Por Igor Felippe Santos*

A filiação do presidenciável e governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao PSD de Gilberto Kassab surpreendeu e colocou uma pulga atrás da orelha de quem acompanha o cenário político e eleitoral.

O PSD passou a reunir em suas fileiras três governadores de estados importantes que já apresentaram seus nomes para disputar a eleição presidencial deste ano: Ratinho Júnior, do Paraná; Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul; e, agora, Caiado.

O que está por trás dessa movimentação de Kassab?

Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), governador de São Paulo e considerado o nome mais forte para o pleito, frustrou a expectativa de ser o candidato de unidade da direita à Presidência, com apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O lançamento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indicado pelo pai, diminuiu as margens para qualquer candidatura fora da polarização entre esquerda e extrema direita.

Nas últimas pesquisas realizadas, o presidente Lula lidera na faixa dos 35%, enquanto Flávio se consolidou em segundo lugar, com mais de 20%.

O levantamento Genial/Quaest, divulgado em 14 de janeiro, testou um cenário com Flávio e Tarcísio. Lula ficou em primeiro lugar, com 36%, enquanto Flávio teve 23% e Tarcísio apenas 9%.

A pesquisa sinaliza que qualquer nome fora da área de gravitação de Bolsonaro no campo da direita terá muita dificuldade para se consolidar e chegar ao segundo turno.

Assim, o problema para a direita não bolsonarista não é simplesmente encontrar o melhor nome para a disputa. Na prática, essa é uma questão secundária.

O desafio central é abrir uma fresta entre as duas candidaturas com maior apelo na sociedade e demonstrar a viabilidade de um terceiro campo político disputar a Presidência.

A insegurança em relação à capacidade desse campo levou Tarcísio a abdicar da disputa presidencial, mesmo sendo o preferido dos partidos da direita não bolsonarista, da mídia empresarial e do grande capital.

Foi pelo mesmo motivo que Caiado, preterido pelo União Brasil, se filiou ao PSD e entrou no barco de Kassab junto com Ratinho e Leite.

O que está em jogo nessa movimentação não é apenas a eleição deste ano, mas a disputa pela hegemonia no campo da direita.

Bolsonaro se impôs na direita ao vencer a eleição de 2018 e se consolidou como a principal liderança política, após 24 anos da polarização entre PT e PSDB.

A direita que emergiu com o fim da ditadura militar, organizada em torno do discurso de compromisso com a democracia e de “modernização” do Estado, estruturada principalmente pelos tucanos, se esfacelou.

Uma parte migrou para a extrema direita; outra aderiu ao projeto Lula em 2022; e uma terceira caiu no fisiologismo político. Perdeu a perspectiva de poder.

A aposentadoria de Lula das urnas após sua última eleição e a prisão de Jair Bolsonaro colocam a necessidade desse campo se reorganizar e se consolidar para disputar o governo federal.

Um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro desenhará o cenário dos próximos anos e dará sobrevida à extrema direita.

Por isso, esse jogo começa agora, e a direita não bolsonarista precisa ter um bom desempenho nesta eleição.

Trata-se de mostrar que tem capacidade de enfrentar a esquerda e de disputar com o bolsonarismo a hegemonia no campo da direita, independentemente de nomes e partidos.

O grande capital, inclusive, aposta nessa via para superar a disputa entre os campos de Lula e Bolsonaro e constituir uma unidade de todas as suas frações em torno de uma candidatura que expresse seu projeto.

Kassab maneja a ambição dos governadores e tenta fortalecer seu partido, que precisa se transformar em um polo político autônomo.

Para isso, garante que o PSD terá candidatura própria, dá liberdade para que seus pré-candidatos defendam suas ideias e trabalhem para se viabilizar. Ao mesmo tempo, mantém interlocução com a esquerda e com a extrema direita. Ganha em qualquer cenário.

Tarcísio, inclusive, só se emancipará de Bolsonaro quando se consolidar um novo campo da direita com força para conduzir a disputa pelo comando do país.

Até lá, o governador de São Paulo permanecerá à sombra de Bolsonaro e reforçará a fidelidade para manter o vínculo com seus eleitores.

Ao mesmo tempo, observa a movimentação de Kassab, que terá de demonstrar que o projeto “Tarcísio 2030” tem viabilidade para impulsioná-lo.

Ratinho, Leite e Caiado já estavam no mesmo barco das lideranças da direita sem espaço para disputar o Palácio do Planalto à revelia do bolsonarismo.

Agora, juntos no partido de Kassab, têm o desafio comum de desobstruir o caminho, o que passa por suplantar a família Bolsonaro e reorganizar o tabuleiro político nacional.

Igor Felippe Santos é jornalista e analista político, com atuação nos movimentos populares.