Ele não é o homem que vocês querem: O Agente Secreto revisita o apagamento LGBTQIAPN+ na Ditadura

Sob a égide do acolhimento, Dona Sebastiana protagoniza cena que dialoga com a diversidade e se conecta à outras obras

Por Marlus Alvarenga

Foto: Veja Abril

A ditadura militar brasileira (1964–1985) construiu no país um sistema de vigilância moral e política marcado por um militarismo doentio, que atingiu diversos grupos sociais. Entre os mais silenciados estavam as pessoas LGBT+, cuja existência era frequentemente tratada como desvio moral, tornando-se alvo de censura, perseguição policial e invisibilização cultural.

Nas últimas décadas, o cinema brasileiro passou a revisitar essa história, revelando como sexualidade, arte e resistência se entrelaçaram em um contexto de repressão. Filmes como Onda Nova (1983), Tatuagem (2013) e O Agente Secreto (2025) oferecem diferentes perspectivas sobre essa memória apagada. Em muitos desses relatos, os personagens da diversidade sexual parecem não ter futuro: o queer causa repulsa e, por esse descarte social, foi historicamente evitado ou marginalizado em grande parte das cinematografias.

Resta — de forma urgente — lembrar que, a qualquer momento, ecos desse regime podem retornar às pautas políticas de parte da nossa sociedade, cujos setores, por conveniência ou alienação, ainda se mostram capazes de enaltecer esse tipo de política mortal.

Foto: CNN Brasil

Produzido ainda nos últimos anos da ditadura, Onda Nova tornou-se um exemplo emblemático de como a liberdade sexual podia ser interpretada como ameaça política. O filme acompanha um time de futebol feminino fictício — o Gayvotas Futebol Clube — cujas integrantes enfrentam o conservadorismo social enquanto buscam autonomia e prazer.

Após sua exibição inicial, em 1983, a obra foi proibida pela censura do regime sob a alegação de ferir a “moral e os bons costumes”, sendo considerada uma apologia à bissexualidade e ao amor livre. Mesmo sem tratar diretamente de militância política, a centralidade do desejo e da autonomia corporal tornou o filme subversivo para o regime. Como sugere a própria narrativa, o simples fato de colocar o desejo no centro da história já funcionava como gesto de resistência diante de um Estado que buscava controlar comportamentos e identidades.

Esse tipo de repressão moral não se limitava ao cinema. A perseguição institucional à homossexualidade também se manifestava em operações policiais, censura cultural e vigilância sobre espaços de sociabilidade queer — fenômeno que só começaria a ser amplamente discutido décadas depois.

Foto: Cultara PE (Gov)

Se Onda Nova evidencia a censura direta do regime, o filme Tatuagem, dirigido por Hilton Lacerda, revisita o período da ditadura a partir da memória. Ambientado em 1978, o longa acompanha a trupe teatral Chão de Estrelas, um grupo contracultural que utiliza performances irreverentes e erotizadas para provocar a moral conservadora da época.

No centro da narrativa está o romance entre Clécio, interpretado por Irandhir Santos, líder do grupo, e Fininha, vivido por Jesuíta Barbosa, um jovem soldado do Exército. O contraste entre o universo libertário do teatro e a rigidez militar revela o conflito entre duas visões de mundo: de um lado, a disciplina autoritária; de outro, o corpo como espaço de expressão política e afetiva.

Mais do que retratar a repressão, o filme mostra como comunidades artísticas e culturais criaram zonas de liberdade dentro de um regime opressivo. A arte, nesse contexto, não aparece apenas como denúncia, mas como estratégia de sobrevivência coletiva: gays estereotipados, queer, drags, travestis, lésbicas — tudo parecia caber nesses espaços de resistência. A própria metalinguagem do filme sugere que, ainda hoje, os movimentos artísticos permanecem, quase sempre, entre os espaços mais seguros para a diversidade de gênero e sexualidade.

Foto: Pod Pop

Ressalta-se que esse diálogo sobre as obras pode ser aprofundado à luz das reflexões do teórico queer Lee Edelman em No Future: Queer Theory and the Death Drive (2004). Edelman critica a centralidade da ideia de “futuro” na política heteronormativa — frequentemente simbolizada pela figura da criança — e argumenta que identidades queer são percebidas como ameaças à ordem social dominante.

