A desmistificação do instinto materno e a seletividade na paternidade nos filmes de 2025
Um ensaio sobre maternidade e paternidade nos filmes de 2025
Por Laila Sabrina Shams
Atenção: este texto contém spoilers
Quando ser mãe é considerado um desejo instintivo de toda mulher, e ser pai é uma escolha lúcida, a sociedade cimenta o dever e a ausência como naturais das relações parentais em papeis de gênero. Em ‘Valor Sentimental’ (2025) vemos um pai ausente voltar e tentar revitalizar uma relação com suas filhas. Já em ‘Se eu tivesse pernas, eu te chutaria’ (2025), temos a representação crua de uma mãe sobrecarregada que necessita conciliar a vida profissional com os cuidados da filha enquanto seu marido, também está ausente. De uma forma mais romantizada, temos ‘Hamnet’ (2025) que também mostra quando a mãe fica e cuida dos filhos e o pai se ausenta para trabalhar e correr atrás de seus sonhos. ‘Morra, Amor’ (2025) também aborda o tema, onde temos uma dolorida desconstrução da mulher como indivíduo, sendo consumida pela maternidade.

Chocante e realista, a diretora Mary Bronstein, em ‘Se eu tivesse pernas, eu te chutaria’ (2025), traz um relato da maternidade desromantizada. Com um toque de horror fantástico e pinceladas autobiográficas, ela consegue transformar a experiência de uma mãe cuidando de sua filha doente enquanto concilia sua vida em uma tela digna de Goya. Rose Byrne, como Linda, tem uma das melhores atuações da temporada, expressando todo o desespero e cansaço que uma mãe passa ao ser responsável por outro ser humano, sozinha, já que seu marido é uma voz distante ao telefone. Linda é consumida por uma rotina diária de trabalho e casa enquanto suas próprias necessidades são deixadas de lado, ou escondidas dentro de uma garrafa de bebida alcoólica. Ela não tem tempo para si. Ela já não é mais um ser dotado de individualismo: sua vida gira em torno da saúde da filha, do apartamento desabando e de uma profissão que a pressiona. Não vemos o rosto da sua filha, só escutamos sua voz, e vemos sua rotina de cuidados. É como se Linda fosse também a própria filha, que a suga através do canal de alimentação. Ela não tem opção de não ser mãe. Quando ela fala mais alto em defesa da saúde da filha também querendo preservar o pouco de sanidade que ainda tem, os olhares se tensionam. Existe uma atmosfera de desaprovação como se Linda não estivesse sendo mãe o suficiente, a falha na matriz do dito instinto materno.
Em contraponto, temos os pais que não sofrem com a pressão de serem perfeitos, instintivos, seguros o tempo todo. ‘Valor Sentimental’ (2025), de Joachim Trier, narra a história do retorno de um pai ausente, o diretor de cinema Gustav Borg, vivido por Stellan Skarsgard, que escreve um roteiro para sua filha. Mas seu retorno só ocorre após sua ex-esposa falecer, quando suas filhas já são adultas, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) é casada, historiadora e tem um filho, e Nora (Renate Reinsve), uma atriz de teatro que não esconde a mágoa do abandono paterno. Trier consegue, com sensibilidade, tratar um dos assuntos mais doloridos: a ausência paterna. A interação do elenco é tão síncrona e real, que não é de se estranhar que todos concorrem nas suas respectivas categorias de atuação. Gustav é o arquétipo do homem que escolheu viver a sua vida, que priorizou a sua carreira, em vez de sua família, e que depois de anos volta, sem ter trabalhado em seus erros, não medindo suas palavras, com um discurso de culpabilidade superficial. Sua carreira está em declínio, então ele volta-se para as filhas e sua história pessoal. Agnes é o fio conciliador entre Gustav e Nora. E os momentos de tela entre as duas irmãs são os mais belos, já que só elas entendem a dor de não terem sido a escolha do pai e terem lidado com o silêncio de alguém que deveria ter sido apoio.

