No dia 5 de abril, São Francisco será palco de uma celebração de corpos dissidentes, arte política e brasilidade queer. A Mostra Internacional Drag King Queer chega à cidade em aliança com o Jambuceteio, festa brasileira que mistura música, performance e libertação dos corpos, para uma tarde de ocupação cultural no El Rio, das 15h às 20h. A festa faz parte de uma jornada que busca mostrar, a partir do olhar de artistas LGBTQIA+ brasileiros, a resposta à onda reacionária e LGBTfóbica do governo Trump contra imigrantes, corpos dissidentes.

A Mostra é um movimento artístico-político que reúne artistas drag kings e queer de diversas partes do mundo, com foco na expressão de identidades transmasculinas, não-binárias e dissidentes. Criada para confrontar a normatividade da cena drag tradicional, a Mostra propõe um novo imaginário, onde arte e ativismo se entrelaçam para desafiar padrões de gênero, raça e corpo.

Já o Jambuceteio, fundado por brasileiras nos Estados Unidos, tornou-se referência de acolhimento e celebração para a comunidade LGBTQIA+ imigrante, especialmente latino-americana. Juntas, Mostra e Jambuceteio constroem um espaço de resistência, afeto e insurgência cultural no coração da Califórnia.

Com o retorno de Donald Trump ao poder e o avanço de políticas anti-imigração, anti-trans e anti-direitos nos EUA, a união entre a Mostra Internacional Drag King Queer e o Jambuceteio representa uma resposta direta e contundente à onda reacionária em curso. Esta parceria é um gesto de coalizão radical entre corpos dissidentes que se recusam a aceitar o silenciamento como norma.

Enquanto os discursos de ódio se fortalecem no campo institucional, a arte e a coletividade se tornam trincheiras. A Mostra e o Jambuceteio, juntas, formam uma aliança que não apenas denuncia, mas constrói: um novo imaginário para existências queer, imigrantes e racializadas. Esta conexão propõe redes de solidariedade entre quem cria e quem sobrevive, entre quem performa e quem cuida, entre quem resiste e quem sonha.

Visibilidade em tempo real

A Mostra realizará uma cobertura especial do Jambuceteio por meio de vídeos, entrevistas e registros audiovisuais produzidos em colaboração com artistas e comunicadores independentes. O objetivo é criar um arquivo vivo da resistência queer brasileira e latine nos EUA — documentando seus afetos, dores, alegrias, histórias e estratégias de sobrevivência.

Durante o evento, serão feitas entrevistas com frequentadores e artistas da comunidade. Devido ao contexto político e ao medo constante de deportação ou violência, nem todes estarão confortáveis em se identificar, por isso a equipe de registro será treinada para respeitar o anonimato e garantir a segurança de cada pessoa entrevistada.

O Planeta FODA, canal da Mídia NINJA voltado ao publico e aliades da comunidade LGBTQIAP+, será a principal plataforma de divulgação dessa parceria, atuando como ponte entre os movimentos de resistência queer nos EUA e o público brasileiro. Diante da escassez de cobertura crítica na mídia tradicional sobre o impacto das políticas norte-americanas nas comunidades imigrantes, o FODA cumpre papel fundamental em oferecer informação direta, honesta e contextualizada. Com uma rede ativa de comunicadores independentes, a ideia é amplificar as vozes da diáspora queer brasileira, desafiando a narrativa oficial e fortalecendo o direito à memória e à denúncia.

A Mostra e seus parceiros responderão em tempo real a cada nova política ou ação do governo Trump que afete diretamente comunidades imigrantes, queer e racializadas. Através de painéis, transmissões ao vivo, matérias e registros audiovisuais, cada novo ataque institucional será contextualizado com depoimentos reais de quem sofre essas consequências na pele. O objetivo é transformar a dor em dado, a exclusão em evidência, e os testemunhos em denúncia coletiva. Diante de um governo que criminaliza corpos queer e imigrantes, a Mostra transforma cada violência em ponto de articulação e denúncia internacional.

