Por Kaio Phelipe

Autor dos livros de poemas No próximo verão (finalista do Prêmio Mix Literário), Os abismos, Os desertos (finalista do Prêmio Mix Literário 2024 e semifinalista do Prêmio Oceanos) e Os vulcões, Marcos Samuel Costa também escreveu os romances Dentro de um peixe e O cheiro dos homens, além dos livros de contos Sol forte na pele e Óculos escuros.

Em entrevista exclusiva, ele compartilha sua trajetória na literatura desde o primeiro contato com a escrita ainda na infância, quando venceu um concurso escolar. Morador de Ponta de Pedras, na Ilha do Marajó, reflete sobre os desafios de produzir literatura no Brasil e sobre as mudanças que vêm ocorrendo no mercado literário.

Além de destacar a importância de resgatar a memória de Dalcídio Jurandir, autor fundamental da literatura amazônica, Marcos também fala sobre literatura LGBTQIAPN+ e apresenta seu próximo lançamento, Saltos ornamentais, a ser publicado pela Editora Primata: um romance em versos que aborda culpa, desejo, conflitos familiares e homoafetividade, reafirmando sua escrita como um espaço de sensibilidade e experimentação.

Quando começou a escrever?

É uma pergunta difícil de responder, porque são muitas etapas. Mas meu primeiro contato com a ideia de preparar um texto foi ainda na infância, durante a escola. Havia um concurso de conto e poesia no aniversário da cidade, e a gente se inscrevia para participar. Na sétima série, escrevi uma historinha e ganhei o concurso. A partir disso, comecei a escrever.

Como foi publicar o primeiro livro?

Entre 2012 e 2013, publiquei alguns livros que não serão reeditados, por uma editora pequena de Belém (PA), com textos ainda bastante fracos, na minha opinião. Até então, eu não tinha muita noção de literatura. Passei a ter uma compreensão melhor de editoração e de mercado quando entrei para a Editora Folheando, em 2019. Foi a primeira vez que, de fato, tive um editor.

Era alguém que lia os textos, comentava, pedia alterações, pensava o livro em termos gráficos e estéticos e refletia sobre como a obra poderia circular — rompendo com a ideia de que é fundamental mandar o livro apenas para grandes intelectuais lerem e comentarem. Isso é importante, mas também é primordial que o livro circule entre leitores, que as pessoas conheçam, indiquem umas às outras porque gostaram. Essa maturidade começou quando passei a ter a figura do editor na minha vida, em 2019, com a publicação de Dentro de um peixe.

Qual é a principal barreira para fazer literatura no Norte do país?

Existe uma barreira geográfica. Eu, pelo menos, sinto isso. Moro em Ponta de Pedras, na Ilha do Marajó, fora do continente. Não temos acesso por terra, apenas por barco. Há uma viagem que sai daqui às seis da manhã e outra que retorna às quinze horas. Depois disso, não há mais. Vivemos ilhados.

Isso torna mais difícil participar de eventos literários. Feiras e festas literárias são muito interessantes, mas podem se tornar inviáveis para a realidade de quem vive no Norte. Ainda assim, continuo escrevendo e mantendo a esperança de que as pessoas leiam.

E a principal barreira para fazer literatura no Brasil?

Não saberia responder de forma definitiva. Acredito que hoje esteja um pouco menos difícil. Por exemplo, gosto muito de trabalhar com o sistema de pré-venda, em que a primeira tiragem do livro é vendida antes de chegar aos leitores. Desde que conheci essa forma de publicar, nunca mais precisei pagar para editar. Como a própria editora faz a divulgação e o envio, o livro tem mais chances de circular.

Mas existem muitas barreiras. Posso estar errado, mas acredito que há mais dificuldades para quem está no Norte do que para quem está no Sul. Existem marcadores de gênero, raça e até de idade. A literatura no Brasil ainda é muito cisgênera, heterossexual, classista e branca.

Fazer literatura LGBTQIAPN+ é também uma forma de ativismo?

