Carnaval como tecnologia social: quando a cultura sustenta o que deveria ser política pública
O Carnaval organiza vínculos e trabalho, mas revela ausências estruturais do Estado.
Por Chris Zelglia
É comum vermos o Carnaval retratado como uma simples festa, um componente do nosso patrimônio ou um atrativo turístico. Contudo, essa interpretação é superficial e excessivamente cômoda. Longe de ser meramente um espetáculo, ele funciona como uma engrenagem social: um sistema coletivo que articula trabalho, pertencimento, economia local e mediação política em territórios onde a presença do Estado é, muitas vezes, falha, irregular ou tendenciosa.
Encarar o Carnaval como ferramenta social implica admitir uma verdade desconfortável: as comunidades encontram soluções fundamentais por meio da cultura, não apenas por ser uma fonte de criatividade, mas porque, em muitos casos, não há uma alternativa institucional sólida disponível.
Agremiações, blocos e grupos planejam, distribuem tarefas, capacitam pessoas e impulsionam cadeias produtivas inteiras. Geram renda, oferecem formação técnica e estabelecem redes de apoio. São práticas de gestão social que exigem conhecimento, estratégia e articulação política, embora sejam frequentemente tratadas como lazer ou informalidade quando comparadas a outros setores produtivos.
Essa dinâmica revela uma contradição central: enquanto o Carnaval gera prestígio e recursos financeiros para cidades, governos e o mercado turístico, a base que sustenta essa estrutura enfrenta precarização, financiamentos instáveis e reconhecimento inconstante. Exalta-se a inventividade popular, mas raramente se garante um investimento estrutural contínuo.
Há uma idealização recorrente da “capacidade da comunidade de se organizar”. No entanto, essa narrativa pode camuflar desigualdades profundas. A autogestão cultural é uma força, mas também é, em muitas situações, uma resposta à negligência. Enaltecer a resiliência sem questionar as condições materiais significa transferir responsabilidades.
O Carnaval também exerce influência no plano simbólico e subjetivo. Como ferramenta social, ele reorganiza afetos coletivos, fomenta experiências de pertencimento e permite a elaboração de tensões sociais. Contudo, essa dimensão não se separa da política: a gestão dos corpos nas ruas, a regulamentação dos espaços públicos e a criminalização seletiva evidenciam que o controle dessa ferramenta está em permanente disputa.
Quem determina onde e como ele pode atuar?
Quem se beneficia dele?
Quem recebe os aplausos e quem é vigiado?
Enxergar o Carnaval como ferramenta social o retira da posição de mero entretenimento e o coloca como um campo estratégico de organização coletiva. Ele revela que a cultura é uma infraestrutura e, por isso, torna-se alvo de apropriação simbólica, econômica e política.
Talvez a maior força do Carnaval esteja em expor algo que muitas vezes se tenta ocultar: as comunidades não apenas produzem cultura, mas também desenvolvem gestão, conhecimento e soluções coletivas. Reconhecer isso implica admitir que a cultura popular não deveria compensar ausências estruturais, mas dialogar com políticas públicas que garantam sustentabilidade e autonomia.
O desafio não é celebrar essa ferramenta social.
É questionar por que ela precisa operar onde outras estruturas falham.