“Cidão na sua casa” e workshops

Cidão, artista drag king queer, comandará o quadro “Cidão na sua casa”, no qual visita lares de pessoas brasileiras e latines queer nos EUA para entrevistas íntimas e emocionantes. A proposta é revelar os bastidores da existência queer imigrante, fugindo da lógica do espetáculo e se aproximando da vivência cotidiana: os cuidados, as saudades, os medos, os sonhos, os alívios. Mais do que uma série de entrevistas, esse quadro será um mergulho em histórias invisibilizadas pela grande mídia, mas que sustentam redes inteiras de afeto e luta.

Muito do imaginário drag nos EUA está pautado pela lógica do entretenimento televisivo, da competição e da performance padronizada. A Mostra propõe uma ruptura com esse modelo e convida o público estadunidense para uma nova leitura: o drag como espaço de pesquisa, investigação estética, ancestralidade e resistência política.

Através de painéis, rodas de conversa e debates presenciais e online, artistas da Mostra vão apresentar um outro universo possível — onde o drag não serve apenas para entreter, mas para pensar. Pensar corpos, pensar histórias, pensar afetos, pensar rupturas. A arte drag é também documento histórico e forma de criar mundos.

Um dos momentos mais transformadores desta parceria será a realização de um workshop drag voltado para quem nunca teve acesso ou oportunidade de explorar essa linguagem. Com apoio de artistas locais e imigrantes, esse espaço será criado para acolher e inspirar: não há exigência de experiência prévia, apenas o desejo de experimentar.

O objetivo é possibilitar que pessoas queer, trans, racializadas e imigrantes possam acessar a potência de seus próprios corpos como ferramenta estética e política. O workshop será também um espaço de troca, escuta e construção coletiva de identidade — uma semente para novas formas de se ver no mundo.

Em meio à intensificação de políticas excludentes e ao cerceamento de liberdades fundamentais, artistas drag king queer de diferentes regiões do mundo se uniram em um gesto inédito de articulação internacional. Com a arte como ferramenta de transformação e o afeto como potência política, lançam um manifesto que transcende o campo da performance e se inscreve como documento de resistência, memória e futuro.

Foto: Divulgação

Manifesto global para a visibilidade da arte drag

Em um mundo cada vez mais marcado por retrocessos políticos e ataques às existências dissidentes, artistas dragr de diferentes partes do planeta erguem suas vozes em um chamado potente e urgente por visibilidade, liberdade e transformação social. Nascido do calor das performances, da dor das ausências e da esperança cultivada nas margens, o Manifesto Global para Visibilidade da Arte Drag emerge como um documento político e poético que convoca artistas, coletivos, instituições e aliades a reconhecer a potência da arte drag como ferramenta de subversão, cura e construção de futuros mais justos.

A iniciativa se insere na esteira da Mostra Internacional Drag King Queer, que, desde sua criação, vem desestabilizando os padrões normativos da arte e da performance de gênero, afirmando masculinidades outras e expressões queer que raramente encontram espaço nos palcos hegemônicos. Agora, em parceria com o All Out, o movimento se internacionaliza ainda mais, ampliando a rede de afeto, insurgência e criação coletiva.

Mais do que um texto programático, o manifesto é um grito artístico e político que atravessa fronteiras e corpos. É uma declaração de que a arte drag é parte essencial da cultura global e de que toda forma de expressão que rompe com os limites do gênero deve ser celebrada, protegida e visibilizada.

Este manifesto é, sobretudo, um lembrete: culturas vivas não existem sem liberdade. Diversidade não é retórica, é prática. E a preservação da humanidade passa, necessariamente, por reconhecer o valor das expressões artísticas que nascem da margem, da dor e da beleza de existir em dissonância com os padrões impostos.

Que esse documento alcance todos os espaços comprometidos com a promoção da paz, da dignidade humana e da diversidade cultural. Porque não se trata apenas de visibilidade: trata-se de futuro. E o futuro é, e sempre será, queer.