No contexto da ditadura brasileira, essa lógica manifesta-se na tentativa de preservar um ideal de “família de bem”, moralidade e produtividade social. O desejo queer, por sua natureza dissidente e subversiva, ao desafiar esse modelo, torna-se alvo de repressão. Assim, o corpo dissidente passa a ser percebido como um perigo simbólico para a continuidade da nação imaginada pelo regime ditatorial.

Foto: Veja Abril

A transformação dessas experiências também aparece em registros culturais posteriores à ditadura. No livro Babado Forte, a jornalista Erika Palomino mapeia a formação da cultura clubber e da noite LGBT brasileira a partir do final dos anos 1980 e início dos anos 1990. A obra mostra como pistas de dança, festas e circuitos underground se tornaram espaços de visibilidade e experimentação identitária, ampliando territórios de sociabilidade queer após o período autoritário.

Como forma de resistência, a história da cultura LGBT no Brasil pode ser entendida como um movimento que vai da repressão e da invisibilidade durante a ditadura à criação de espaços de expressão coletiva no processo de redemocratização. Ainda assim, é importante reconhecer que esses espaços nunca deixaram de conviver com a repressão. Persistem, até hoje, desafios diários pelo simples fato de amar iguais — enquanto muitos ainda são impedidos de amar em igualdade.

O desejo de setores extremistas — religiosos, de direita política ou mesmo de um centro autoritário — continua sendo o apagamento e a marginalização dos corpos que insistem em ser livres. Nesse sentido, o “S” da antiga sigla GLS, que representava o “simpatizante”, hoje soa como um silêncio: algo que já não cabe mais nem na sigla, nem nas vidas LGBT+.

Foto: AlloCiné / acsta.net

Dona Sebastiana (Tânia Maria), personagem que conquistou os corações do Brasil e do mundo por meio de uma interpretação icônica em O Agente Secreto, acolhe os perseguidos e excluídos do período ditatorial em Recife. Em uma cena muito especial, após receber o protagonista, Dona Sebastiana apresenta a Armando (Wagner Moura) o jovem Clóvis (Robson Andrade).

Clóvis, com delicadeza, responde à indagação da senhora — “Clóvis é homem. Não é, Clóvis?” — com um simples: “Sou homem, sim”. Porém, a fala que se segue, mesmo curta e direta, diz muito sobre o apagamento LGBT+ naquele período: “Mas não (homem) do jeito que eles querem”.

Essa frase reverbera profundamente em muitos homens gays que já passaram por opressão em casa, na rua ou na escola; que sofreram com dedos apontados contra si, com religiosos exigindo masculinidade, com familiares utilizando aspectos femininos para inferiorizar e desmasculinizar — de forma ofensiva — a existência queer. Quando Clóvis afirma não ser o homem esperado por “eles”, explicita-se um discurso que ainda atravessa diferentes vivências: o de que o ser ou não ser deveria se enquadrar em um modelo rígido de masculinidade.

Embora não devesse mais ser uma questão problemática hoje, essa cobrança continua ecoando em muitas experiências — e ressoa com força nessa fala impactante situada em um período de repressão.

Produções contemporâneas como O Agente Secreto continuam ampliando esse debate ao revisitar os arquivos e os silêncios da ditadura sob perspectivas menos exploradas. Ao inserir personagens queer na narrativa histórica, o cinema brasileiro contribui para reescrever uma memória que, por muito tempo, foi omitida dos relatos oficiais.

Mais do que recuperar episódios esquecidos, esses filmes revelam que a repressão política também foi uma repressão dos corpos e dos afetos. Ao dar visibilidade a essas histórias, o cinema se torna uma ferramenta fundamental para compreender como o desejo, a arte e a dissidência sexual atravessaram um dos períodos mais sombrios da história brasileira.

Pensar o cinema e as cinematografias como um dossiê artístico-social das vivências marginalizadas é também uma forma de garantir que essas experiências nunca sejam esquecidas — mas, ao contrário, continuamente lembradas e reverberadas.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.