Crédito, débito ou tapa? Entendendo (ou tentando entender) ‘Two People Exchanging Saliva’
Em um mundo onde beijar é um crime inafiançável, um curta se pergunta como a falta de relações influencia a vida
Por Manoel Cunha
“Two People Exchanging Saliva” (ou Duas Pessoas Trocando Saliva, em tradução livre), acompanha Angine e Malaise. Malaise, interpretada por Luàna Bajrami, é vendedora em um shopping center. Angine, vivida por Zar Amir, é uma mulher de alta classe, que diariamente faz compras de roupas. As duas vivem em um mundo onde o carinho e o afeto são crime, e nada exemplifica melhor isso que a forma de pagamento dessa região: tapas.

Em um mundo onde beijos são crimes com pena capital e a moeda de troca são tapas na cara, o que uma dupla de franceses têm a nos contar?
Filmado completamente em preto e branco, o curta explora temas relacionados ao desejo, repressão e vigilância, cuja utilização da premissa, embora absurda, surge como um fator determinante para a reação de choque no espectador. Dirigido pela historiadora de arte Natalie Musteata e o artista visual Alexadre Singh, o longa possui 36 minutos de momentos inacreditáveis.
“Escrevemos isso em 2023 em resposta às realidades absurdas e alarmantes que se desenvolviam ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, o aumento de movimentos extremistas e a polarização ascendente revelaram a fragilidade das normas democráticas” (Natalie Musteata & Alexandre Singh, para a página oficial de Two People Exchanging Saliva, traduzido por Manoel Cunha).
Segundo uma das produtoras do filme, a renomada atriz Jodie Foster, é raro ver um curta com tanta personalidade. Apesar de possuir uma quantidade de tempo limitada, “Two People Exchanging Saliva” é um deslumbre visual. Por meio da inserção de uma fotografia em preto e branco e a utilização de uma arquitetura que remete ao brutalismo, a produção apresenta o apoio de elementos estético narrativos para contar parte da história.
Lançado inicialmente no Festival de Filmes de Telluride, o filme venceu oito vezes, dentre as seis premiações diferentes nas quais foi indicado, e agora está concorrendo ao Oscar de melhor curta-metragem.
Two People Exchanging Saliva está disponível nos canais do jornal The New Yorker, ainda, no entanto, sem legendas em português. Caso não consiga assistir ou não possua domínio em inglês, continue lendo a matéria para saber o que conta o filme.
Curta completo, disponibilizado no canal The New Yorker
Parte 1 – O Jogo
Antes da tela de título, vemos trabalhadores carregando uma caixa que aparenta conter uma pessoa em agonia dentro. Após a “desova” dessa caixa, somos apresentados ao título do curta e ao nome da primeira parte. Nela, conhecemos Malaise (traduzido como indisposição ou mal-estar, em francês), uma jovem que está começando um novo emprego como vendedora em um shopping center.
Chegando na entrada para funcionários, vemos várias mulheres comendo cebolas antes de passar por um teste olfativo na entrada do complexo. Uma narradora nos conta que esse é o primeiro dia de Malaise no trabalho. A jovem conhece Pétulante, uma funcionária mais velha que dá dicas de como se portar nesse trabalho. No ambiente, é possível notar que todos os clientes parecem ter manchas no lado esquerdo do rosto.

Enquanto carrega sapatos, Malaise acaba tropeçando e derrubando as caixas, o que a faz encontrar Angine — Angine significa Angina em português, no qual refere-se ao termo médico para “dor no peito”. Essa é uma das clientes mais importantes para Pétulante, que sempre costuma atender a mulher. Após encontrá-la, a novata decide fazer uma “brincadeira” com a cliente, fingindo que se conhecem há tempos. Após uma breve conversa, Angine decide terminar as compras e seguir para o caixa, onde faz uma compra que custa mais de 30 tapas. Isso explica os machucados dos clientes.
Ao voltar para casa, Malaise é parabenizada por outros funcionários pela grande venda que fez em seu primeiro dia de serviço, parando para comprar alguns itens de casa, enquanto o vendedor oferece a ela um chiclete de alho – o que explica porque todos os personagens sempre parecem estar mascando algo. Na saída dela, vemos mais trabalhadores carregando caixas com pessoas, e um vizinho de Malaise menciona que dois adolescentes foram encontrados “trocando saliva” na escadaria do prédio.

