As mulheres de São Paulo querem viver, descansar e trabalhar com dignidade
Entre a luta pelo fim da escala 6×1, pela vida e pelas denúncias dos cortes nas políticas de proteção no estado, o 8 de Março reafirma: nenhum direito foi dado — todos foram conquistados com organização e luta coletiva.
O 8 de Março é dia de luta. Em todo o Brasil, mulheres vão às ruas para denunciar as violências, exigir direitos e lembrar que todos os avanços que conquistamos até hoje são fruto da mobilização, da organização e da luta coletiva.
E não será diferente agora. Seguimos nas ruas porque queremos avançar ainda mais.
Nas últimas décadas, as mulheres entraram massivamente no mercado de trabalho. Mas existe uma verdade que a sociedade ainda insiste em esconder: os homens não entraram, na mesma proporção, no trabalho doméstico e no cuidado.
O resultado é conhecido por milhões de brasileiras: dupla jornada, tripla jornada, exaustão permanente.
A mulher acorda cedo para garantir a rotina dos filhos, vai trabalhar fora, enfrenta transporte lotado. Quando volta para casa, começa o segundo turno: cuidar da casa, dos filhos, da alimentação da família, da vida cotidiana.
E quando essa mulher está submetida a uma escala 6×1 — trabalhando seis dias para descansar apenas um — a pergunta é: quando ela descansa?
A verdade é que muitas não descansam nunca.
Por isso, a luta pelo fim da escala 6×1 também é uma pauta feminista. Defender a jornada 5×2 é defender saúde mental, convivência familiar e dignidade para milhões de trabalhadoras e mães brasileiras.
Diante da escala 6×1, muitas mulheres estão lutando simplesmente para sobreviver — assim como lutamos todos os dias contra o feminicídio. Em São Paulo, vivemos um ciclo de violência estrutural que continua tirando a vida de mulheres todos os dias.
O país registrou 1.568 feminicídios em 2025, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
No estado de São Paulo, a situação é especialmente preocupante: 270 mulheres foram assassinadas por feminicídio em 2025 — um aumento de mais de 96% em relação a 2021.
E 2026 já começou com um recorde negativo: 27 feminicídios apenas no mês de janeiro, o maior número para o período desde o início da série histórica.
Cibelle Monteiro Alves, de 22 anos, foi assassinada pelo ex-namorado dentro do shopping onde trabalhava, em São Bernardo do Campo. Ele não aceitava o fim do relacionamento.
Vitória Regina de Sousa, de 17 anos, saiu do trabalho e nunca mais voltou para casa. Seu corpo foi encontrado dias depois, com sinais de violência.
E não consigo me esquecer de Tainara Souza Santos, de 31 anos, mãe de dois filhos, que foi atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro na Marginal Tietê, em São Paulo, pelo ex-companheiro que não aceitava o fim do relacionamento. Ela lutou pela vida durante 25 dias, passou por cirurgias e amputações, mas não resistiu e morreu na véspera de Natal. É muita crueldade.
Entre as tantas vítimas dessa violência que nos assombra está também Andrea Barbosa da Costa, de 45 anos, assassinada dentro da própria casa, na zona sul da cidade de São Paulo, após ser atacada a facadas pelo ex-companheiro.
Diante de uma realidade tão grave, estarrecedora e brutal como essa, o mínimo que se espera de um governador do estado é compromisso com políticas públicas de proteção às mulheres.
Infelizmente, não é isso que temos visto em São Paulo sob o governo de Tarcísio de Freitas.
Dados orçamentários e análises de execução de políticas públicas mostram um cenário de enfraquecimento da rede estadual de proteção às mulheres. O próprio orçamento proposto pelo governo estadual para a Secretaria de Políticas para a Mulher em 2026 é 54,4% menor do que o valor aprovado na Lei Orçamentária de 2025, reduzindo recursos destinados a programas de prevenção à violência, acolhimento e autonomia feminina.
Além da redução de recursos, há problemas graves na execução das políticas. Em 2025, por exemplo, menos de 40% da verba disponível para ações de enfrentamento à violência contra mulheres chegou a ser efetivamente utilizada, deixando grande parte dos recursos sem aplicação enquanto os índices de violência cresciam no estado.
Relatórios e denúncias de movimentos de mulheres também apontam que apenas cerca de R$ 900 mil foram liberados de um total de R$ 26 milhões previstos para ações de combate à violência de gênero, o que representa uma liberação inferior a 4% do orçamento inicialmente previsto para esse tipo de política pública.
Combater o feminicídio exige uma política integrada: educação para a igualdade de gênero, fortalecimento da rede de acolhimento, funcionamento pleno das Delegacias da Mulher 24 horas, casas de abrigo, políticas de autonomia econômica e campanhas permanentes de prevenção.
O Brasil tem uma das legislações mais importantes do mundo no enfrentamento à violência contra as mulheres: a Lei Maria da Penha. Mas as leis precisam sair do papel.
O que as mulheres brasileiras estão dizendo nas ruas neste 8 de Março é muito claro: queremos estar vivas para desfrutar da vida em uma realidade longe da escala 6×1. Trabalho digno, tempo para viver e liberdade para ser o que quisermos.
Porque não existe democracia plena enquanto mulheres trabalham até a exaustão e vivem sob medo.
O feminismo nunca foi apenas sobre mulheres. É sobre o tipo de sociedade que queremos construir.
E eu sigo acreditando que um país justo começa quando as mulheres podem trabalhar com dignidade, viver sem violência e ocupar todos os espaços — inclusive o poder.