Do Blues ao Hip-Hop: como ‘Pecadores’ conta histórias da música afro-americana
A história do Blues se mistura à trama frenética e ainda sensível de Pecadores
Por Maria Clara Lima

O Blues é um gênero musical de raízes profundas. Em Pecadores, filme de 2025, suas letras melancólicas e ritmos arrebatadores transcendem o tempo para se conectar com vários gêneros musicais que vieram depois e ainda hoje se reinventam ao redor do mundo.
A trilha original de Ludwig Göransson, com colaboração do diretor Ryan Coogler e várias participações especiais, personifica a musicalidade que existe nos personagens, nos locais e na história, e se torna um personagem por si só. Em um cenário de profunda segregação racial nos Estados Unidos de 1930, os gêmeos Fumaça e Fuligem (Michael B. Jordan) movimentam a inauguração de um Juke Joint no Delta do Mississipi, exatamente onde o Blues surgiu primeiro.
Na trama, a música é carregada principalmente pelo Sammie (Miles Caton), filho de pastor e apaixonado por música, cuja trajetória faz referência à vida do patrono do Blues na vida real: Robert Johnson. O Bluesman viveu apenas 27 anos, mas marcou a história com um trabalho incontestável; criou o legado do Delta Blues e mais tarde viria a influenciar o Rock e muitos gêneros adjacentes.
O Blues em Pecadores
No filme, o jovem Sammie vive um dilema entre o sagrado e o profano, se dividindo na escolha entre seguir sua vocação ou permanecer ao lado do seu pai. Na vida real, os cantos que surgiram enquanto força e expressão cultural negra entre os trabalhadores dos campos de plantação de algodão também foram alvo do preconceito que ligava a música ao demoníaco. Nas lendas do Blues, o próprio Robert Johnson foi conhecido por vender a alma ao diabo em uma encruzilhada, entregando seu violão em troca de dominar o instrumento como ninguém. O título de “Pecadores” ressignifica esse pensamento ao longo do filme.
Essa bagagem histórica se reúne na noite de inauguração do bar de Blues dos gêmeos, sob a meia-luz de uma pista de dança que abraça a multiculturalidade. Fumaça e Fuligem defendem a criação do estabelecimento como um espaço de liberdade, prazer e conexão, e assim eram os Juke Joints (ou Juke House). Originados no Foz do Mississípi, esses eram locais que fortaleciam o senso de comunidade e pertencimento entre os negros e negras que enfrentavam a sociedade segregada.
A sequência de “I Lied to You”
É no cenário do Juke Joints recém inaugurado que acontece uma das sequências mais intensas do filme, filmada em uma cena sem cortes durante a apresentação de Sammie no bar: “Existem lendas sobre pessoas que nascem com o dom de fazer música tão verdadeira, que podem perfurar o véu entre a vida e a morte, evocando espíritos do passado e do futuro”. Neste momento, o dom de Sammie resgata a ancestralidade através de uma criação tão sincera que une as pessoas no bar em um movimento uníssono, que expressa o não dito e o não visível.
Conforme a câmera passeia pelo ambiente, ela conecta o Blues de 1930 a ritmos musicais milenares e a outros gêneros que surgiram séculos depois. Espíritos do passado e do futuro surgem dançando entre os visitantes, completamente integrados à multidão, ainda que aparentemente despercebidos; a cena é uma representação visual de uma conexão que se estabelece como atemporal.
Os sons e ritmos de outras eras se juntam à voz e ao violão de Sammie na trilha, unindo a guitarra elétrica do Rock, com referência ao estilo do lendário Jimi Hendrix no final dos anos 1960, um instrumento de percussão utilizado pelo Griô Africano, figura que transmite conhecimentos, histórias, músicas e lições de seu povo, a mesa de som de um DJ e as batidas do Hip-Hop. Toda essa musicalidade cresce na trama de Pecadores como um resgate da essência de vários ritmos musicais, atravessados por um ponto em comum: nascidos em berço negro, representando identidade e pertencimento, até mesmo (ou principalmente) nos encontros mais informais que acontecem apenas com voz e violão.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.