O que a ausência de corpos com deficiência diz sobre o Oscar 2026
A ausência de corpos com deficiência no Oscar 2026 revela padrões capacitistas e narrativas limitantes.
Por Gabriela Callado
A história da representação da deficiência no Oscar começou oficialmente na cerimônia de 1947, quando ‘Os Melhores Anos da Nossa Vida’ (1946) venceu a categoria de Melhor Filme. O filme foi inovador ao representar, após a Segunda Guerra Mundial, veteranos retornando às suas casas e se ajustando à vida civil nos Estados Unidos. A direção foi assinada por um veterano com uma deficiência auditiva, William Wyler, que teve uma decisão de escolha de elenco arriscada, porém precisa. Harold Russell levou os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante e uma Menção Honrosa, um recém-ator que teve sua estreia nas telas de cinema com esse premiado longa, e que era uma pessoa com uma deficiência física. Apesar da representatividade autêntica do personagem de Russell, Homer, sua experiência vivida não anulou a dependência da jornada de superação submetida ao fecho da narrativa do filme. Essa estratégia repetitiva amarrada à representação da deficiência como um aspecto primário da vida arrisca reduzir a deficiência a uma singularidade ao invés de apenas outra dimensão de uma vida humana complexa.

Ao longo das décadas, a Academia do Oscar deu preferência a premiar narrativas que enquadram a deficiência em estruturas emocionais, focadas na superação, na tragédia ou no espetáculo do corpo considerado anormal. Essa tradição é reforçada por uma evidente, porém despercebida, lacuna atual em uma das cerimônias mais aclamadas mundialmente. Um espaço que deveria exercer seu papel de acolher diversidade e resistir a preconceitos estruturais, seja de gênero, sexualidade ou deficiência, falha em reconhecer aquelas pessoas mais marginalizadas. Isso nos faz refletir sobre a estrutura da curadoria de filmes da Academia e sobre a importância de quem faz parte da equipe de votação.
No Oscar 2026, a invisibilidade de corpos com deficiência, tanto na frente quanto atrás das câmeras, também prejudica a transparência das formas distintas de construir narrativas, especialmente aquelas que funcionam em uma temporalidade def (abreviação politizada de deficiência), mais devagar do que o padrão hollywoodiano. No entanto, isso não é um caso isolado, é apenas uma continuidade de uma lógica institucional que privilegia narrativas que confortam o espectador ao invés de produzir reflexões, que provocam um certo desconforto.
Há, portanto, algumas exceções no Oscar 2026 que podem ser lidas em uma narrativa def, como ‘Bugonia’ (2025), que teve 4 nomeações, incluindo Melhor Filme, e que parece estar em uma categoria distinta dos padrões da Academia. O filme conta com o personagem coadjuvante Don (Aidan Delbis), que se encontra no espectro autista, e seu papel rompe a tradição da deficiência como obstáculo dramático. Em nenhum momento da narrativa, é definida radicalmente sua deficiência; pelo contrário, a decisão da direção considerou esse aspecto irrelevante. Nesse sentido, pode-se questionar se uma pessoa com deficiência deveria ser automaticamente atrelada a um papel que aborda a deficiência. Em ‘Bugonia’ (2025), a narrativa foca mais na pessoa do que na deficiência, ironicamente, dentro de seu mundo narrativo que se há de definir em ser ou não ser.
‘Frankenstein’ (2025), uma adaptação do clássico da Universal Pictures estrelado por Boris Karloff, é um exemplo de como o corpo é uma marca e funciona como metáfora narrativa, que diminui a experiência vivida pela pessoa. A representação da criatura e o olhar do outro podem ser pautados como um padrão fictício de capacitismo, discriminação contra pessoas com deficiência com base na superioridade de corpos considerados padrões. Assim, a deficiência aparece diluída em narrativas que exploram seu conceito na superficialidade, ignorando a sua estruturalidade.
Portanto, é essencial que se discuta a representação de pessoas com deficiência, ou sua ausência, no Oscar da atualidade, para que o espectador se torne mais atento ao padrão de filmes que consome e questione as condições pelas quais se determinam a ausência ou a presença de corpos diversos no cinema. Enquanto essa representação se restringir a categorias de inspiração, piedade ou excepcionalidade, a falta de narrativas complexas irá se alimentar de um prestígio cinematográfico organizado que segue padrões capacitistas.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.