Brazil Core: a estética viral de um país líder e farol do mundo
Estética viral expressa a força cultural e democrática do Brasil na governança global.
O Brasil está na moda. Em todo o mundo, as redes sociais estão tomadas por conteúdos, vídeos e imagens de indivíduos que usam cores, símbolos, acessórios e estampas típicas da estética brasileira, acompanhados da hashtag #BrazilCore. O fenômeno ganhou especialmente as plataformas audiovisuais, além da mídia global e das passarelas do verão europeu. Embora pareça uma trend isolada, as razões e as consequências dessa tendência são amplas e profundamente atravessadas por fatores internos e internacionais, que vão da cultura à geopolítica.
O Brasil vem ganhando projeção em razão de premiações importantes de seu audiovisual, a exemplo do Oscar e do Globo de Ouro, além de seus fenômenos musicais, como Anitta, e da exportação da estética do funk carioca. Algumas análises ainda discutem o modo de vida alegre, festivo e tropical do brasileiro como um alento em tempos de medo e incerteza, localizando nessa suposta “identidade nacional” as origens da viralização da estética brasileira. De fato, todos esses elementos parecem contribuir para o fenômeno Brazil Core, e não é difícil encontrar referências diretas a essas características em uma busca simples pelo termo em qualquer plataforma.
Há, entretanto, um elemento muito maior no centro da viralização da estética brasileira: a projeção central que o Brasil alcançou na governança global, na defesa do multilateralismo, das instituições democráticas e dos direitos humanos.
Nos últimos anos, o país passou a ser percebido globalmente como um exemplo de sucesso no enfrentamento a investidas antidemocráticas e autoritárias. Um dos maiores institucionalistas do mundo, Steven Levitsky, afirmou categoricamente que o Brasil, hoje, é um sistema mais democrático que os Estados Unidos.
Após a derrota do bolsonarismo nas urnas em 2022, o New York Times questionou: “O que a democracia dos EUA pode aprender com o Brasil?”. Em 2025, após a condenação do núcleo duro da tentativa de golpe de Estado, a revista The Economist afirmou que “o Brasil oferece aos EUA uma lição de maturidade democrática”. Em diversas publicações e conteúdos, a indústria cultural e a mídia global têm rasgado elogios à resiliência e à firmeza das instituições brasileiras, situando o país como um exemplo a ser seguido na defesa das instituições democráticas.
Mas não só. A resposta do Estado brasileiro ao tarifaço ilegal e abusivo de Donald Trump e a reafirmação de sua soberania para decidir assuntos internos foram recebidas com um misto de admiração e surpresa pelo Ocidente, especialmente por uma Europa curvada às pressões estadunidenses. A decisão do país de não ceder às imposições externas e de reafirmar sua autodeterminação foi incentivada e observada com entusiasmo em diversas partes do mundo. O Nobel de Economia Paul Krugman chegou a afirmar que o Brasil é um dos países que reúnem condições — e deveria utilizá-las — para impor limites a Donald Trump. Assim, apostando na diplomacia e na defesa de sua própria jurisdição, o Brasil recusou-se a cumprir imposições antidemocráticas e inconstitucionais do presidente estadunidense, impondo àquele país o pesado ônus de assistir ao aumento da inflação interna sobre os alimentos. O governo Trump recuou, sem que o Brasil precisasse abrir mão de sua soberania.
O Brasil projetou-se, ainda, no cenário internacional como bastião da defesa do multilateralismo e como ator central da governança global. A forte participação em espaços multilaterais, como a ONU, aliada à liderança de eventos, conferências e organismos internacionais de cooperação — como o G20 (presidido pelo Brasil em 2024), a COP 30 (sediada pelo país em 2025) e o Mercosul (também presidido pelo Brasil no último ano) — reafirmou o papel estratégico do país na governança global.
O G20 de 2024 foi apontado como a reunião do grupo com a maior participação social da história, com a criação de um braço social (G20 Social), que se concluiu com uma cúpula própria, realizada dias antes do encontro dos líderes. A COP 30, realizada pela primeira vez na Amazônia, reafirmou o país como liderança climática global. O Mercosul, sob liderança brasileira, conseguiu firmar um acordo histórico com a União Europeia após 26 anos de negociação, criando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo e reunindo um capital humano de mais de 700 milhões de pessoas. A presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente brasileiro, Lula, afirmaram em coletiva de imprensa conjunta que o acordo Mercosul–UE envia uma poderosa mensagem de defesa do multilateralismo, das instituições democráticas e dos direitos humanos.
Noutra frente, a posição firme da diplomacia brasileira contra o genocídio em Gaza, a defesa intransigente da América Latina como território de paz e a decisão de não enviar armas para qualquer conflito armado marcam a construção de uma identidade pacífica do Estado brasileiro — ainda que essa identidade externa seja atravessada por contradições internas, como o genocídio da população negra promovido pelas forças de segurança. Mesmo o presidente Donald Trump, em sua tentativa de substituir as Nações Unidas por seu centralizador “Conselho de Paz”, teve de reconhecer a importância de contar com a representação brasileira, convidando o país a assumir uma cadeira no órgão. Até agora — e que assim permaneça — sem sucesso.
Todo esse cenário é igualmente relevante para a construção da bem-sucedida estética Brazil Core que ganhou o mundo, não apenas pela cultura, pelo cinema, pelo modo de vida e pelo futebol nacional, mas também pela relevância central que o país alcançou na governança global. As consequências desse fenômeno são grandiosas e colocam o Brasil em posição de elevada influência cultural e geopolítica, produzindo repercussões concretas, como o crescimento de quase 40% no turismo internacional em 2025, com mais de 9 milhões de visitantes nos últimos 12 meses. Talvez seja esse o motivo de termos nos acostumado, nos últimos meses, com nomes da indústria cultural — como Shawn Mendes, Rosalía, Sam Smith, Paul Wesley e outros — escolhendo o país como destino de suas festas de final de ano.
Em 2026, enfrentaremos, como país, o desafio de converter essa tendência em uma nova onda de defesa dos valores universais que colocaram o Brasil no centro do mundo. Diante da crise da democracia estadunidense e da intensificação dos conflitos na América Latina, no Atlântico Norte, no Oriente Médio e na Europa Oriental, o mundo assistirá — e torcerá — pelo Brasil em duas grandes disputas: as eleições gerais e a Copa do Mundo de 2026. Vivemos um momento ímpar de projeção internacional, e nossa missão, enquanto comunidade política, vai além de garantir vitórias nacionais. O Brasil tem uma responsabilidade com o planeta, com a comunidade internacional, com a cultura e com a proteção da democracia e dos direitos humanos. Podemos continuar nos projetando como farol do mundo, expoente da defesa das instituições e potência cultural. Ou podemos seguir noutro sentido, optar pelo isolamento, pela subserviência, pela negação de nossa própria cultura e apagar as luzes que, ao longo dos últimos anos, ajudaram a iluminar a Terra.