Por Lilianna Bernartt

Quando terminei de assistir “A Voz de Hind Rajab”, pós-choque inicial, pensei em como é difícil o exercício de analisar um filme que retrata a grande falha que são os seres humanos. Não por falta de ferramentas cinematográficas de análise — elas estão todas ali, rigorosas, assertivas — mas porque o filme inevitavelmente desloca a crítica do campo estético para outro terreno, ético, quase intransponível. Pensar sobre o filme implica confrontar nosso lugar de espectador: distante, protegido, impotente.

A obra, dirigida pela cineasta Kaouther Ben Hania, parte de um acontecimento real ocorrido em janeiro de 2024, em Gaza, quando uma criança palestina ficou presa em um carro alvejado, cercada pelos corpos de familiares mortos, enquanto pedia ajuda por telefone.

Quase toda a ação se passa dentro dos escritórios do Crescente Vermelho Palestino (PRCS), na Cisjordânia, que é uma organização humanitária que faz parte do Movimento Internacional da Cruz Vermelha, atuante na Cisjordânia e em outros territórios palestinos, fornecendo serviços médicos de emergência, hospitais e centros de saúde. O filme desloca o centro da tragédia para o campo da mediação, com ligações, mapas, protocolos e autorizações que nunca chegam a tempo. A menina, Hind, não aparece em imagem, apenas em voz, o que torna a experiência mais visceral. De um lado, temos adultos tentando fazer algo dentro de um sistema que desconhece a humanidade; de outro, uma criança que depende e acredita nela, humanidade. O filme se constrói justamente nesse embate entre a urgência da vida e a lentidão estrutural que a impede de ser salva, transformando o espaço burocrático em um retrato preciso da falência humana em diversos sentidos.

Kaouther Ben Hania constrói uma obra que recusa qualquer elemento de alívio ou ilusão de transcendência. Desde o início, o filme deixa claro que não haverá salvação, reviravolta ou redenção narrativa, mas sim a dilatação de um tempo já condenado. E é justamente essa escolha inicial que molda toda a experiência: o espectador não é conduzido por expectativa, mas por permanência. Permanecer ali, escutando. Permanecer sabendo. Permanecer sem poder intervir.

No campo formal, o filme encontra força justamente na maneira como articula imagem, documento e encenação. As fotografias exibidas, tanto dos socorristas quanto da própria menina, não funcionam como ilustração ou prova no sentido documental, mas como vestígios. São imagens que interrompem o fluxo dramático para lembrar, de forma quase brutal, que aquilo que ouvimos não pertence apenas à esfera da representação. Elas surgem como marcas do real que resistem à ficção, tensionando constantemente o status do que está sendo visto. Ao misturar o espaço encenado do Crescente Vermelho com documentos visuais e sonoros reais, o filme se afirma como docudrama no sentido mais rigoroso do termo: não como fusão harmoniosa entre gêneros, mas como fricção permanente entre eles.

A ficção organiza o tempo, o espaço e a escuta, enquanto o documentário rompe essa organização e devolve o peso do acontecimento. O resultado é um cinema que não permite esquecimento nem conforto; cada fotografia funciona como um lembrete incômodo de que a mise-en-scène está sempre à beira de colapsar diante da realidade que a atravessa.

Nesse sentido, o uso da voz real de Hind, sem a materialização do corpo, é, talvez, o gesto mais perturbador do filme. O cinema produz empatia pela imagem, e aqui nos vemos reduzidos à escuta. E escutar é mais difícil do que ver. A voz infantil, frágil, interrompida por ruídos, silêncios e medo, não permite distanciamento crítico confortável. Não há como escutar aquela voz sem ser atravessado emocionalmente.

A cineasta trata a formalidade como escolha política: a câmera observa, a montagem respeita o tempo real da espera, o espaço é iluminado de maneira funcional, quase laboratorial. Não há música conduzindo sentimentos. Qualquer excesso estético poderia funcionar como anestesia, o que não é a intenção. O filme prefere o desconforto seco, contínuo, administrativo, porque é exatamente assim que a violência se organiza naquele contexto.

O conflito entre os personagens do espaço do Crescente Vermelho, principalmente no que diz respeito à “coordenação”, expõe um dos núcleos mais complexos do filme: a violência moral infligida àqueles que, para tentar salvar vidas, precisam negociar, muitas vezes, com quem as elimina. Não se trata de “o que você faria?”, mas sim de “o que é possível fazer quando todas as escolhas já foram capturadas por um sistema de dominação?”. A indignação explode sem encontrar saída.

Talvez por isso “A Voz de Hind Rajab” seja um filme que transcende a crítica tradicional. Ele não pede avaliação, pede posicionamento. Não busca admiração, busca responsabilidade. Ao final, quando a voz se cala, o que resta não é apenas tristeza ou revolta, mas um vazio ético, a percepção de que falhamos como sociedade, enquanto humanidade organizada em estruturas.

Assistir ao filme, portanto, implica aceitar um limite. O limite do cinema como representação, o limite da crítica como mediação e, sobretudo, o limite da empatia quando ela não se converte em ação. Ben Hania não oferece respostas, nem consolo. Oferece escuta. E nos devolve a pergunta mais incômoda que o filme carrega: o que fazer depois de ouvir?