Ritmo, véu e resistências: como “Sinners” e “Kpop Demon Hunters” retratam o poder da música como escudo cultural

Como as obras “Pecadores” e “Guerreiras do Kpop”, com produções tão distintas, usam da música para representar a luta contra a opressão

Por Maysa Alves

Um grupo que utiliza da música para se conectar a seu povo e acaba por protegê-lo de forças malignas que têm a intenção de atraí-los para o “mal”, também através da música. Pode parecer uma comparação improvável: de um lado a mais nova obra de Ryan Coogler, “Sinners”, estrelado por Michael B. Jordan e Miles Caton, do outro a produção da Netflix, “Kpop Demon Hunters”, ambos indicados ao Oscar, que trazem em seu conteúdo ideias semelhantes com abordagens distintas. Enquanto a animação do streaming é colorida e repleta de brilho, com design leve e divertido, “Sinners” nos faz imergir em uma sociedade pesada, repleta de conflitos sanguinários, vampirismo e blues.

Mas as obras têm um fator em comum: o poder da música como alicerce de grupos sociais.A música é um fator que liga a sociedade — nas obras ela é capaz de romper “véus” entre os mundos —, pessoas com gostos parecidos se sentem confortáveis em se relacionarem, o sentimento de pertencimento em uma comunidade, muitas vezes, se dá pelo viés musical e isso não é de hoje. A trilha sonora de um filme faz com que o espectador capte com mais facilidade o sentimento que quer ser transmitido, independentemente do público-alvo, seja para compreender o personagem, seja para assimilar o peso da cena.

No filme “Sinners”, músicas como “I Lied to You” e “This Little Light of Mine” mostram, mesmo que indiretamente, como Sammie (Miles Caton) se sente diante do mundo. Ele usa da canção para se expressar e se vincular às pessoas ao seu redor, seus companheiros, e todos parecem compreender o que ele sente, o que traz a sensação de pertencimento a um lugar, conforto em ser quem se é. O Juke Joint, clube que os irmãos Smoke e Stack (Michael B. Jordan) abrem, se configura como um território seguro, um local de acolhimento.

“Kpop Demon Hunter”, por sua vez, diferentemente da obra de Ryan Coogler, traz de maneira genérica, e até infantilizada, a forma de se expressar e de fazer as pessoas se conectarem através da música. O longa-metragem da Netflix apresenta a música “Golden”, que mostra a vida de cada uma das protagonistas, fazendo o espectador entender o que elas sentem, principalmente em relação à Rumi, que precisa esconder a própria identidade — representada pelas marcas de demônio que tenta esconder. A obra, com enfoque no público infantil, aborda, mesmo que de maneira simples e rasteira, a música como resistência.

Ainda que “Kpop Demon Hunters” trate os temas de maneira leve e metafórica, e “Sinners” se apoie no passado histórico e no apagamento cultural para abordar o horror e a questão da identidade, é através de cenas com músicas e flashbacks que entendemos o peso das narrativas. Ambas as obras desempenham seu papel de maneira bem sucedida de acordo com o público a que inicialmente se propuseram a tocar.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.