Juventudes do Cerrado assumem protagonismo na 2ª Feira da Reforma Agrária rumo às lutas de 2026
Desde os preparativos do evento, juventude toma a frente da principal ação de diálogo do MST com a cidade, em Goiânia (GO)
Por Camila Alves e Marilia da Silva*
A 2ª Feira Estadual da Reforma Agrária Popular, realizada pelo Movimento Sem Terra – Goiás, em Goiânia (GO), entre os dias 13 e 14 de dezembro de 2025, na Praça Universitária, mostrou que as juventudes do Cerrado estão presentes e ativas no campo e nas lutas em todo o estado. Para quem esteve na feira, foi notório como elas e eles movimentaram diversos espaços e atividades, em um evento no qual tudo fluiu de forma organizada e alegre, do início ao fim.
Taynara Franz, do Projeto de Assentamento Dom Tomás Balduíno, em Formosa (GO), conta que o trabalho da juventude começou dias antes da feira, na Brigada de Agitação e Propaganda. “Com um grande protagonismo da juventude, a Brigada confeccionou toda a ornamentação, fez o planejamento e a execução das místicas, construiu paródias para intervenções e realizou apresentações musicais, além de dois momentos de panfletagem em Goiânia”, relata.
As brigadas, como propostas pelo MST, são grandes processos de formação, especialmente para a juventude. Nelas, é possível que cada um(a) compreenda como exercer seu papel, de forma ativa, na transformação da realidade do campo e da cidade, articulando cultura, agroecologia, educação popular e comunicação como instrumentos de resistência.
O resultado se vê na prática, com jovens à frente dos coletivos de comunicação e de cultura da Feira, por exemplo, atuando como linha de frente no diálogo mais que necessário entre campo e cidade e construindo a luta junto às gerações mais velhas. Nas comunidades, também assumem tarefas na produção de alimentos para subsistência e comercialização, atentos aos desafios e às necessidades do presente.

Da imersão no Cerrado para o diálogo com a cidade
Na véspera da feira, outro encontro de juventudes do campo se iniciava em Goiânia (GO): uma imersão de jovens das comunidades acompanhadas pela Comissão Pastoral da Terra Regional Goiás (CPT Goiás). A atividade abordava o pertencimento ao Cerrado, a identidade e os sonhos dos(as) jovens no campo, com o objetivo de construir coletivamente um calendário de atividades para o ano de 2026, que se conecte com as lutas vivenciadas nos territórios.
Após o encontro, jovens participantes seguiram para a 2ª Feira da Reforma Agrária. Ranyelle Victorya e Bruno Almeida são vizinhos e namorados. Moram no Assentamento Paulo Gomes, no município de Itapuranga. A vivência no encontro de jovens veio, para eles, reafirmar uma série de princípios que já praticam na comunidade onde vivem e que despertam orgulho diante da beleza do que estava exposto na feira. “Diferente do que você encontra no mercado, aqui tem uma variedade de produtos feitos de forma artesanal, sem agrotóxicos, sem poluição. Açafrão, pimenta, abóbora, farinha… são coisas naturais da terra”, descreve Ranyelle.

Ela e Bruno já produzem junto com suas famílias e veem, na feira, os resultados das lutas travadas pelos mais velhos, bem como o próprio futuro. “Os produtos que têm aqui são fruto de saberes ancestrais, do que aprendemos com nossos avós, sobre como plantar de forma saudável, sem prejudicar o meio ambiente. Produzimos milho, arroz, frutíferas, temos produção coletiva também, tudo natural, sem agrotóxico, tiramos nosso dinheirinho”, diz Bruno.
Riquelme Pereira, do Projeto de Assentamento Chê Guevara, em Piranhas (GO), participou pela primeira vez de um encontro com jovens em Goiânia. “Eu moro no Cerrado, mas tem muita coisa que a gente ainda precisa aprender”, afirma. Após a imersão, a chegada à feira ganhou novos sentidos. “A gente falou muito lá sobre agroecologia, no encontro, e ao chegar aqui encontra provas de que, sim, é possível produzir sem agrotóxicos.”
Riquelme e seu irmão, Sadraque Pereira, vivem com a família em luta por terra desde a infância. Neste ano, a comunidade deu alguns passos rumo à vitória: o recurso para a compra da terra pelo INCRA já foi destinado pelo Governo Federal. Apesar de alguns entraves, espera-se que em 2026 o assentamento seja concluído.

O jovem, que hoje precisa trabalhar para terceiros, comemora a perspectiva de, em breve, poder também viver da produção de alimentos. “A gente trabalha na terra, planta, mas não supre as necessidades, então preciso trabalhar fora. É muito bom ver o semblante dos meus pais. Eles estão lutando há mais de 10 anos e veem a vitória próxima. Eu quero que o ano que vem chegue, para a gente investir dentro da terra, acessar os direitos que a Reforma Agrária garante e poder produzir”, afirma Riquelme.
Assim como a experiência da brigada, como espaço de cooperação e organização coletiva onde se constrói a unidade entre campo e cidade, os espaços de organização entre jovens de diferentes regiões, comunidades e movimentos também fortalecem seu protagonismo na luta por justiça social e pelo direito à terra.
*Camila Alves é Dirigente Estadual do Setor de Comunicação e Juventude do MST-GO
*Marilia da Silva é Comunicadora Popular – CPT Goiás