Por Emmanuely Assunção

Entre poucos corpos fantasiados, cadeiras espalhadas pela praça e um singelo batuque de frevo, a tradição do carnaval de rua de Maceió suspira com dificuldade e evoca memórias e saudades em quem viveu sua era de ouro. Na praça Dois Leões, no bairro de Jaraguá, no dia 15 de fevereiro de 2026, os mais velhos relembram as festas e desabafam a decepção com a ausência de políticas de resgate das tradições.

“Não há comparação, é triste ver o que temos hoje aqui. Antes era na Avenida, muita gente, turista e muita festa. Hoje é isso aqui: um palco numa praça não é Carnaval. É uma vergonha”, desabafa Fernando Veras, aposentado, morador do município desde que nasceu, há 66 anos.

Nas principais vias da orla maceioense, nos bairros da Pajuçara e da Ponta Verde, ainda surgem alguns blocos, com pouca divulgação e sem grande adesão. À noite, resta o tradicional Jaraguá, com um palco tímido na praça e uma programação divulgada tardiamente. Com festas marcadas para os dias 14, 15, 16 e 17 de fevereiro, a agenda só chegou ao público no dia 13, por meio de uma publicação no Instagram da Fundação Municipal de Ação Cultural, vinculada à Prefeitura de Maceió.

O aviso tardio não pegou apenas os foliões desprevenidos: os comerciantes também foram surpreendidos.

Crédito: Sara Leite

“Eu descobri dessa festa na quinta-feira (12), desci correndo lá do Benedito Bentes para marcar lugar aqui. Investi mais de R$ 2 mil e ainda não consegui tirar nem mil. Claro, tá todo mundo fora, e quem está em Maceió nem sabe disso aqui”, conta Jaqueline Santana, alagoana e trabalhadora autônoma que busca sua renda na venda de lanches em eventos. Ela ainda completa, apontando um dos principais problemas: a programação. “É Carnaval, e estava tocando rock há pouco tempo. Quem vai querer ficar aqui? Ontem estava bom, teve banda boa. Mas hoje? Não vendi quase nada até agora.”

A manifestação cultural popular que antes ocupava a Avenida da Paz, uma das principais vias da capital alagoana, hoje se resume à praça Dois Leões, no bairro de Jaraguá. Uma semana antes, as mesmas ruas que levam ao palco estavam tomadas por foliões nos blocos do Jaraguá Folia, ao som das marchas de frevo e de diversos grupos reunidos em festa — um esquenta para o Pinto da Madrugada, que saiu no sábado (07) e arrastou centenas de pessoas pelas orlas da Ponta Verde e da Pajuçara, acompanhado de outros blocos.

Crédito: Sara Leite

“Lembrando o Carnaval de dez anos atrás, penso que não estamos vendo nada aqui. Era maravilhoso, muita gente na avenida, pessoas fazendo questão de estar nas escolas de samba, e hoje não temos nada disso”, desabafa a foliã Vânia Santos, camareira e moradora de Maceió há 32 anos.

O ponto alto da programação do Jaraguá no fim de semana de Carnaval ficou por conta dos maracatus e das escolas de samba, com uma breve passagem das baterias e de alguns componentes. No dia 15, as escolas Jangadeiros Alagoano, Gaviões da Pajuçara, Girassol, 13 de Maio e Dona Zezé foram responsáveis por levar cor e tradição à praça Dois Leões.

Enquanto grandes capitais do país, como Rio de Janeiro e São Paulo, realizam seus desfiles durante o Carnaval, Maceió adota um calendário distinto, com as apresentações das escolas agendadas para o fim de fevereiro, quando o período carnavalesco já terminou.

Crédito: Sara Leite

Porta Bandeira há 25 anos da Gaviões, a professora Aline Sâmia chama a atenção do apagamento desse legado: “Convido a todos para prestigiar os desfiles e lutar por essa tradição que está acabando aqui em Alagoas. Não temos mais essa valorização, então faço esse apelo por todas as Escolas. Não deixem essa cultura acabar”. 

José Ronailton Alves, presidente de uma das escolas mais novas de Maceió, a Unidos da Dona Zezé, afirma que a cultura vem sobrevivendo de paixão, “o que nos motiva é a vontade de mostrar um espetáculo e a esperança de crescer e tornar a escola cada ano melhor, as dificuldades estão sendo a nossa motivação”.

Um calendário atrasado, mal programado e divulgado. Esta é Maceió, a capital que tem prévias e pós, de um carnaval que não tem.