Foto: Cena do filme “Sirât”, de 2025 | Divulgação.

Por Ally Vianna

Há filmes que querem ser experiência, e “Sirât”,  dirigido por Óliver Laxe, não é exceção, ao recorrer ao choque, ao transe e à travessia espiritual como motores da narrativa. O problema, porém, começa quando essa ambição estética se estabelece em um chão real, carregado de ocupação, exílio e violência,  e decide-se, ainda assim, tratá-lo como cenário abstrato. Não parece ser ingenuidade: a própria obra deixa pistas de que sabe exatamente onde está. Em determinado momento, surge a indicação espacial “hacia el sur, cerca de Mauritânia”. A frase, aparentemente simples, esconde um impasse geopolítico evidente, já que o Marrocos só realizaria fronteira com a Mauritânia através da zona ocupada do Saara Ocidental.

Foto: Cena do filme “Sirât”, de 2025 | Reprodução

A ex-colônia espanhola segue listada pela ONU como território não autônomo. O cessar-fogo monitorado pela MINURSO ruiu em 2020. Em síntese, a região permanece marcada pelo berm marroquino e pela contaminação de explosivos, cuja função não se resume apenas à detalhes de contexto, apresentando os elementos que compõem a base material do longa, Laxe constrói um cinema de impacto físico.  Em entrevistas a veículos como a revista Cultured Mag, a emissora canadense CBC Arts e o portal Infobae, o diretor descreveu o projeto como uma espécie de “shock therapy” (em tradução, “terapia de choque”) para empurrar o espectador para dentro de si, confrontando-o com a morte e a própria ferida interior. Essa aposta na exaustão sensorial ajudou o título a ganhar prestígio internacional, percorrendo uma trajetória marcada pelo reconhecimento no Festival de Cannes até chegar ao Oscar de 2026, agraciado com indicações ao prêmio de “Melhor Filme Internacional” e “Melhor Som”.

Filmada no deserto marroquino, a produção flerta com zonas atravessadas por um dos conflitos coloniais mais apagados do presente. Por um lado, ela beneficia-se da força visual dessa geografia, mas, por outro, evita encarar seu peso histórico. Dissolver o mapa, trocar uma guerra concreta por um ruído apocalíptico genérico e não nomear a terra que usa são escolhas narrativas que contém um efeito político muito claro: ajuda a naturalizar a ocupação.

Esse apagamento ganha mais força ao lembrarmos que a Espanha foi a potência colonial dali ao longo de incontáveis anos e que, somente em 2022, mudou sua posição para apoiar o plano de autonomia marroquino. Como resultado, o movimento intensificou a leitura de qualquer representação espanhola sobre a área. Na prática, temos uma obra que passa por uma terra em disputa, na qual é extraída perigo, beleza e transcendência. Ela devolve, no entanto, tudo ao público, embalada como fábula sobre luto e revelação interior, produzindo um registro no qual a ferida colonial vira textura. 

Foto: Cena do filme ‘Sirât’, de 2025 | Reprodução.

Também incomoda a maneira como a narrativa administra corpos vulneráveis. As mortes sucessivas, tratadas por parte da recepção como gesto ousado, acabam soando menos como tragédia e mais como mecanismo. Quando esse dispositivo sádico entra em contato com um literal campo minado, onde explosivos seguem mutilando vidas reais, a encenação torna-se politicamente leviana.

O abismo de poder narrativo fica ainda mais evidente quando observamos o audiovisual operar como ferramenta social. Iniciativas culturais saarauís, como o FiSahara, mostram como é fazer do cinema uma frente de resistência, memória e diálogo direto, lutando pelo direito de existir na imagem. Enquanto isso, grandes produções internacionais seguem tratando o Sul global como um mero pano de fundo para crises existenciais alheias.

Nada disso obriga a arte a virar panfleto. A cobrança aqui não é por didatismo ou aula de geopolítica no meio da mise-en-scène. Um diretor é livre para filmar numa das zonas mais sensíveis do mundo agindo como se pisasse num vazio simbólico, mas essa desconexão cobra um preço ético e político inegável fora da tela.

Como experiência sensorial, o longa de Laxe pode até hipnotizar. Mas, como gesto político, a facilidade com que transforma uma disputa territorial em paisagem espiritual para um consumo espetacularizado apresenta uma falha no ponto em que mais queria parecer profundo. Porque profundidade sem história vira pose. E a transcendência, quando  construída sobre apagamento, continua sendo apagamento.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.