Festival Comida Preta estreia em Divinópolis com foco na memória, ancestralidade e resistência
O evento celebrará a memória e a identidade preta através das
raízes alimentares e da cultura
No próximo domingo (31), Divinópolis será palco da primeira edição do Festival de Comida Preta, um evento que chega para celebrar a memória, a identidade e a resistência do povo preto através da gastronomia, da oralidade e da cultura. Realizado no Complexo Usina Gravatá, das 8h às 19h, com entrada gratuita, o festival pretende transformar o espaço público em território de partilha, coletividade e aquilombamento.
À frente da iniciativa está Fátima Gonçalves, historiadora, produtora cultural, arte-educadora e matrigestora do Coletivo Mãe Preta. Mulher negra que carrega a convicção de que a comida é mais do que nutrição — é memória, identidade e afeto —, Fátima idealizou o festival como forma de valorizar as mulheres negras que, ao longo de gerações, salvaguardaram técnicas culinárias, narrativas orais e saberes ancestrais. Para ela, cozinhar sempre foi um ato de resistência, capaz de transformar a precariedade em invenção, tempero e vida.

“A comida preta é história viva. Ela fala das mulheres que vieram antes de nós, da oralidade como transmissão de saberes, da cozinha como lugar de cura e de emancipação. Este festival é um convite para celebrarmos nossa ancestralidade e cuidarmos uns dos outros”, afirma Fátima.
A programação é extensa e diversificada, contemplando atividades para todas as idades. No Espaço Comensalidade, o público poderá participar de uma roda de conversa sobre os sabores da comida preta mineira, visitar a Tenda dos Saberes com oficinas de ervas medicinais e compartilhar, entre 12h e 14h30, um almoço coletivo gratuito que resgata as tradições da cozinha mineira: feijoada, galinhada, arroz, farofa e torresmo com mandioca. Mais do que uma refeição, a proposta é reafirmar a comensalidade — o ato de comer junto — como gesto de encontro, afeto e ancestralidade.
O Espaço Cultura dará visibilidade à força da religiosidade e das expressões artísticas de matriz africana. Guardas de Congado e Reinado da região se apresentarão ao lado de artistas como Sérgio Pererê, Tripulantes do Samba, Coletivo Takará e Coral Afro Undarirê. Entre os destaques, está a peça Matri, da Trupe Boba, que celebra o Candomblé e coloca as iabás — orixás femininas — no centro da cena, refletindo sobre guerras, lutas, união, cuidado com a natureza e a urgência de escutar as vozes de quem veio antes.
Já o Espaço Educakids oferecerá atividades lúdicas e educativas para as crianças, como oficinas de bonecas Abayomi feitas com tecidos reciclados, pintura de símbolos Adinkra, degustação de biscoitos de polvilho em forma de letras e contação de histórias. O objetivo é promover a diversidade e estimular reflexões sobre identidade e ancestralidade desde a infância, unindo arte, brincadeira e aprendizado.
Idealizado como um Ponto de Cultura Viva, o Festival de Comida Preta também nasce como um gesto político: ocupar espaços públicos que por tantos anos foram negados ao povo preto e transformá-los em território de celebração e memória. Para Fátima Gonçalves, realizar essa primeira edição em Divinópolis é não apenas concretizar um sonho pessoal, mas também construir um marco coletivo para a cidade.
“O festival é sobre partilha. Sobre reconhecer que a comida preta sempre esteve presente, mas nem sempre foi valorizada. É sobre devolver às mulheres negras, às cozinheiras e guardiãs da tradição, o protagonismo que lhes pertence. É sobre transformar nossa história em potência para o futuro”, explica a idealizadora.
Ao longo de um dia inteiro de atividades, o público será convidado a refletir sobre as marcas do racismo e da exclusão, mas também a celebrar a resistência que se renova a cada geração. Afinal, como lembra a escritora Grada Kilomba, “ninguém escapa do passado” — e é justamente na valorização da ancestralidade e na construção de novos caminhos coletivos que se encontram as sementes de um futuro mais justo e igualitário.
Serviço
1° Festival Comida Preta
Local: Complexo Usina Gravatá
Horário: das 8 às 19 horas