A consagração política do terror no Oscar é o espelho mais honesto do nosso tempo
Após décadas à margem das grandes premiações, o cinema de terror cobra seu espaço e se consolida como um espelho da nossa realidade.

por Ally Vianna
Durante muito tempo, o cinema de terror ocupou um lugar marginal, frequentemente tratado como um cinema pagão, apelativo, ruim ou até proibido. Mesmo amado pelo público e bem sucedido nas bilheterias, o gênero quase sempre precisou se contentar com um lugar considerado “inferior”, distante das grandes consagrações.
Mas essa lógica começa a mudar. Nos últimos anos, produções ligadas ao horror voltaram a aparecer entre os indicados ao Oscar, inclusive em categorias centrais. Em 2025, A Substância chegou à categoria de Melhor Filme e venceu em Maquiagem e Cabelo, algo raro para um gênero que durante décadas foi mantido à margem da premiação.
Em 2026, essa abertura ficou ainda mais evidente. Títulos como Pecadores (Ryan Coogler), Frankenstein (Guillermo del Toro) e A Irmã Feia (Emilie Blichfeldt) apareceram entre os indicados nas principais categorias, reforçando uma presença cada vez mais visível do gênero.
Entre eles, Pecadores se tornou um dos fenômenos da temporada. O filme de vampiros, estrelado por Michael B. Jordan, bateu recorde histórico no Oscar ao alcançar 16 indicações, superando a antiga marca de 14 indicações registrada por clássicos como A Malvada, Titanic e La La Land. O feito não apenas consolida o longa como um dos favoritos da edição de 2026, mas também evidencia uma mudança simbólica ao reposicionar um gênero historicamente tratado como menor dentro dos circuitos internacionais de prestígio do cinema.

Esse reconhecimento recente também chama atenção por um contraste antigo. Ao longo das décadas, Hollywood descobriu no gênero uma fórmula quase perfeita de negócio. Filmes relativamente baratos eram capazes de gerar lucros gigantescos e mobilizar o público em escala global.
A Bruxa de Blair (1999) é o grande exemplo. Produzido por cerca de 60 mil dólares, o longa arrecadou quase 250 milhões nas bilheterias mundiais e se tornou um fenômeno cultural. Ignorado nas principais premiações, o filme acabou se consolidando como um marco e carrega, até hoje, uma legião de entusiastas.
Em quase um século de Oscar, desde 1929, menos de dez filmes de horror conseguiram chegar à categoria de Melhor Filme. É um número mínimo para um gênero tão popular e influente. Instituições históricas sempre tiveram dificuldade em abraçar um cinema cuja força está exatamente no desconforto que provoca.
Quando Mary Shelley publica Frankenstein, em 1818, ela apresenta ao mundo uma obra atravessada por debates complexos. Fala sobre ciência, responsabilidade, poder e exclusão, além dos limites de um ideal moderno que prometia progresso, mas frequentemente produzia abandono. A criatura se assusta porque é rejeitada antes mesmo de poder existir plenamente.
Talvez por isso o terror seja um gênero tão íntimo da figura do marginalizado. Afinal, a criatura costuma ser o corpo que não cabe. É o excessivo, o desviado, o impuro, o ilegível. Tudo aquilo que a ordem social empurra para a margem, retorna no horror.
A história do cinema prova isso. O expressionismo alemão transformou o trauma da guerra em cenários e sombras deformadas. O terror nuclear da Guerra Fria deu origem a criaturas moldadas pela ansiedade atômica. Décadas depois, o slasher americano trouxe a violência para dentro de casa e fez do cotidiano um espaço de perseguição, paranóia e colapso.

Durante décadas, normas rígidas de censura, como o Código Hays, limitaram a representação aberta de identidades consideradas “desviantes”. Isso empurrou esses conflitos para metáforas e subtextos, tornando o horror um terreno fértil para essas codificações. Nos anos 1980, em meio ao clima de paranoia moral e à crise da AIDS, muitos desses elementos passaram a ser relidos de forma mais explícita.
É nesse contexto que títulos como The Rocky Horror Picture Show ocupam um lugar central. Ali, o monstruoso se torna performance, deboche e liberdade. Em outros casos, essa dimensão aparece de forma velada.
A Hora do Pesadelo 2, por exemplo, ganhou ao longo do tempo uma leitura queer evidente. O protagonista Jesse Walsh (Mark Patton) atravessa um conflito interno que o filme traduz em imagens de possessão e perda de controle. O personagem parece lutar contra algo que tenta emergir de dentro dele. É uma metáfora que muitos estudiosos associam às tensões em torno do desejo, da identidade e da repressão sexual nos anos 1980.

Cineastas contemporâneos também ajudaram a reposicionar o terror dentro do debate cultural. Filmes dirigidos por Jordan Peele, como Corra! e Nós, mostram como o gênero pode ser utilizado para discutir raça, violência estrutural e identidade. Isso reafirma o potencial político que sempre esteve presente no terror, já que o gênero funciona como uma linguagem capaz de dar forma ao medo e às tensões de seu tempo.
No fundo, monstros sempre foram políticos porque sempre foram construídos a partir do medo do outro. O racializado, o sexualizado, o empobrecido, o feminilizado, o envelhecido, o estrangeiro, o dissidente. O horror é o lugar em que esse medo ganha forma e assim, pode ser desmontado.
Talvez seja esse o movimento que agora começa a aparecer com mais força nas premiações,tornando cada vez mais difícil ignorar um gênero que insiste em pensar o presente com ousadia.
E faz sentido que isso aconteça num tempo como o nosso. Um tempo de paranóia social, regressão moral, vigilância sobre corpos e ataques a dissidências. Em épocas assim, aquele que é lido como monstro é quem escancara a violência de quem dita a normalidade.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.