Cine Boa Vista: o cinema de rua que ressurge no final de “O Agente Secreto”

Antiga sala hoje abriga o banco de sangue que aparece no desfecho de ‘O Agente Secreto’

Por Eduarda Silva

Foto: Reprodução/O Agente Secreto

Este texto contém spoilers 

Na Rua Dom Bosco, próximo à Praça Chora Menino, funcionou durante décadas um dos cinemas de rua que marcaram a paisagem cultural do Recife: o Cine Boa Vista. Inaugurado em 1942, o espaço fez parte de um período em que a cidade chegou a ter cerca de 80 salas de exibição espalhadas por diferentes bairros, verdadeiros pontos de encontro para quem queria ver filmes e viver a experiência coletiva do cinema.

Com capacidade para cerca de 1,8 mil espectadores, o Cine Boa Vista era uma das grandes salas do Centro da cidade. O cinema funcionou até dezembro de 1979, quando fechou as portas, acompanhando o processo de desaparecimento gradual dos cinemas de rua diante das transformações urbanas e do avanço de novos modelos de exibição.

Foto: Rumores do fechamento do Cine Boa Vista no Diário de Pernambuco, dia 22 de setembro de 1978

Depois do encerramento das atividades, o prédio passou por diferentes usos. Primeiro, foi transformado em uma papelaria e, anos mais tarde, chegou a abrigar uma faculdade. Desde 2020, o espaço tem uma nova função, o banco de sangue Hemato, que deixou seu antigo endereço no final da Avenida Lins Petit para ocupar o prédio onde um dia funcionou o cinema.

Hoje, quem passa pelo local talvez não imagina que ali já existiu uma sala com quase duas mil poltronas dedicadas à magia do cinema. Ainda assim, o antigo Cine Boa Vista permanece como parte da memória cultural do Recife, lembrando um tempo em que as sessões lotadas e os letreiros luminosos faziam parte da rotina da cidade.

Foto: Divulgação/Cinemas do Recife

Curiosamente, o prédio também ganha uma nova camada de significado no cinema contemporâneo, é no banco de sangue que hoje ocupa o antigo endereço do Cine Boa Vista que aparece trabalhando Fernando Solimões, filho do personagem Marcelo, no desfecho do filme ‘O Agente Secreto’. O local que um dia projetou histórias na tela agora integra, de outra forma, a narrativa do próprio cinema.

Essa relação entre memória urbana e o desaparecimento dos cinemas de rua é, inclusive, uma marca recorrente na filmografia do diretor Kleber Mendonça Filho. Em ‘Retratos Fantasmas’ (2023), o cineasta revisita a história das antigas salas de exibição do Recife e reflete sobre como esses espaços foram sendo transformados ao longo do tempo. Ao situar o desfecho de ‘O Agente Secreto’ em um prédio que já foi cinema, o diretor retoma essa crítica e reforça seu interesse em registrar, através do cinema, as mudanças na paisagem cultural da cidade.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.