Por Isaac Urano

No sertão paraibano floresce um som que reverbera as camadas da música brasileira contemporânea. Elon constrói um trabalho que costura tradição e experimentação — uma música que refresca a cena musical nordestina. Natural de Pombal, no interior da Paraíba, Elon carrega em sua formação referências que vão das cantigas de Reisado a um Brasil atravessado pela cultura pop. O resultado é uma mistura de memória, corpo e movimento.

Com mais de uma década de atuação musical e lançamentos autorais mais recentes, Elon se prepara agora para um novo momento na carreira: a chegada do primeiro álbum. Entre reflexões sobre o papel social da arte, a potência política da música e a liberdade de criar sem fórmulas rígidas, revela-se uma trajetória construída com intuição, confiança e um desejo constante de provocar sensações no público.

Divulgação / Mariana Stuckert

U: Eu definiria uma excelência nordestina no teu trabalho, e ele parece dialogar com diferentes camadas da música que temos aqui. Há referências do sertão, da música popular brasileira, mas também uma busca por sonoridades mais contemporâneas — algo que acredito fazer parte da tua construção como pessoa e também do que tu gosta de escutar. Mas como tu percebe essa transição indo para dentro da tua música? Em que momento tradição e experimentação se encontram no teu processo?

E: Primeiramente, agradeço pelas considerações. A música sempre fez parte da minha vida, tanto enquanto ouvinte quanto enquanto artista. Essa relação começa antes mesmo do meu nascimento. Meus pais dizem que, na noite anterior, estavam em um concerto da Orquestra dos Meninos de São Caetano (em Pombal), regida por Mozart Vieira, e tocavam Bachianas Brasileiras nº 5, de Villa-Lobos, quando dei sinal de que ia nascer.

Depois vem a música dos grupos tradicionais da cidade de Pombal. Meu pai, Luizinho Barbosa, é brincante de Reisado e também envolvido com os Congos e Pontões de Pombal. Esses brinquedos tradicionais fazem parte do imaginário da minha infância. Mas tudo isso também se mistura com a música popular brasileira a partir da minha adolescência, quando comecei a trabalhar me apresentando em eventos e barzinhos na cidade.

Além disso, sempre me interessei por experimentalismos e pela cultura pop mundial, muito por causa da rádio e da internet. Gosto muito de ouvir música e tenho curiosidade sobre novos sons. Também vem daí minha relação com a literatura popular: estudei aspectos do mundo do Direito em folhetos de cordel de Leandro Gomes de Barros.

A soma de todas essas referências me forma como artista e como pessoa. O processo criativo naturalmente absorve tudo isso, de modo que essa transição não tem um cálculo ou método definido. Meu processo é bastante intuitivo e eu busco criar experiências e entregar sensações. Tudo tem a ver com o efeito da música no corpo em movimento. Esse processo musical ganha ainda outros contornos por causa da minha vivência pessoal no mundo, enquanto pessoa negra, não-binária, artista e vinda do sertão.

U: Quando se fala em música nordestina contemporânea, muita coisa está acontecendo agora. Novas estéticas, novas narrativas, novos corpos ocupando o palco. E você definitivamente faz parte desse movimento. Mas como é estar nessa jornada hoje? Que alicerce você sente que está construindo não apenas dentro da cena, mas dentro de si?

E: Penso que, profissionalmente, é uma construção de muito trabalho, e a gente, com o tempo, vai entendendo melhor o próprio caminho. Trabalho com música desde os 16 anos de idade e entendo que ainda estou no início da minha carreira. Comecei a lançar projetos de 2019 para cá e, em 2026, lanço meu primeiro álbum. Então, mesmo com mais de dez anos de atividade, é um processo relativamente recente.

Sinto que, nesse tempo, adquiri maturidade para compreender melhor o que quero na música que faço. Tenho atuado de forma independente, mas também em interdependência com parceiros e parceiras de canção e de produção. Amo o que faço e me sinto feliz quando minha música toca as pessoas.

Divulgação / Coquetel Molotov Negócios

U: Ser artista é também criar imagens e mundos possíveis. Quando tu olha para o caminho que tua música está abrindo agora, o que aparece no horizonte? Que experimentações, histórias ou sons tu sente vontade de explorar nos próximos passos?

E: Há um tempo, em um programa, me fizeram uma pergunta parecida. Foi algo como: “Por que você faz música? Que sentido você quer dar a ela?”. Eu demorei a responder durante a entrevista, porque nunca tinha parado para pensar nisso. Para além de ser uma profissão, faço música por muito prazer.

Naquele momento, eu ainda não tinha me dado conta de que esse prazer também é o que quero transmitir ao público. Então me lembro de situações como quando uma pessoa me abordou no meio do carnaval para dizer que uma música minha a ajudou a sair da depressão; ou quando outra foi trilha sonora de um namoro que virou casamento; ou ainda quando alguma música minha é utilizada em sala de aula de História da Paraíba.

Para mim, isso é algo profundo. Entendo que, depois que a criação é colocada no mundo, ela alcança as pessoas de diversas formas e cumpre um papel que é individual, mas também social e político. Acredito muito na potência que a arte tem de movimentar estruturas a partir de pequenas revoluções. Quero que meu trabalho toque as pessoas dessa forma: fazendo dançar, mas também provocando reflexões. Quero que, através da música, as pessoas encontrem seus lugares de potência e de felicidade — assim como eu também encontro quando me entrego a essa arte.

U: Eu soube que este ano vem álbum novo, mas adoraria saber o que vem por aí. Que universo tu está criando nessa nova fase? O que a gente pode esperar?

E: TRANSVERBERAR, meu primeiro álbum! É um trabalho que vem sendo maturado desde 2023. Durante esse tempo já circulamos pelo Brasil apresentando esse repertório e criando conexões. Essa circulação gerou maturidade e consistência, e posso dizer que o projeto está sendo finalizado.

O disco chega com oito faixas e muita vontade de ganhar o mundo, celebrando a diversidade no exercício da liberdade. O que eu queria era desenvolver um projeto que transmitisse plenitude — a começar pelo título, que significa “deixar a luz passar”. É um disco de música pop, com canções feitas para dançar e pensar, que passeiam por um imaginário afetivo nordestino e queer.

Divulgação / Roan Nascimento

Acabado o pé-de-serra — bem pé-de-bicha — Elon se prepara para apresentar ao público Transverberar, primeiro álbum da carreira. O trabalho vem sendo desenvolvido desde 2023 e já circulou por diferentes palcos do país antes mesmo do lançamento. Com oito faixas, o disco nasce com a proposta de ser uma experiência pop voltada ao corpo em movimento, mas também ao pensamento, atravessando o imaginário afetivo nordestino e mexendo nos alicerces que ainda precisam ser desestabilizados.

O título do projeto carrega a ideia de “deixar a luz passar”, conceito que dialoga com a própria trajetória de Elon: a música como celebração da diversidade, símbolo de potência e carregada de um coração afogado em poiésis. Entre dançar e refletir, a expectativa é que o novo trabalho amplie ainda mais esse encontro entre criação, público e mundo. Elon agora rompe paradigmas e se estabelece como um dos pilares de um Nordeste musical carregado de identidade e avant-garde.