Único representante do Brasil na 33ª edição da maior conferência científica sobre HIV do mundo, Vinicius Francisco defende que inovação só faz sentido quando se transforma em acesso real.

Entre os dias 22 e 25 de fevereiro, a cidade de Denver, nos Estados Unidos, sediou a 33ª edição da Conference on Retroviruses and Opportunistic Infections, reconhecida como o principal congresso científico do mundo nas áreas de HIV, AIDS e infecções oportunistas. Criada em 1993, a conferência consolidou-se, ao longo de mais de três décadas, como o espaço onde são apresentados dados inéditos que influenciam diretrizes globais de tratamento, prevenção e pesquisas sobre cura.

Nesta edição, o Brasil teve um único representante no programa internacional voltado a lideranças não médicas. Vinicius Francisco (@viniciusfcos) foi selecionado para a Community Educator Scholarship, iniciativa que escolheu apenas 12 lideranças globais com trajetória comprovada em educação em saúde, mobilização social e comunicação estratégica.

A presença de profissionais da comunidade dentro da CROI não é simbólica. Ela reflete um entendimento histórico: a resposta ao HIV nunca foi construída apenas no laboratório. Desde o início da epidemia, ciência e mobilização social caminham juntas.

Em entrevista, Vinicius explica que estar em Denver significou mais do que acompanhar apresentações técnicas.

“Meu papel ali não era apenas assistir às apresentações. Era entender os dados, questionar pesquisadores, dialogar sobre implementação e, principalmente, pensar em como essa informação pode ser comunicada de forma responsável e estratégica no Brasil”, afirma.

Ao longo dos quatro dias de congresso, o que ficou evidente foi que o campo do HIV segue em intensa transformação. Um dos temas centrais foi o avanço nas pesquisas sobre o capsídeo do vírus, estrutura que protege seu material genético e desempenha papel essencial na replicação viral. Interferir nesse mecanismo significa atingir um ponto estratégico do ciclo do HIV.

Foi nesse contexto que os estudos sobre o lenacapavir ganharam destaque. O medicamento, um antirretroviral de longa duração que atua diretamente no capsídeo, apresentou, nos estudos PURPOSE 1 e PURPOSE 2, resultados de altíssima eficácia na prevenção do HIV. A estratégia em avaliação é sua utilização como PrEP de longa duração, administrada por injeção com intervalos prolongados, geralmente a cada seis meses.

“O que vi na CROI foi uma mudança de lógica. Estamos falando de prevenção com aplicações a cada seis meses. Isso altera completamente a rotina de quem hoje depende de comprimidos diários. Pode facilitar muito a adesão. Mas inovação só faz sentido se houver acesso”, observa.

Ele destaca que, nesse caso, trata-se de prevenção, e não de tratamento para quem já vive com o vírus.

O cabotegravir injetável também esteve no centro das discussões como estratégia de PrEP de longa duração já mais consolidada. Estudos anteriores demonstraram que, em determinados contextos, ele pode oferecer proteção superior à PrEP oral diária, sobretudo quando a adesão ao comprimido é irregular.

A aplicação do cabotegravir é feita por injeção intramuscular, geralmente a cada dois meses, reduzindo a dependência do uso diário e diminuindo falhas relacionadas ao esquecimento.

“Os dados mostram que, em alguns cenários, o cabotegravir foi mais eficaz que a PrEP oral justamente porque elimina a variável da adesão diária. Mas a discussão não termina na eficácia. É preciso falar de custo, financiamento e incorporação no sistema público.”

“Inovação científica sem política pública vira privilégio.”

Outro ponto relevante foi a apresentação de dados sobre o uso de doxiciclina pós-exposição para reduzir sífilis e clamídia. Os estudos indicaram redução significativa dessas infecções em grupos específicos, mas também alertaram para o risco de resistência bacteriana, um desafio crescente na saúde pública global.

“A mensagem não é solução mágica. É responsabilidade. Educação comunitária é explicar benefício e limite ao mesmo tempo.”

A conferência também reforçou que o cuidado com HIV hoje ultrapassa o controle da carga viral. Mesmo com tratamento eficaz e carga viral indetectável, pessoas vivendo com o vírus apresentam maior risco de eventos cardiovasculares. Estudos discutiram o uso de estatinas para reduzir esses riscos e apresentaram debates sobre agonistas de GLP-1, tradicionalmente utilizados para diabetes tipo 2 e obesidade, agora investigados por seus possíveis efeitos metabólicos e anti-inflamatórios nessa população.

“A resposta ao HIV hoje é integral. Não é apenas sobreviver. É envelhecer com qualidade.”

No campo da cura, o reservatório viral continua sendo um dos maiores desafios científicos. Mesmo sob tratamento eficaz, o HIV permanece latente em determinadas células, dificultando a erradicação completa.

“Existe avanço consistente, mas não existe milagre. Falar de cura exige responsabilidade.”

Para Vinicius, o principal aprendizado da experiência em Denver foi compreender que comunicação é parte estrutural da resposta científica.

“Aprendi que conhecimento que não circula não salva vidas. A ciência produz dados, mas é a comunidade que transforma esses dados em prática, em adesão e em acesso real.”

A devolutiva do congresso, segundo ele, passa por traduzir o inglês técnico das apresentações para uma linguagem acessível, combater a desinformação e fortalecer estratégias de prevenção no Brasil.

Num cenário global marcado por desigualdades de acesso e instabilidade de financiamento internacional, a presença de lideranças comunitárias no principal congresso científico sobre HIV do mundo reafirma uma mensagem central da história da epidemia: ciência e sociedade não são campos separados.

“A comunidade não está ali como espectadora. Está ali porque a ciência precisa dialogar com a realidade.”

No fim, a equação permanece clara:
a ciência descobre.
a política decide.
mas é a comunidade que faz a inovação chegar onde ela realmente importa.