa disposição transforma ‘Blue Moon’ (2025) em algo próximo a um tribunal do tempo, onde Larry é simultaneamente réu, juiz e testemunha. Ele é confrontado pelo que foi, pelo que poderia ter sido e pelo que insiste em não ser. Cada figura que o cerca funciona como uma acusação silenciosa. O passado o observa em silêncio, o futuro o seduz sem se oferecer e o presente o espera pacientemente, sem jamais ser escolhido.

No centro dessa engrenagem trágica está um homem incapaz de habitar o agora porque o agora exige responsabilidade, continuidade e aceitação da perda. Larry prefere a suspensão. Ele escolhe permanecer no intervalo, no espaço onde a memória ainda pode ser romantizada e onde o fracasso não precisa ser definitivamente reconhecido.

É nesse ponto que o mito de Ícaro se mistura com nosso protagonista que não caiu porque ousou demais, mas porque confundiu intensidade com permanência. Voou alto não por ambição, mas por desejo de permanecer aquecido pelo sol. Não percebeu que o calor que o mantinha vivo era o mesmo que derretia suas asas. Sua queda não é um castigo súbito, mas um processo lento, quase imperceptível, marcado pelo excesso, pela repetição e pela recusa em pousar, como vemos na abertura do filme. Diferente do Ícaro clássico, Larry não despenca de uma vez. Ele desce aos poucos, sustentado por lembranças, álcool e palavras, até perceber que já não há mais céu para retornar.

Em ‘Blue Moon’ (2025), Richard Linklater apresenta uma tragédia que não está na queda, mas na consciência tardia dela. O filme não observa seu objeto de adoração com crueldade, mas com uma melancolia compassiva. O que se revela não é apenas o retrato de um homem inebriado pela vida e por seus prazeres, mas de alguém condenado a revivê-los indefinidamente, não como experiência, mas como lembrança, não como voo, mas como eco.

Um destino menos espetacular que o esquecimento, porém, infinitamente mais doloroso: a repetição eterna daquilo que já não pode ser recuperado.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.