Não deixa de ser. Na verdade, é impossível que não seja. Mas, quando escrevo, não concebo dessa forma.

Quando alguém escreve um romance ambientado dentro de normas heteronormativas, não está pensando nisso. A pessoa retrata o que vê, o que ouve, o que vive e o que faz sentido para ela. Por exemplo, se Pablo Neruda ainda estivesse vivo, ele não seria questionado se os poemas que escreveu para Matilde Urrutia são uma forma de ativismo ou de luta.

Eu escrevo a partir do desejo. Boa parte da minha escrita apresenta o meu desejo, o idealismo do que vivi e do que não vivi, do que gostaria ou não de ter vivido.

Venho de uma família evangélica e demorei muito para sair do armário e ter uma relação estável com outro homem. Acredito que a literatura também me deu a oportunidade de viver e entender o que é isso.

Quando publiquei O cheiro dos homens, muitas pessoas leram — professores e pesquisadores, inclusive. Mas o que mais me marcou foi um aluno do ensino médio dizer que se viu na narrativa que escrevi e que sabia que o autor existia e vivia na mesma cidade que ele.

Saber que isso acontece me faz entender que, quando um texto ajuda alguém dissidente a se compreender, ele também se torna uma forma de ativismo.

Quando foi seu primeiro contato com a literatura LGBTQIAPN+?

Foi por meio de textos de pessoas que não pertencem à comunidade — ou que, ao menos, não se sabia que pertenciam. Li um conto do Machado de Assis que flerta com o homoafetivo. Também li Morte em Veneza, de Thomas Mann. Hoje sabemos que Thomas Mann era gay, mesmo tendo sido casado com uma mulher.

Depois, tive contato com a literatura de Caio Fernando Abreu e de outros autores. Atualmente, é mais comum encontrar narrativas LGBTQIAPN+, mas até 2016 era bastante difícil achar esses livros em livrarias.

Você compartilha muitas informações sobre Dalcídio Jurandir. Quem foi ele?

Dalcídio Jurandir foi o maior romancista da Amazônia. Temos Milton Hatoum, mas Dalcídio continua sendo o maior. Ele escreveu dez romances.

Era muito ligado ao Partido Comunista e à luta do proletariado, o que fez com que fosse perseguido. Nasceu em Ponta de Pedras e depois se mudou para Belém. Mais tarde, estabeleceu-se em Niterói, no Rio de Janeiro, onde viveu até o fim da vida.

Trocava muitas correspondências e era amigo de grandes intelectuais conhecidos nacionalmente, como Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Carlos Drummond de Andrade. Foi publicado pela Editora Record, mas passou cerca de trinta anos sem ser reeditado.

Hoje, sua obra vem ressurgindo e ganhando maior reconhecimento, especialmente no meio acadêmico. Recentemente, a Editora Folheando publicou Belém do Grão Pará e Passagem dos inocentes, de sua autoria.

O que você diria para quem quer começar a escrever?

Ler. Ler muito. Escrever é também conhecer a própria língua. A leitura ajuda com questões estéticas e fornece técnica de escrita. Quanto mais lemos, mais somamos a nós mesmos.

Não entendo como alguém pode querer se tornar escritor sem ler. Um poeta precisa ler muita poesia. Acredito que, entre todos os gêneros, a poesia é a que mais exige leitura.

Qual é o seu próximo projeto?

Estou trabalhando no lançamento de Saltos ornamentais (Editora Primata), um romance escrito em versos. A obra flerta com a questão homoafetiva. O personagem principal mata o próprio irmão por inveja: o irmão se assumiu gay e é bem-sucedido, enquanto ele permanece preso ao desejo, sem realizá-lo.

A narrativa acompanha essa saga do irmão que mata, que se arrepende e, ao mesmo tempo, enxerga justiça no que fez. Tive muita influência da arqueologia durante a escrita. O formato do livro é bastante diferente: não é uma história linear, mas fragmentada e profundamente poética.