Blocos que acolhem: diversidade e resistência nas ruas de São Paulo
Carimbolando e Dramas de Sapatão mostram como blocos independentes seguem essenciais para celebrar diversidade
Por Vitória Regina Oliveira
Em um Carnaval marcado pela repressão aos blocos independentes e tradicionais em São Paulo, duas festas de rua mostraram, na prática, o que está em jogo quando falamos em cultura popular e direito à cidade. O Bloco Carimbolando e o Bloco Dramas de Sapatão, que desfilaram no dia 14 de fevereiro, transformaram as ruas em territórios de acolhimento, diversidade e pura celebração — provando que a festa segue sendo um espaço político fundamental.
A atmosfera era de alegria tranquila. Famílias inteiras ocupavam o cortejo, crianças correndo e dançando em segurança, pessoas de diferentes raças, etnias e expressões de gênero compartilhando o mesmo ritmo. Pessoas com deficiência circulavam sem dificuldade, sendo acolhidas pelo grupo e pelo público. A rua, tantas vezes hostil, se tornou um espaço possível para todas as existências.
E isso não é detalhe: é a essência do Carnaval.
No Carimbolando, os ritmos amazônicos guiavam a dança e traziam para o centro de São Paulo uma celebração ancestral dos povos indígenas, ribeirinhos e periféricos. A presença de artistas que carregam essa memória cultural mostrou a força da Amazônia enquanto fonte de identidade e resistência — não como folclore, mas como atuação política viva.

Já o Dramas de Sapatão reafirmou a importância de blocos que centralizam as vivências lésbicas e LGBTQIA+. O cortejo foi seguro, leve e afetuoso — uma festa que acolhe corpos dissidentes, onde existir não exige esforço. Em tempos de violência e apagamento, criar esse ambiente é, por si só, um ato de enfrentamento.
Mas talvez o ponto mais forte dos dois blocos tenha sido o que se viu e se sentiu no ar: a convivência harmoniosa entre pessoas muito diferentes, celebrando juntas, sem tensão, sem medo. Num contexto onde autoridades têm restringido e dificultado a realização de blocos pequenos, essa imagem é poderosa. Mostra que os cortejos comunitários não são problema. Eles organizam o território, criam pertencimento, geram economia, fortalecem culturas locais e garantem que a cidade seja de fato pública.
Quando um bloco é reprimido, não é só uma festa que se perde. Perde-se um dos poucos espaços onde as pessoas podem existir plenamente.
Carimbolando e Dramas de Sapatão mostram que o Carnaval ainda é um dos últimos lugares onde a cidade se reconhece em sua própria pluralidade. E manter esses espaços vivos não é apenas celebrar: é defender o direito de todos e todas de ocupar a rua como ela deve ser — coletiva, diversa e livre.
Texto produzido em cobertura colaborativa do projeto Otros Carnavales



