por Lohuama Alves 

Foto: (Divulgação/Vitrine Filmes) Credit: Foto: (Divulgação/Vitrine Filmes)

Em tempos de polarização política, disputa de narrativas e ataques à memória histórica, o cinema brasileiro volta a ocupar um lugar incômodo e, principalmente, necessário. A repercussão de “O Agente Secreto”, filme de Kleber Mendonça Filho, mostra que o cinema político segue vivo, provocando debates e atravessando fronteiras. E, ao que tudo indica, entra com força na corrida pelo Oscar 2026 , assim como “Ainda Estou Aqui”, em 2025.

Mais do que um thriller ambientado na ditadura militar brasileira, o longa emerge como um lembrete de que o passado autoritário do país ainda reverbera no presente. Em um momento em que setores da sociedade relativizam violações históricas e tentam reescrever capítulos sombrios da democracia brasileira, revisitar esse período não é apenas um exercício de memória, mas é também um ato político.

E é justamente por isso que “O Agente Secreto” incomoda. Ao explorar vigilância, perseguição e manipulação institucional, o longa aponta para mecanismos de poder que não pertencem apenas ao passado. A narrativa dialoga com um Brasil que ainda discute limites institucionais, democracia e liberdade. O resultado é um filme que ultrapassa o circuito cultural e entra diretamente no campo do debate público.

Se o cinema brasileiro já mostrou sua força internacional com produções como “Central do Brasil” (1998)  e “Cidade de Deus” (2002), agora a expectativa em torno de “O Agente Secreto” (2025) reacende a possibilidade de um novo destaque global. Críticos e festivais já apontam o filme como forte candidato na disputa por premiações no Oscar 2026. Mas há um paradoxo nessa possível trajetória. Enquanto no exterior o cinema político brasileiro costuma ser celebrado por sua potência artística e crítica social, dentro do país ele frequentemente é alvo de ataques, desinformação e disputas ideológicas.

Não é novidade. Desde o Cinema Novo, com nomes como Glauber Rocha e Walter Salles, o cinema nacional carrega a marca da provocação política. Filmes que questionam estruturas de poder sempre despertaram reações intensas porque a arte, quando toca em feridas abertas, raramente passa despercebida.
A força de “O Agente Secreto” está justamente em lembrar que cinema não precisa ser apenas entretenimento, mas que pode ser também memória, denúncia e disputa de narrativa. Marcando presença no Oscar 2026, o filme levará ao centro da indústria cinematográfica mundial uma pergunta que o Brasil ainda evita responder plenamente: como lidar com os fantasmas do próprio passado? No fim das contas, quando um filme incomoda tanto, talvez o problema não esteja na obra, mas naquilo que ela revela.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.