Por Weverton Martins

“O dia em que a universidade entrou no samba.” Foi assim que o reconhecido, ou melhor bamba do samba, sociólogo, mestre e doutorando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (USP), Tadeu Augusto Matheus, conhecido como T. Kaçula, definiu o que aconteceu em 2 de agosto de 2025.

Naquela data, o que poderia ser apenas mais uma defesa de mestrado ganhou contornos históricos. O jovem pesquisador Weverton Martins, educador, artista, sambista profundamente influenciado pela tradição dos quintais de samba em São Paulo, escolheu realizar sua defesa na Fábrica do Samba – Madrinha Eunice, espaço conhecido como o “barracão”, localizado no bairro da Barra Funda, zona oeste da capital paulista.

Foto: Léo Felipe

Tradicionalmente destinado à construção de carros alegóricos e fantasias das escolas de samba, o espaço também funciona como ponto de encontro das comunidades e das agremiações carnavalescas. Mas, naquele dia, não se construíam alegorias ou fantasias habituais. Construía-se ainda mais conhecimento.

Segundo T. Kaçula, o barracão tornou-se “espaço de produção de conhecimento e de avaliação de um trabalho acadêmico, mas também de celebração de um saber que não cabe nos moldes tradicionais da universidade”. Para ele, a escolha do local foi um gesto político e epistemológico. “Levar a defesa para fora dos muros acadêmicos, para um espaço que é quintal coletivo do carnaval paulistano, reivindica que o samba, os afetos e as memórias de uma comunidade inteira têm lugar  (voz)  na produção de ciência.”

O ato também foi reconhecido como histórico pela Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, entidade responsável pela gestão do espaço e pela organização, planejamento e execução dos desfiles do carnaval paulistano. De acordo com a Liga e com o próprio T. Kaçula, foi a primeira vez que a Fábrica do Samba recebeu uma defesa de mestrado.

Foto: Léo Felipe

A defesa apresentou o projeto “Sambaí por Nós”, material autoral criado por Weverton Martins que já está disponível ao público. A iniciativa transforma os quintais de samba em plataforma artística e educativa.

Mas por que os quintais?

Para Weverton Martins, são nesses espaços que pulsa a continuidade de um saber ancestral. “São cantinhos, redutos, Áfricas e quilombos recriados, feitos e pensados à nossa maneira. Desses quintais afro-diaspóricos (in)surgem outros modos de vida, fundamentais para a manutenção de valores físicos e simbólicos que influenciam diretamente a (re)existência da população negra”, afirma o pesquisador.

A investigação parte dos fundos de muitos quintais paulistanos,  territórios onde se forjou o samba urbano paulista, o samba-rock e escolas de samba da cidade.

Foto: Rodarlen @ressumbrar
Foto: Rodarlen @ressumbrar

Explicações da imagem: Durante as obras, em 2022, da futura estação da linha laranja do metrô, em São Paulo, foram encontrados sítios arqueológicos relevantes para a história da presença negra na região, incluindo o antigo Quilombo Saracura. Esforços estão sendo feitos por moradores, ativistas e pesquisadores para valorizar a história negra do bairro, preservar a escola de samba Vai-Vai e desenvolver projetos nesse sentido.

Nascido e criado nesses redutos, Weverton Martins propõe uma reflexão crítica sobre o embranquecimento, o racismo espitêmico, a mercantilização das tradições e as demolições urbanas físicas e simbólicas  que atingem territórios historicamente negros em São Paulo, como é o exemplo dos bairros da Liberdade e da Bela Vista, considerados berços do samba paulistano. Tudo isto desafina a existência e o protagonismo da população negra no samba.

O projeto se materializa como uma plataforma virtual que reúne materiais artísticos e educativos, além de propor mediações presenciais em espaços de samba e educação.

No carnaval de 2026, já com o título de mestre, Weverton Martins desfilou pela tradicional Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Vai-Vai. A escola que sua mãe lhe apresentou ainda na infância e que o ensinou que aquele também era seu lugar no mundo.

Seu pai, que tantas vezes ele viu atravessar a avenida, agora o via trocar de posição. O filho que assistia tornou-se o que desfila. O que aprendia tornou-se o que pesquisa. O que sonhava tornou-se o que defende.

Foi este casal intenso que o levou, desde criança, aos quintais do samba das rodas informais às agremiações como : Vai-Vai , Camisa Verde e Branco , Unidos do Peruche, Nenê de Vila Matilde e Mocidade Alegre. Quintais que o formaram seu modo de ser e o ensinaram a se sentir visível e possível.

A defesa de Weverton Martins não representou apenas a conquista de um título acadêmico. Tornou-se um marco para a história do samba e do carnaval de São Paulo uma celebração de uma manifestação cultural que, durante décadas, foi perseguida, marginalizada e desvalorizada.

“Seguimos a linhagem de quem colocou o samba no mundo, levantando o chão para que chegássemos até aqui. Muitos de nós somos um samba sonhado e realizado,  a luta das gerações passadas que não foi em vão. Estamos ligados ao samba muito maior do que nós. Nossos sonhos,  lutas, sambas  começaram muito antes da nossa chegada.”

No desfile da Vai-Vai, ele resumiu o que aquela trajetória significava:

“Quando o mundo tentou dizer que quintal de samba era pequeno, me mostraram que nunca foi. Ao entrar na avenida, eu sambo com ainda orgulho de quem é filho de sambistas e agora virou mestre. É por nós, com nós e pra nós.”