Já em ‘Hamnet’ (2025) temos um pai, William Shakespeare (Paul Mescal), que vai em busca de seus sonhos enquanto sua esposa e mãe de seus filhos, Agnes, interpretada pela aclamada Jessie Buckley, permanece cuidando dos filhos e da casa. Chloé Zhao ao adaptar o livro ‘Hamnet” (2020) de Maggie O’Farrell traz às telas um filme poético de como as escolhas constroem as relações e o indivíduo. Agnes escolhe primeiramente estar com William. Agnes, que é chamada de bruxa, se conecta com a natureza, onde a natureza é como um útero materno que a protege. É simbólico se pensarmos que com os cercamentos das terras no surgimento do capitalismo, as mulheres eram caçadas por demonstrarem qualquer tipo de conhecimento considerado não feminino. Mas é Agnes que, sensível às dores de William, o incentiva a ir para Londres. Ela teme o perder, visto que seu sogro tem uma postura rígida em relação ao filho escritor. William também é vítima de um sistema opressor baseado na ideia de família nuclear heteronormativa e não escapa dele.
Agnes permanece e passa pelo nascimento de gêmeos, com sua filha natimorta revivendo em seus braços. E entende, em sua percepção de mãe, que Londres não é um lugar saudável para criar sua família, então ela a prioriza. Com medo de perder Judith, ela é guardiã de sua vida enquanto que seu filho, o carismático e sonhador Hamnet, aguarda o retorno de seu pai, a quem ele tem como referência. Aqui temos um pai que se importa, mas faz a escolha consciente de ir, ao invés de ficar, tornando-se um fantasma nos momentos difíceis que a família passa: não está presente quando os gêmeos nascem, e mais duramente, ainda não está presente quando seus filhos são atingidos pela peste bubônica e lutam por viver. É Agnes que rege a casa, que coordena a vida de William a distância, e é quem segura o fardo da perda, do luto, enquanto seu marido chega quando o corpo de seu filho já está frio. As acusações de Agnes a William são reflexos da solidão materna. O caos da perda os afasta e destaca a diferença dos espaços que ocupam. William consegue se reconectar com a esposa através de ‘Hamlet’, a peça que escreve para seu filho, de seu luto silencioso. Temos em William a busca de um pai ausente pelo perdão e reconciliação com o seu par, ciente de que as escolhas que ele fez, o fizeram perder momentos que não voltam.

A depressão pós parto retratada em ‘Morra, Amor’ (2025) de Lynne Ramsay, um dos filmes ignorados pelo Oscar esse ano, traz uma interpretação visceral de Jennifer Lawrence como Grace, uma mãe que luta para se identificar após nascimento de seu primeiro filho. Grace era uma escritora alegre e jovem, mas se perde quando o cansaço, a solidão e o colapso de sua rotina tomam conta de sua vida como mãe. Seu marido Jackson (Robert Pattinson), parece ignorar que a Grace com quem se casou ainda existe, a trata apenas como a mãe de seu filho. É dolorido ver Grace definhando, enlouquecendo enquanto tenta ser uma boa mãe e mostrar que ela ainda está ali. Que ela ainda sente desejo e precisa de cuidado e carinho, que ela é um indivíduo e não só uma máquina produtora de humanos. Jackson parece viver em um mundo alheio, dois universos diametralmente opostos, onde, para ele, não há a pressão social de ser pai. Apesar de estar presente na vida de Grace, a ausência da compreensão sobre ela é mais pesado que a solidão total, pois existe uma barreira invisível estruturada pela sociedade capitalista que cria homens para escolherem e mulheres para acatarem. Esse tipo de núcleo familiar também é o que mais, direta ou indiretamente, mata mulheres. No espaço que deveria ter segurança, muitas vezes existe crítica, conflito, e desfuncionalidade. Não é somente poder escolher quando ser mãe, mas também ter a titularidade de poder continuar a ser reconhecida como indivíduo, de ser uma pessoa completa por si só.

Eu não quero ser mãe. Sou filha de mãe solo, pai ausente que também tentou voltar depois de anos sem realmente fazer um “mea culpa”. E essa não é só a minha história, é compartilhada com muitas pessoas. Talvez seja por isso que filmes como ‘Valor Sentimental’ (2025) e ‘Hamnet (2025)’ arrancaram tantas lágrimas e ficaram marcados na consciência de quem os assistiu. E filmes como ‘Se eu tivesse pernas, eu te chutaria’ (2025) e ‘Morra, amor’ (2025) chocaram tanto pela sua desmistificação da maternidade perfeita e pela discussão necessária sobre depressão em mães. Mas será que homens se chocaram e se emocionaram tanto quanto nós mulheres, dado que são educados para a autopreservação?
Conceber uma criança não é o sonho de toda mulher com útero, apesar do mito de que toda mulher nasceu para ser mãe. Existe a mistificação do instinto materno que quando a mulher se torna mãe, ela precisa automaticamente saber tudo, ter a resposta para tudo e amar a maternidade. Por muito tempo, e ainda hoje, essa pressão da sociedade pelo perfeccionismo materno apagou os horrores da sobrecarga, do cansaço, da falta de si e da diferença do que é esperado dos pais na criação de uma criança. Pais podem escolher quando querem ser pais, mas mães são julgadas ao tirar um minuto para si. Enquanto a sociedade insistir em um regramento de mãe como dever, e pai como escolha, talvez continuemos assistindo filmes nessas narrativas como se fossem crônicas de horror distantes da nossa realidade. [Re]pensar as relações que formam a sociedade é urgente, pois as mulheres ainda precisam gritar que existem, que estão vivas, e que esse mundo também nos pertence para termos o direito de sonhar além da maternidade.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.