Escavar o que foi soterrado: memória e esquecimento em ‘O Agente Secreto’
O filme utiliza do suspense para revelar memórias, esquecimentos e marcas da ditadura no cotidiano brasileiro.
Por Tiago Gonçalves
Escrito e dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho e produzido por Emilie Lesclaux, O Agente Secreto é, acima de tudo, um filme sobre memória e também sobre tudo aquilo que atravessa esse tema: o esquecimento, o apagamento, as cinzas que insistimos em varrer para debaixo do tapete. Tendo a cidade de Recife como pano de fundo e o personagem de Wagner Moura como figura central, o longa coloca em cena a década de 1970 por meio de um thriller eletrizante, que expõe a ditadura brasileira de forma crua, ainda que nunca explícita.
Não se trata de um filme que “usa” o período para discursar frontalmente sobre luta popular, violência estatal ou perseguição política. Tudo isso está ali, mas de maneira sugerida, insinuada, entranhada no cotidiano. A ditadura aparece como parte da rotina: nas ruas aparentemente pacatas, nas salas de cinema ainda quentes, cheias de vida, nos pequenos gestos que parecem banais. O filme acerta justamente em mostrar que o autoritarismo não foi apenas um evento excepcional, mas algo que atravessou o dia a dia, normalizou-se e moldou experiências comuns. É nessa sutileza que o horror se torna mais perturbador.
A narrativa acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário que foi afastado de suas funções após recusar-se a vender uma patente. Perseguido pelos tentáculos da ditadura – que não se resumiam aos militares, mas envolviam também forças empresariais e interesses econômicos – ele chega a Recife e passa a viver em uma espécie de “reduto” que abriga perseguidos políticos. Ali, nesse microcosmo urbano, a história se desenrola. O protagonista ganha outro nome e, pouco a pouco, se insere naquela rotina, como se a mudança de identidade fosse uma estratégia de sobrevivência e, ao mesmo tempo, um gesto de apagamento.

Os personagens secundários são um dos grandes trunfos do filme. Policiais caricatos, uma imprensa sensacionalista, figuras comuns da cidade: cada um parece condensar parcelas da sociedade brasileira sob a ditadura. São tipos que, sem tornarem-se caricaturas vazias, ajudam a compor um retrato social em que a violência estrutural se infiltra nas relações mais ordinárias.
Por trás da trama de suspense, há um trabalho histórico potente de relembrar um passado que o país insiste em empurrar para o esquecimento. O filme se volta para pessoas comuns que também resistiram a um sistema violento e que, muitas vezes, permanecem esquecidas em algum arquivo, em alguma pasta empoeirada, sem direito à memória pública. A História aparece no filme como essa prática que traz à superfície vidas banais, casos relegados à lembrança de poucos. Não é a História dos grandes heróis, mas a das existências anônimas que ajudaram a sustentar a resistência.
Em entrevista ao G1, o diretor do filme Kleber Mendonça Filho — filho de uma historiadora — afirmou compreender o cinema também como uma ferramenta da História e como um documento de seu próprio tempo. Essa perspectiva aparece de maneira metalinguística no próprio filme: a narrativa se constrói a partir de arquivos, fitas e documentos que atravessam a trama, como se o longa escavasse vestígios de um passado esquecido. Ao mobilizar esses fragmentos, O Agente Secreto sugere que o cinema pode funcionar como um espaço de preservação da memória, capaz de trazer à superfície histórias que permaneceram soterradas pelo silêncio e pelo apagamento.
Nesse sentido, o próprio enredo problematiza o fazer histórico e o uso do passado: quem é lembrado? Quem é esquecido? Quais memórias ganham monumentos e quais viram pó? A cena final, já no presente, diz muito sobre a forma como o Brasil lida com seu passado: a ideia recorrente de “seguir adiante” sem se haver com o que ficou para trás, de evoluir sem olhar para trás, produz um rastro de apagamentos. Memórias e histórias são descartadas, vidas são banalizadas, monumentos viram ruínas.
Essa reflexão se articula a um tema recorrente na filmografia de Kleber Mendonça Filho: as transformações da cidade e o desaparecimento de suas camadas de memória. Assim como em Retratos Fantasmas, o diretor retoma a imagem das construções que mudam de função: o cinema que vira farmácia e, junto com ele, a memória dos lugares se perde. A cidade se reinventa, mas carrega consigo fantasmas. No limite, nós, enquanto sociedade, somos um pouco dessas “farmácias”: espaços que esquecem que um dia foram cinemas, lugares de euforia, encontros e vida coletiva.
O Agente Secreto aponta, portanto, para uma tarefa incômoda, mas necessária: é preciso se haver com nossas cinzas, com nossos pós, para entender para onde estamos indo. O filme não oferece soluções fáceis, mas nos convoca a olhar para o que foi soterrado: pessoas, espaços, histórias… e a reconhecer que o esquecimento também é uma escolha política.



