Mulher da vida é fantasia?
No Carnaval, prostitutas ocupam a avenida e transformam estigma em história, luta e dignidade no desfile da Sapucaí
Faz anos que esse questionamento me atravessa. Em tempos em que os diversos feminismos reivindicam que homens não se vistam de mulher no Carnaval, e pessoas trans lembram que travesti não é fantasia, essa questão volta a me inquietar. Se brincar com o gênero no Carnaval já não é permitido, levando em conta as violências que travestis e pessoas trans sofrem durante o resto do ano, o fato é que o Carnaval (e, mais recentemente, também o Halloween) é a ocasião em que mulheres desfilam suas fantasias mais ousadas. É o momento em que é permitido “se vestir de vadia” sem condenação social, em que os comportamentos se tornam mais permissivos, em que é possível “ser puta” sem julgamento moral.
E isso sempre me pegou. Por quê? Por que enfrentamos o estigma diariamente, em todos os espaços? Enfrentamos a violência de uma sociedade que se alimenta fartamente de nós (vocês já pararam para pensar nas cifras que a atividade movimenta?), mas não nos quer à mesa de modo algum. Por que é que, no Carnaval, é permitido fingir ser “uma de nós”, sem condenação moral e sem perseguição, com leveza?



Temos insistido e conquistado, aos poucos, nosso lugar à mesa, ainda que com muita resistência — e não apenas dos setores ditos mais conservadores da sociedade.
Neste Carnaval, a Puta, por instantes, deixou de ser fantasia e ocupou a avenida. Num desfile histórico que reuniu ativistas, escritoras, atrizes pornôs e a comunidade, a Unidos do Porto da Pedra, de São Gonçalo, conseguiu levar para a Sapucaí um enredo belíssimo, contando a história e as lutas das prostitutas no Brasil.
A ideia do enredo parte de um sonho antigo do carnavalesco Mauro Quintaes que, em sua passagem anterior pela Porto da Pedra, nos anos 1990, concebeu uma trilogia de enredos: Loucos, Ladrões e Prostitutas. Tendo realizado já os dois primeiros temas, vinte anos depois ele retoma a trilogia com “Das Mais Antigas do Mundo, o Doce e Amargo Beijo da Noite”.
A escola, que fez um belíssimo desfile, terminou em 7º lugar na classificação das escolas da Série Ouro, mas tenho a impressão de que finalizamos esse processo vitoriosas.
Levar um tema tão polêmico para a avenida da forma como foi levado — sem clichês, sem ridicularização, fugindo do lugar-comum — foi uma tarefa delicada. Desde o início, dialogando com o movimento organizado, Mauro abordou o tema com a delicadeza dos grandes, trazendo a público as dificuldades e as sutilezas de um grupo forçado à clandestinidade, mas que luta e sonha muito. “Também sou moça de família, mãe e filha”, diz a letra do samba-enredo, lembrando nossas responsabilidades, nossa rotina de vida e trabalho, aquilo que nos aproxima das outras mulheres trabalhadoras.
A comunidade da Porto da Pedra nos abraçou com carinho e orgulho, e ver o samba ganhando a avenida enquanto revelava nossas dores e delícias foi realmente emocionante.



Um dos carros do desfile homenageou o movimento organizado: era o carro de Lourdes Barreto, nossa mais antiga liderança hoje. Do alto de seus 83 anos, uma puta de presença, vestida de vermelho, recebia, junto de sua filha e neta, outras potências: Raquel Pacheco, escritora e ex-acompanhante conhecida como Bruna Surfistinha; Indianarae Siqueira, ativista histórica pelos direitos das pessoas trans; Betânia Santos (Associação Mulheres Guerreiras); Cleide Almeida (Vila Mimosa); Cida Vieira (APROSMIG); Juma Santos (Tulipas do Cerrado). O carro contava ainda com a presença de Flávio Lenz, viúvo de Gabriela Leite, fundadora da Rede Brasileira de Prostitutas.
Meu livro, Putafeminista, esteve conosco, com uma ala inteira em sua homenagem. Horas antes do desfile, fui surpreendida com o pedido do presidente da escola, Fabrício Montibelo, para que eu fizesse o discurso de abertura do desfile.
O putafeminismo começa o ano mais vivo do que nunca no Brasil!