Por Samuel Fernandes

O ato de torcer por algo ou alguém é a expressão de um pertencimento coletivo: o momento em que o indivíduo se conecta a um grupo maior do que ele mesmo, passando a sentir como próprias tanto as alegrias das conquistas quanto as tristezas das derrotas. Forma-se, assim, um sistema no qual todos os integrantes compartilham o mesmo amor, dividindo corpo, canto e ocupação de espaços.

Mas, na capital de São Paulo — cidade que há exatos dez anos vive sob o regime da chamada “torcida única” em eventos de futebol, em que, nos jogos entre rivais diretos, apenas a torcida do time mandante pode comparecer como forma de evitar confrontos violentos —, o Carnaval na avenida encontrou harmonia não apenas no desfile, mas também nas arquibancadas. Como isso começou?

Gaviões da Fiel
Crédito: Eduardo Figueiredo / Mídia NINJA

O que é torcer pelo futebol no Brasil?

O futebol surgiu no Brasil como um esporte elitizado, praticado quase exclusivamente pela burguesia do eixo Rio–São Paulo. Sua popularização só começou nos anos 1910, quando operários e imigrantes passaram a jogar, massificando a prática nas várzeas e em competições regionais.

Anos depois, entre as décadas de 1930 e 1960, surgiram as primeiras organizações de torcedores: grupos estruturados com o objetivo de apoiar seus clubes, organizar caravanas para os jogos e promover rituais de identidade vinculados às equipes. Há controvérsias sobre quais clubes receberam esses grupos pioneiros, mas sabe-se que dois dos primeiros a formar torcidas organizadas foram os paulistanos São Paulo Futebol Clube (com a Torcida Uniformizada) e o Sport Club Corinthians Paulista (com os Gaviões da Fiel).

Esses torcedores transformaram a experiência das arquibancadas em grandes celebrações, com tambores, uniformes, bateria, cantos e até coreografias. Ou, em termos populares, transformaram o futebol em Carnaval.

Independente Tricolor
Crédito: Igor Cantanhede/SASP

Torcidas de futebol no Carnaval de São Paulo

A partir dos anos 1970, o futebol se aproximou ainda mais da festa, com a criação de blocos e escolas de samba que materializavam o encontro entre a paixão pelo futebol e o espírito do Carnaval. Sport Club Corinthians Paulista e Sociedade Esportiva Palmeiras saíram na frente, e seus torcedores começaram a desfilar na avenida representando oficialmente seus times.

Atualmente, os três maiores clubes da capital paulista estão presentes em cinco escolas diferentes:

G.R.C.E.S. Gaviões da Fiel (Corinthians)
Estreia: 1989
Primeiro enredo: “O Preto e Branco na Avenida”
Melhor colocação: campeã em 1995, 1999, 2002 e 2003

G.R.C.E.S. Camisa 12 (Corinthians)
Estreia: 1996
Primeiro enredo: “Caiu na Real”
Melhor colocação: classificação para o Grupo de Acesso I

G.R.C.E.S. Mancha Verde (Palmeiras)
Estreia: 1996
Primeiro enredo: “Sinal verde para a vida”
Melhor colocação: campeã em 2019 e 2022

G.R.C.E.S. Dragões da Real (São Paulo)
Estreia: 2001
Primeiro enredo: “Pindorama, uma saga de amor e orgulho”
Melhor colocação: vice-campeã em 2019 e 2024

G.R.C.E.S. Independente Tricolor (São Paulo)
Estreia: 2010
Primeiro enredo: “São Paulo, hábitos e tradições”
Melhor colocação: 7º lugar em 2023

Mancha Verde
Crédito: Paulo Pinto/LigaSP

Como é na capital carioca?

Terra do samba, o Rio de Janeiro não possui grandes escolas de samba diretamente ligadas a torcidas organizadas, como ocorre em São Paulo. Ainda assim, na capital fluminense, os quatro grandes clubes encontraram maneiras de se conectar a determinadas agremiações carnavalescas por meio de fatores tanto culturais quanto geográficos. Alguns exemplos são:

Fluminense Football Club e Estação Primeira de Mangueira
Fundada por nomes como Cartola, sambista imortal e torcedor fanático do Fluminense, a ligação entre escola e clube aparece já nas cores: foram escolhidas por Cartola com inspiração em uma bandeira do time. Ao longo das décadas, essa relação se consolidou em homenagens mútuas entre a escola e o clube.

Botafogo de Futebol e Regatas e Portela
Durante anos, a Portela realizou seus ensaios no Mourisco Mar, uma das sedes do Botafogo, o que aproximou torcedores e sambistas. Desde os anos 1920, essa convivência ajudou a criar uma comunidade em que muitos portelenses compartilham também o amor pelo clube.

Club de Regatas Vasco da Gama e Unidos da Tijuca
Com sede próxima a comunidades tradicionalmente vascaínas, a escola desenvolveu forte identificação com o clube, traduzida em desfiles que homenageiam a Cruz de Malta e outros símbolos ligados à sua história.

Clube de Regatas do Flamengo e Estação Primeira de Mangueira
Nesse caso, a relação é menos territorial e mais simbólica: ambas figuram entre as maiores agremiações populares do país em seus respectivos campos — o futebol e o samba —, compartilhando dimensão, projeção e massa de torcedores.

Homenagem da Mangueira ao Cartola, em 2022
Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Rivalidade dá lugar à performance

Em uma cidade marcada por tensões e casos de confrontos violentos em eventos do esporte, o Carnaval de São Paulo revela uma nova face, colocando todas as paixões lado a lado e trazendo o holofote para o que realmente merece.

Ainda não há previsão de quando voltaremos a ver duas torcidas rivais dividindo o estádio em grandes partidas de futebol, mas, por enquanto, o sambódromo permanece sendo o nosso exercício coletivo de identidade e memória.