Por Marlus Alvarenga

O corpo humano, como objeto, sempre esteve em evidência na arte; contudo, o corpo feminino, seu lugar de desejo e posse, emplaca desde sempre grandes motes comerciais – e aqui, focamos nessa presentificação no cinema. Quando a escritora britânica Mary Shelley (Frankenstein, 1818) traz o homem retalhado à própria criação, revivido aos desejos do criador, em pleno século XIX, havia uma ousadia de repartir e recompor o objeto de desejo para o tornar abjeto. Para Julia Kristeva (Powers of Horror – An assay on abjection, 1980), essa ameaça intensa ao sagrado instituído, que causa repulsa ao espectador, é a abjeção: um corpo zumbi, que antes foi sagrado agora é profanado pelo entalhe e a costura, gera a sensação de desconforto.

É nesse desconforto que o body horror – o horror corporal parte dessa destruição extrema e radical da plástica humana como conhecemos na naturalidade. E isso não é novo nas artes, apenas ganhou nomenclatura moderna para se adequar aos espaços.

Cena do filme “A substância”, de 2024

Em 2024, a atriz Demi Moore retoma aos holofotes em grande estilo, atuando em um gênero subestimado pela crítica: o terror, no subgênero horror corporal. A Substância (The Substance. Coralie Fargeat, 2024) chega com impacto de uma realidade que se torna ainda mais discutida depois: o corpo perfeito dentro dos padrões de desejo da indústria da beleza, o efeito anti-aging obrigatório dos cosméticos que te proíbem de envelhecer naturalmente e, claro, a magreza como base para a felicidade. Uma grande corrupção do ser vivo que, envolto às guerras abstratas, como dialoga o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, desenvolve tensões pré-definidas com o que é inerente ao humano, ao natural da carne, em uma estética do liso – a padronização do olhar do receptor para uma dada perfeição artificial, com efeito de prazer instantâneo, quase pornográfico, como um botox mental.

Assim, a personagem de Moore, a modelo Elizabeth Sparkle, é induzida pela pressão masculina, narcisista e machista de seu diretor a usar a substância, que traria para fora sua “melhor performance”, imbuída em um corpo jovem, padronizado, magro e cheio de energia. A verdadeira armadilha performática. A obra recebeu cinco indicações ao Oscar em 2025, incluindo a indicação para melhor atriz, melhor filme e direção.

Cena do filme “Meia-irmã feia”

Em A Meia-Irmã Feia (The Ugly Stepsister. Emilie Blichfeldt, 2025) temos a releitura do clássico Cinderela (Charles Perrault, 1697) que por dezenas de vezes já foi revisto através de diversas fontes literárias e históricas pelas artes, inclusive pela versão mais famosa, dos irmãos Grimm. No filme temos uma obra que segue a tendência no mundo do terror, nos últimos anos – a tradução para o cinema dos ícones literários (e do audiovisual infantojuvenil, como Bambi, Mickey Mouse, Pooh entre outros) antes intocáveis, para uma versão adaptada dentro dos universos de que só os horror movies podem oferecer.

Porém, em A Meia-Irmã Feia, o conto de fadas começa querendo mostrar verossimilhança com os textos originais, mas logo nos conecta com um medo muito contemporâneo: subverte-se o foco na beleza de Cinderela para focar em Elvira (Lea Myren), a meia-irmã, desprovida dos padrões exigidos para mulheres da sociedade que desejavam aquele lugar especial, sendo a escolhida do príncipe, que se submeterá a qualquer atrocidade para entregar a “beleza” esperada. Aqui, o recorte social mexe com todas as camadas da corporeidade estética e seus atravessamentos, onde Elvira é levada à extremos: quebrar o osso do nariz com um martelo, costurar cílios falsos com agulha cirúrgica e até engolir ovos de tênia – que aqui no Brasil é popularmente chamada de solitária – para emagrecer e entrar no vestido.

Todo esse horror é cercado por aulas de dança, bons modos e como se portar no baile, por uma professora que faz presente referência ao filme Suspiria (Luca Guadagnino, 2018) – há algo de perverso nas escolhas das posições na mise en scene da dança principal, reforçando estereótipos misóginos. O fato é que, quando visualizamos mentalmente qualquer espetáculo que envolva corpo de dança, a cena que se percebe é a mesma: corpos padronizados.

No filme a Cinderela não é pura, a madrasta má é maldosa também com as filhas e Elvira, a filha “feia” vira a única opção para tirar a família da pobreza. Duas cenas finais trazem um impacto imenso como crítica social: Elvira corta o próprio pé para encaixar no sapato de Cinderela, em sua busca obstinada e já desfigurada por um lugar na corte (e na vida) e a retirada do verme parasita pela boca, de forma extremamente gore, violenta e repulsiva.

Cena de “Meia-irmã feia”

É inato pensar que, ao andar da caminhada humana, esses fatores estéticos tendem a mudar e, de forma radical, redirecionar toda a visão social sobre o belo. O que acontece hoje com o uso desenfreado das canetas emagrecedoras, cirurgias plásticas para rejuvenescimento que esticam pele do rosto, aplicações de ácido para mudar forma e formato da face e do corpo, acontecia há séculos passados com espartilhos forçados, costelas e narizes quebrados, sapatos apertados e normas sociais quase sempre questionáveis e contudo, mais feroz às mulheres. Dado o devido recorte histórico e social, nossa estética tem cada vez permeado o não-natural, conduzindo inclusive a perda da identidade facial e fisiológica.

Filmes como A Substância e Meia-Irmã Feia, por mais que tenham como escopo o terror, o horror corporal, chocam não só pela imagem, mas pela sujeição, onde o objeto-corpo in natura, com formas e marcas da vida por sua existência e tempo, se torna abjeto ao espelho e, quando esse não segue o arquétipo já escolhido, em negação ao que se vive na vida real.

Com a queda de patente de marcas de substâncias usadas para emagrecimento e a popularização das cirurgias e procedimentos como botox e ácido hialurônico, como evitar que cada vez mais pessoas façam de seus corpos um tribunal, onde o que se julga é o padrão imposto por quem manda na sociedade? E quando o fator social impede que se obtenha esse padrão, o que fazer?

Talvez esse tipo de cinema também sirva de alerta; seja, aí, uma vanguarda pensamental do que pode realmente estimular a beleza humana. Aqui, ressalta-se a sutileza das palavras de Marina Sena, escolhendo estar com “o jeito e o frescor das coisas naturais”.