Um futuro para o Rio de Janeiro
Rio revela as contradições do Brasil: violência, desigualdade e corrupção. Superar esse ciclo é essencial para o futuro.
O Rio de Janeiro é um território que espelha contradições profundas. Nele, a alegria e a brutalidade parecem imbricadas numa síntese irrealizável, como nos versos de Drummond que nos servem de epígrafe. Alguém já disse que o que mais impressiona o viajante estrangeiro, desacostumado à realidade nacional brasileira, não é a paisagem, mas a improvável convivência de nossas contradições. Entre nós, brasileiros, ordem e desordem parecem caminhar juntas e misturadas desde sempre, em busca de uma solução. Talvez por isso nenhum outro território expresse tanto o Brasil quanto o Rio de Janeiro que, apesar de tudo e de todos, segue diante do mundo inteiro como a maior vitrine da “beleza e do caos”.
Nunca é demais relembrar: o Brasil se funda em um modelo de negócios conjugado a uma forma brutal de dominação — uma empresa baseada no genocídio. Somos um efeito colateral do mercado da cana-de-açúcar, do ouro de Minas Gerais e do café, tudo isso extraído do corpo negro supliciado. O Brasil é, rigorosamente, um produto histórico da violência inerente ao latifúndio e à escravidão. Aqui, economia, barbárie e política se entrelaçaram para construir uma sociedade estruturalmente desigual, hierarquizada, racista e patriarcal. A necropolítica nos moldou como civilização. Desatar esse laço entre crime e política é o grande desafio que se coloca para a cidadania nestes tempos difíceis que atravessamos.
Em um país construído a partir do aniquilamento de milhões de vidas drenadas pelo interesse do enriquecimento financeiro, chega a ser ingênuo imaginar que toda essa ferocidade não tenha feito escola também no campo político. Considerando nosso passado trágico, é preciso ter coragem para afirmar que o cotidiano da política também se faz, concretamente, no diálogo entre interesses incompatíveis. Nesse passo, desgraçadamente, a política fluminense tem revelado ao Brasil lições de realpolitik que fariam corar de vergonha até o mais fiel ideólogo dessa concepção.
A quantidade de atores políticos fluminenses influentes presos ou afastados do poder por implicações criminais nos últimos anos é simplesmente assustadora, mas também é um retrato fiel de uma concepção historicamente construída que naturaliza a transformação de tudo aquilo que dá sentido ao humano em mercadoria redutível a um preço. O Rio de Janeiro não está “quebrado” por má sorte. Ele vem sendo assaltado e pilhado há anos. Desde 1995, a mesma história se repete: todos os governos, invariavelmente de direita, baseiam-se na brutalidade e na corrupção e terminam com governadores presos ou cassados. O dinheiro do nosso estado não sumiu no ar; ele foi pelo ralo. E o ralo é o esquema montado para capturar o Estado e manter o lucro apoiado nas desigualdades.
No Rio de Janeiro, o presente explica o passado. É urgente retirar o Estado das páginas policiais. A crise fiscal, os indicadores da violência criminal e as profundas desigualdades sociais e econômicas que marcam a nossa gente, para citar apenas algumas contrariedades, demandam um desenlace. Esse desenlace não virá por inércia nem por obra do acaso. Ele depende de uma decisão coletiva de romper com a lógica que aprisiona o presente a compromissos com o passado — e seus pactos de atraso, seus intermediários de sempre, suas formas de poder fechadas sobre si mesmas.
O futuro do Rio de Janeiro exige ressignificar a própria ideia de política: deslocá-la do balcão de negócios — expressão de uma política baseada nas desigualdades — para o espaço público; do cálculo de sobrevivência de grupos para um projeto de Estado e de país. Trata-se de substituir a administração da crise pela imaginação institucional, a captura pelo compromisso, a repetição pela criatividade. Só assim talvez possamos, ao visitar os fatos, finalmente nos reconhecer neles e fazer surgir, da síntese hoje precária, uma democracia efetiva — a única capaz de tornar o futuro possível e respirável.