“Quartos Vazios”: méritos, problemas e os motivos que o fazem favorito ao Oscar de curta documental

Discussão atual e equipe conhecida pela Academia tornam o documentário a principal aposta para a estatueta no domingo

Por Igor Montarroios

Em uma passagem logo nos primeiros momentos do documentário, o jornalista Steve Hartman, repórter da CBS News, critica a forma como a mídia estadunidense fazia a cobertura de tiroteios em escolas, na época em que ele próprio começou a reportar esses casos. Hartman relembra os exageros cometidos nas coberturas e destaca que, ao contrário do que era feito no começo de sua trajetória – 30 anos atrás, quando o número de school shootings era de 17 casos por ano –, a parte mais importante nessas situações era falar sobre “as crianças que já não estão mais aqui”. Ironicamente, isso também não acontece em “Quartos Vazios” (2025), indicado na categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem no Oscar 2026.

O curta, dirigido por Joshua Seftel (“Stranger at the Gate”), veterano na categoria, segue Hartman e o fotógrafo Lou Bopp no percurso de finalização de um projeto ambicioso. Ao longo de sete anos, a dupla visitou a casa de oito famílias que tiveram seus filhos vitimados em tiroteios escolares para fotografar os quartos das crianças, intocados desde a última vez que estiveram ali. No filme, assistimos ao processo de visita aos três últimos quartos. 

Steve Hartman é famoso na TV estadunidense por contar histórias comoventes. No documentário, sua capacidade de emocionar e de se relacionar com pessoas em situação de fragilidade é demonstrada mais uma vez. As trocas com as famílias de Hallie Scruggs (9), Jackie Cazares (9) e Gracie Muehlberger (15) são sempre muito sensíveis, e o cuidado de Hartman e Bopp, principalmente, com os ambientes é visível. O filme apresenta um minucioso trabalho de construção desses espaços, apresentando os cômodos e os elementos presentes ali, ao passo que as fotografias de Bopp revelam os detalhes escondidos em cada parte do local.

Foto: IMDB

Além de ser protagonizado por uma personalidade conhecida da audiência estadunidense, o filme conta com uma equipe técnica já familiar para a Academia – além do diretor, outros sete membros já foram indicados ao Oscar em outras oportunidades. Também apresenta um lobby forte entre os votantes – Adam McKay (“A Grande Aposta”, “Não Olhe Para Cima”, “Vice”) encabeça a lista de produtores executivos –, temática potente, além de promover, direta e indiretamente, na tela e fora dela, a discussão sobre as leis de regulamentação de acesso às armas, constantemente presente nas manchetes da mídia americana. Todos esses fatores fazem de “Quartos Vazios” o aparente favorito a levar a estatueta no domingo, mas ainda que delicado e forte nos bastidores, o filme apresenta alguns problemas.

Sua trilha sonora lenta e emotiva, além da aplicação de filtros etéreos nos vídeos das vítimas são desnecessários, uma vez que as histórias apresentadas não precisam de ajuda para causar emoções fortes no espectador. O documentário brilha quando fica em silêncio, deixando as histórias falarem por si. Entretanto, o principal revés do curta se dá no foco excessivo em Steve durante a maior parte de seus 35 minutos. São diversas as cenas em que o repórter discorre sobre sua trajetória no jornalismo – com inúmeras imagens de arquivo para ilustrar –, viaja no carro ou é filmado fazendo suas atividades cotidianas. Claro que o tempo gasto em Hartman aproxima o espectador do jornalista, conhecendo-o previamente ou não, mas o faz às custas de Hallie, Jackie, Gracie e seus respectivos quartos. Hoje, 30 anos após a primeira cobertura de tiroteios escolares feita por ele, o número subiu drasticamente e atingiu 132 casos por ano nos Estados Unidos, mas aqui, mais uma vez, as vítimas se tornam coadjuvantes da própria história e acabam ficando em segundo plano, como acontecia no começo de sua trajetória. Ao final do curta, a sensação é que a imagem de Steve Hartman foi preenchida, mas os quartos continuam vazios.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.