Parte 2 – O Incidente
Na segunda parte, somos apresentados ao desenvolvimento da relação entre Malaise e Angine, atravessada pelo surgimento de uma tensão apreensiva, e, de modo simultâneo, sexual Nos dias seguintes, Angine passa a visitar a loja com uma frequência cada vez maior. O que começa como uma simples relação entre cliente e vendedora logo se transforma em algo mais ambíguo. Olhares prolongados, conversas que parecem durar tempo demais para simples transações comerciais e, claro, as compras, fazem-se presentes. Cada item adquirido significa mais tapas no rosto de Angine no momento do pagamento, algo que ela passa a aceitar quase com prazer.
Esse detalhe, que inicialmente parece apenas mais uma excentricidade daquele mundo, ganha um peso simbólico interessante. O tapa funciona como substituto grotesco do toque: uma forma socialmente aceita de contato físico em uma sociedade que criminaliza a intimidade.
Enquanto isso, Malaise começa a cruzar uma linha perigosa. Em um mercado clandestino, ela compra uma escova de dentes e pasta, objetos praticamente proibidos naquele universo. Se o cheiro forte de alho e a falta de higiene bucal são estratégias coletivas para afastar qualquer possibilidade de desejo, escovar os dentes se torna um gesto quase revolucionário.
O segredo, porém, não dura muito. Deprimida por perceber que está aos poucos sendo trocada por Malaise, Pétulante decide ir ao banheiro, momento em que escuta o som da escova e garante uma carta na manga para usar contra a novata.
A tensão entre as três personagens chega ao ápice quando uma mulher é detida dentro do shopping após tentar beijar o próprio marido. O ato, tratado como uma espécie de obscenidade pública, termina de forma brutal: a mulher é amarrada, colocada dentro de uma caixa de papelão e executada ao ser lançada de um penhasco.

Parte 3 – O Desejo
Se nas partes anteriores o filme brinca com o absurdo da premissa, é aqui que a história revela seu lado mais trágico.
Depois de descobrir imagens de pessoas se beijando na bolsa da mulher presa, Angine já não consegue ignorar aquilo que sente. O desejo, até então reprimido por normas sociais violentas, finalmente encontra uma forma de emergir.
Determinada, ela decide fazer o impensável: escova os dentes e corre para o shopping com a intenção de encontrar Malaise e beijá-la em segredo. Contudo, o que Angine encontra no local é outra coisa.
Pétulante, movida por inveja ou ressentimento, acusa Malaise de ter tentado beijá-la à força. Como prova, entrega às autoridades a escova e a pasta de dentes encontradas com a jovem. Quando Angine descobre o que aconteceu, já é tarde demais.
A sequência final mostra Angine caminhando até o penhasco onde são descartados os corpos das pessoas executadas. Entre as caixas espalhadas pelo desfiladeiro, ela encontra Malaise. O momento é silencioso, quase contemplativo, contrastando com o tom satírico do início do curta.
Por fim, o filme ainda reserva um último golpe emocional. Em um flashback, descobrimos que, dias antes, no aniversário solitário de Malaise, ela havia desejado que Angine aparecesse em sua porta. Alguém chegou a bater.
Angine, que de fato havia ido até lá, perdeu a coragem no último momento e decidiu ir embora, revelando, de modo desolador, que a única chance que as duas tiveram de se conectar, desapareceu antes mesmo de acontecer.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.