Por Junyander

Na noite da última quinta-feira (27/11), em Cuiabá, foi lançado o livro “Blackout: o negro no cinema de Mato Grosso”, do cineasta e pesquisador cuiabano Maurício Pinto. A obra analisa a participação e representação da população negra no audiovisual mato-grossense. O lançamento fez parte da programação da Jornada Cultural da Consciência Negra, realizada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e ocorreu no Cineclube Coxiponés, localizado no Centro Cultural da instituição, contando com a exibição de filmes analisados pelo livro.

“Esse trabalho traz dados fundamentais para a discussão sobre políticas públicas voltadas à cultura negra no nosso país. É muito bom poder lançá-lo aqui no Coxiponés, um espaço tão importante de acesso ao cinema em Mato Grosso e que é como uma casa para mim”, comentou o autor, emocionado. “Blackout” é fruto da pesquisa de mestrado de Pinto no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFMT, no qual foi orientado pela Prof.ª Letícia Capanema, quem assina o prefácio do livro, publicado pela editora Autografia.

Em seu estudo, o autor se propôs a mapear a produção cinematográfica realizada com financiamento público no estado de Mato Grosso ao longo de 30 anos (entre 1992 e 2022). O recorte temporal escolhido abrange duas importantes políticas de fomento à produção audiovisual mato-grossense: primeiro, a Lei Estadual Hermes de Abreu, aprovada no fim de 1991, uma lei de incentivo fiscal à cultura nos moldes da Lei Rouanet; depois, a Lei Federal Aldir Blanc, aprovada em 2020 para apoiar o setor cultural no contexto da crise provocada pela pandemia de Covid-19.

O mapeamento, apresentado em detalhes nas 163 páginas de “Blackout”, foi feito com o objetivo de documentar a presença negra nos filmes de Mato Grosso e investigar de que forma esse grupo étnico-racial é representado nas telas do estado, ampliando a discussão sobre Cinema Negro no Brasil. No período considerado, o pesquisador identificou 64 filmes de ficção, de curta e longa-metragem, produzidos com verbas públicas. No entanto, somente 15% desses filmes tiveram roteiro e direção assinados por profissionais negros. Além disso, no total, apenas 3% eram sobre pessoas negras ou questões raciais e foram dirigidos e roteirizados por pessoas negras.

Os dados revelam o baixo investimento estatal em obras de autoria e temática negras. Para Pinto, esse cenário é preocupante porque, ao investir majoritariamente em histórias contadas por roteiristas e diretores brancos, o Estado contribui para o apagamento das narrativas negras.

“Ter pessoas negras no elenco não significa, por si só, fazer Cinema Negro. Historicamente, mesmo quando corpos negros estavam presentes, eram representados a partir de estereótipos, ausências e fantasias produzidas por narrativas dominadas por homens cis brancos. O Cinema Negro, por outro lado, implica pessoas negras decidindo a narrativa, definindo o olhar e construindo representações que devolvem o poder de agir aos negros”, afirma.

O autor pondera que o conceito de Cinema Negro, assim como o de negritude, não é único e está em constante discussão. Em “Blackout”, no entanto, Maurício Pinto defende que Cinema Negro é o conjunto de filmes com pessoas negras à frente e atrás das câmeras, em posições de decisão e com uma narrativa sobre a negritude. Essa definição se apoia em importantes estudiosos da área, entre os quais Jeferson De, um dos grandes nomes do Cinema Negro brasileiro.

Apesar da negligência estatal, Pinto avalia que o Cinema Negro resiste em Mato Grosso. Entre os filmes analisados em “Blackout”, ele exalta dois que se destacam: “A Cilada com Cinco Morenos” (1996), de Luiz Borges, e “Aqui Jaz a Melodia” (2022), de Juliana Segóvia e Wuldson Marcelo. Esses curtas-metragens, na análise do autor, representam um avanço significativo para o Cinema Negro, pois retratam a negritude sem ceder a estereótipos, com uma representação complexa e multifacetada, enraizada na cultura cuiabana, mas em diálogo com questões universais. Ambos os filmes foram exibidos no lançamento do livro no Cineclube Coxiponés, com direito a debate com os realizadores Luiz Borges e Wuldson Marcelo.

Foto: Junyander/Cine Ninja
Foto: Junyander/Cine Ninja
Foto: Divulgação

Pinto explica que seu livro não pretende esgotar as discussões sobre cinema em Mato Grosso. Ele adverte que “Blackout” considera apenas filmes de ficção financiados por leis que alcançam, sobretudo, a região metropolitana de Cuiabá. “Há muito a ser explorado. Barra do Garças [cidade no sudeste do estado, a mais de 500km da capital] é um polo audiovisual interessantíssimo. Há cineastas indígenas espalhados por todo o estado. A produção de documentários é imensa. Mesmo aqui, em Cuiabá, há muitos filmes que vêm sendo produzidos sem investimento estatal e não entraram no mapeamento da pesquisa”, afirma, empolgado, após uma longa sessão de autógrafos.

Entre os representantes do Cinema Negro de Mato Grosso que ficaram de fora da análise feita em “Blackout”, o autor menciona “Questão de Justiça” (2017), de Celso Luiz Prudente, filmado em parceria com os estudantes da UFMT, e os premiados “Como Ser Racista em Dez Passos” (2018), de Isabela Ferreira, e “A Velhice Ilumina o Vento” (2019), de Juliana Segóvia, produzido pelo Aquilombamento Audiovisual Quariterê, do qual Maurício Pinto faz parte.

Na visão do autor, esses filmes exemplificam uma tendência de produção coletiva que resiste às limitações do mercado e perpetua o Cinema Negro fora do eixo Rio-São Paulo. “Os grandes projetos individual mercadológicos estão fadados ao esquecimento. O cinema é coletivo”.