Onde estão as narrativas lésbicas no Oscar 2026?

Por que histórias lésbicas quase não aparecem no Oscar? Um panorama da invisibilidade sáfica na premiação

Por Anna Mol

Foto: Jeff Kravitz//Getty Images

A cada temporada do Oscar, a discussão sobre representatividade volta à tona. Embora o cinema LGBTQ+ tenha conquistado maior visibilidade nas últimas décadas, histórias centradas em mulheres sáficas ainda ocupam espaços limitados na maior premiação do cinema mundial.

Mesmo em anos considerados mais progressistas, o Oscar continua refletindo uma desigualdade histórica quando se trata de representações lésbicas tanto em frente quanto atrás das câmeras. Desde a criação da Academia, em 1929, são raros os filmes com protagonistas lésbicas que chegam às principais categorias. Alguns títulos se tornaram emblemáticos, mas ainda sim são exceções dentro da história da premiação.

Entre os exemplos mais conhecidos está ‘The Color Purple’, indicado a 11 Oscars em 1986. Décadas depois, outros filmes com personagens ou relações lésbicas também chegaram à premiação, como ‘The Hours’, ‘The Kids Are All Right’ e ‘The Favourite’.

Em 2015, ‘Carol’, dirigido por Todd Haynes e estrelado por Cate Blanchett e Rooney Mara, tornou-se um dos exemplos mais conhecidos do cinema lésbico contemporâneo, recebendo seis indicações ao Oscar. Ainda assim, o filme não venceu em nenhuma categoria.

Mesmo entre os filmes LGBTQ+ que conquistaram espaço na premiação, a presença lésbica continua pequena. A vitória histórica de ‘Moonlight’ como Melhor Filme, em 2017, marcou um avanço importante para o cinema queer, mas ainda sim, centrado na experiência de um protagonista masculino.

Se as indicações são poucas, a lista de filmes lésbicos aclamados pela crítica que foram ignorados pelo Oscar é ainda maior.

Um dos casos mais comentados pela comunidade é ‘Retrato de Uma Jovem em Chamas’, dirigido por Céline Sciamma. Considerado por muitos críticos um dos melhores filmes de 2019, o longa francês recebeu reconhecimento em diversos festivais e entre a crítica internacional, mas acabou ausente da cerimônia.

Já Desert Hearts, frequentemente citado como um marco do cinema lésbico nos anos 1980, nunca chegou ao radar do Oscar, apesar de sua importância histórica. Mais recentemente, filmes como ‘Ammonite’ e ‘The World to Come’ também passaram praticamente despercebidos pela premiação.

Esses casos revelam o padrão recorrente de que muitas das narrativas lésbicas mais relevantes do cinema contemporâneo são celebradas pela crítica, mas não conseguem atravessar o circuito de premiações, refletindo não apenas as escolhas da Academia, mas também as prioridades de investimento das grandes produtoras e distribuidoras.

Além das barreiras históricas da indústria, dados recentes ajudam a explicar por que narrativas lésbicas continuam raras em grandes premiações. Um relatório da GLAAD que analisou filmes lançados por grandes estúdios de Hollywood apontou que apenas cerca de 27% das produções incluíam personagens LGBTQ+. Dentro desse grupo, a representação também é desigual: a maioria desses personagens são homens gays, enquanto personagens lésbicas aparecem em proporção menor e, muitas vezes, com tempo de tela limitado. O estudo revela que, mesmo quando há presença LGBTQ+ nas produções, histórias centradas em mulheres queer continuam sendo menos desenvolvidas e menos frequentes nas narrativas principais.

Dito isso, precisamos analisar que, quando finalmente vemos filmes LGBTQIA+ serem nomeados nas principais categorias, normalmente são narrativas centradas em personagens masculinos. Filmes como ‘Milk’, ‘Call Me by Your Name’ e ‘Moonlight’ receberam destaque nas premiações. Enquanto isso, histórias sobre mulheres queer continuam aparecendo com menos frequência entre os indicados, evidenciando as desigualdades estruturais na indústria cinematográfica.

Diretoras, roteiristas e produtoras ainda têm menos acesso a financiamento, distribuição e campanhas de premiação. Como resultado, muitos filmes lésbicos acabam circulando principalmente em festivais ou no circuito independente, com menor ou quase nenhuma visibilidade na corrida pelo Oscar.

A edição de 2026 não parece romper completamente esse padrão. A temporada trouxe poucas produções centradas em narrativas femininas queer entre os indicados, refletindo um cenário em que representações sáficas continuam marginalizadas dentro da premiação.

Este ano,  temos o Documentário ‘Embaixo da Luz de Neon’(‘Come See Me in the Good Light’) cuja narrativa acompanha a falecida poetisa Andrea Gibson e sua esposa Megan Falley enquanto enfrentam o câncer terminal de ovário de Gibson. Você pode assistir ao documentário no AppleTv.

Outro filme dentro da temática é o ‘Duas pessoas trocando saliva’ (‘Two People Exchanging Saliva’). O curta de ficção narra a história de Melaise que começa a desenvolver uma relação ambígua e íntima com Angine. A história se passa em uma sociedade distópica onde beijar é ilegal e punido com morte. Que você encontra no Youtube no canal do The New Yorker

Por fim, mais do que ocupar o centro da premiação, o que se coloca em debate é algo mais básico: que histórias sobre mulheres lésbicas possam existir no cinema com a mesma legitimidade e visibilidade que outras narrativas já consolidadas na indústria. Afinal, ampliar o repertório de histórias reconhecidas pelo Oscar também significa ampliar as formas de representar experiências humanas no cinema.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.