Justiça por Orelha é construir uma sociedade antiespecista que protege a vida
Caso Orelha expõe crueldade, privilégio e a urgência de educar para o cuidado multiespécie.
Por União Vegana Antiespecista (UVA)
Orelha era um cão idoso, dócil e amado, cuidado pela comunidade da Praia Brava, em Florianópolis, há cerca de dez anos. Presente no cotidiano do bairro, tornou-se um símbolo simples e afetivo da convivência e do cuidado com os animais que ali vivem, como destacou a Associação dos Moradores da Praia Brava.
A Polícia Civil tomou conhecimento do caso em 16 de janeiro, após relatos de moradores sobre o desaparecimento de Orelha. Dias depois, uma das pessoas que cuidavam do cão o encontrou durante uma caminhada, caído e agonizando. O animal foi recolhido e levado a uma clínica veterinária, mas, devido à gravidade dos ferimentos, não houve alternativa além da eutanásia (procedimento também conhecido como morte assistida), como forma de abreviar seu sofrimento.
As investigações indicam que Orelha foi brutal e covardemente ferido por um grupo de pelo menos quatro adolescentes, pertencentes a famílias ricas e influentes da cidade catarinense.
Há indícios de que outro cão, batizado de Caramelo, também tenha sido vítima do mesmo grupo, que tentou enforcá-lo e afogá-lo no mar. Amigo de Orelha, Caramelo conseguiu fugir e foi posteriormente adotado por um delegado que investiga o caso. Até o momento, dois adolescentes foram alvo de buscas, enquanto outros dois estão nos Estados Unidos, em viagem à Disney.
A morte de Orelha, aos cerca de dez anos de idade, gerou grande comoção nas redes sociais. Celebridades, moradores e protetores da causa animal passaram a cobrar providências das autoridades e a pedir que o caso não seja esquecido.
Defendemos o direito dos animais comunitários. Na ausência de um lar exclusivo, um animal doméstico tem o direito de viver sob os cuidados da comunidade, que lhe garante alimento, água, abrigo contra os elementos e cuidados de saúde. Esse era o caso de Orelha. É importante destacar que as práticas de cuidado comunitário — essenciais para a sobrevida e a dignidade dos animais não domiciliados — ainda são alvo de intensa perseguição no Brasil.
Justiça para Orelha é, entre outras coisas, a garantia de que o direito de um animal ser protegido em comunidade seja reconhecido, assegurado e amparado por políticas de Estado.
Este crime foi cometido por adolescentes do sexo masculino, de famílias abastadas e influentes da capital de Santa Catarina. Mais uma vez, vemos a intersecção de diversos fatores na perpetuação das violências contra seres vulneráveis: a perseguição e o afastamento do porteiro que filmou e denunciou; a demora da juíza indicada — amiga de uma das famílias — em se declarar impedida; a viagem de dois dos adolescentes para a Disney, como se nada tivesse ocorrido; e as blindagens costumeiras que operam quando crimes são cometidos por pessoas influentes.
Repetem-se as relativizações conhecidas. Pobres são “menores infratores”. Ricos são “meninos que precisam refletir”.
Ao mesmo tempo em que defendemos a responsabilização de quem praticou essa crueldade, é fundamental compreender que a base desta e de outras violências — contra outros animais e também contra outros grupos vulneráveis — está na hierarquização dos seres: humanos acima de não humanos; ricos acima de pobres; homens acima de mulheres; brancos acima de pessoas racializadas; pessoas com corpos típicos acima de pessoas com deficiências. A essa hierarquização soma-se a ideia de que ela autoriza o uso, o domínio e a exploração. Ela é utilizada para justificar quem merece viver e quem merece morrer.
Nesse contexto, é especialmente urgente salientar o crescimento da naturalização e do estímulo, nas redes sociais, à violência na masculinidade adolescente, bem como o fato de que a empatia e a solidariedade para com outros animais são frequentemente desqualificadas como traços “de mulherzinha”, associados a uma feminilidade considerada inferior.
O martírio de Orelha comove o país. Que este não seja um momento de reações viscerais que ignorem as raízes do problema, nem de tentativas de suprimir direitos de outros grupos que também merecem proteção, como crianças e adolescentes. Que, em sua memória, possamos promover a educação para uma ética do cuidado multiespécie nas escolas; construir uma práxis cotidiana de cuidado com outros animais; e garantir que essa práxis tenha apoio real do Estado, para além de usos eleitoreiros e superficiais.
Que a masculinidade fundada na violência seja colocada em xeque. Que o sistema de justiça seja exposto quando aplicado de forma desigual e aperfeiçoado para garantir reparação real quando crimes ocorrem. E que os corações abertos pelo martírio de um animal vulnerável — sujeito de uma vida, com personalidade, vínculos e trajetória únicas — se sensibilizem para o fato de que há muitos outros Orelhas no país e no mundo, de outras espécies inclusive, submetidos a formas de crueldade ainda normalizadas pela sociedade.
Justiça por Orelha é, para além da justa responsabilização de quem cometeu o crime, a construção de uma sociedade antiespecista, que respeita e protege a vida.