Foto: Lisa O’Connor

Por Danielle Zetum

Na noite de 1º de março de 2026, no Shrine Auditorium em Los Angeles, Jessie Buckley acabava de receber o Actor Awards de Melhor Atriz, tornando-se a primeira irlandesa na história a conquistar a categoria por sua interpretação em ‘Hamnet’ (2025), o filme de Chloé Zhao que dominou a temporada de premiações. Mas em vez de usar aquele microfone para falar de si mesma, ela fez algo raro: parou, respirou, e dedicou aquele momento inteiramente a outra mulher.

Essa mulher era Emily Watson, colega de elenco em ‘Hamnet’ (2025), mas, muito antes disso, uma espécie de estrela-guia na vida de Buckley. Foi assistindo ‘Breaking the Waves’ (1996), de Lars von Trier, que algo se acendeu nela ao ver Watson entregar, ao meu ver, uma das performances mais cruas e corajosas da história do cinema. “Aquele filme me fez dizer para mim mesma: é isso que eu quero fazer”, revelou Buckley no discurso.

Décadas depois, as duas se reencontraram nas filmagens de ‘Hamnet’ (2025) — Watson no papel de Mary Shakespeare, mãe de William, e Buckley como Agnes, a esposa que carrega o peso emocional de toda a narrativa. Uma história sobre uma mulher apagada pela história, escrita por uma mulher, dirigida por uma mulher, interpretada por mulheres. O filme não deixa dúvidas, Agnes não é coadjuvante. Nunca foi.

No discurso, Buckley disse que a imaginação selvagem, a feminilidade corajosa e a feroz gentileza de Watson haviam sido uma luz guia. Que o melhor conselho que ela sempre lhe deu foi o de voltar sempre ao humano, ao essencial. E então veio a frase que resumiu tudo: “Você é a mais real das reais.” Com a câmera focada em Watson na plateia, ela foi flagrada em lágrimas, e se tivesse uma câmera em mim no sofá de casa, eu a acompanharia no lencinho.

Não era a primeira vez. Ainda em janeiro, ao receber o Critics’ Choice Award, Buckley já havia chamado Watson de “minha estrela do norte desde o início.” Um padrão que diz muito sobre quem essa mulher é fora das câmeras, alguém que não esquece de onde veio nem de quem a ajudou a chegar. E vamos combinar, num mundo onde cada vez mais todo mundo quer o próprio close, Jessie Buckley virou a câmera para outra mulher, e foi lindo de ver.

Num setor que ainda enfrenta disparidades profundas de cachê, representatividade e narrativas, parar no maior momento da própria carreira para dizer “eu cheguei até aqui porque ela existiu antes de mim” é um ato que vai além da gentileza. É político. É raro. É necessário. Com o Oscar marcado para 15 de março de 2026, Buckley entra na cerimônia como grande favorita ao prêmio de Melhor Atriz. Se isso acontecer, é bem provável que o nome de Emily Watson apareça no discurso mais uma vez. E não haveria nada mais bonito do que isso.


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