Por Vitória Garcia Galhardo

Se tem algo que podemos concordar é que ‘A Substância’ tornou-se, no final de 2024, um fenômeno na internet. Arrecadando, em números atuais, 77,102,205 milhões de dólares, além dos números da plataforma MUBI.

Muitas pessoas viralizaram vídeos no Instagram e Tiktok com os mais variados conteúdos, sejam de maquiagem, reencenações, dublagem, etc. Porém, precisamos ficar atentos a dois dos percursos principais que permeiam a narrativa do filme: a crítica ao machismo e ideais de gênero e os novos modelos das representações dos corpos no cinema contemporâneo.

Primeiramente, vemos que a narrativa de ‘A Substância’ cria metáforas para discutir como os padrões de beleza são impulsionados pela indústria às mulheres e às mulheridades: de forma violenta e até injusta quando comparado ao que se espera dos padrões masculinos. Isso porque a beleza feminina está firmada em uma lógica da misoginia e de outros atravessamentos como os étnicos e raciais (ainda que não retratados no filme).

A substância, como sabemos, torna-se uma alternativa para a personagem Elisabeth Sparkle manter sua beleza por maior período de tempo. Nas ligações que a personagem recebe, entretanto, a mensagem é clara: “lembre-se: vocês são uma só”. Ou seja, externo e interno estão em uma única lógica da cultura capitalista que só pensa em lucrar e pouco se importa com a saúde mental e física de quem irá consumir tal produto milagroso.

Foto: Divulgação

A autora Martine Beugnet (2007) afirma que se pode notar essa nuance transgressora em torno dos corpos já no início dos anos 2000, no que ela chama de “nova onda do horror francês”, em tradução literal. Trata-se de narrativas que destacam o papel do corpo na narrativa em seus aspectos abjetos e transgressores. Ela comenta que, “algumas das recentes produções cinematográficas francesas levam aparentemente o cinema de arte a novos patamares de terror ou de violência gráfica” (2007, p. 16). Para a autora, isso se dá nas práticas de “alta” e “baixa” cultura do cinema de mesclar elementos de gênero e trabalhar com elementos de excesso, como o horror, a nudez e o gore (sangue) para subverter as narrativas cinematográficas.

Isso nos faz pensar na definição mais contemporânea do termo “body horror”. Para o autor Xavier Aldana Reyes, o conceito é “usado para descrever um tipo de ficção ou cinema onde a corporeidade constitui o principal local de medo, ansiedade e às vezes até desgosto pelos personagens e, por extensão, pelos leitores/espectadores pretendidos” (REYES, 2020, p. 393).

Para contextualizar: uma série de filmes firmaram-se nas últimas décadas com elementos narrativos que se assemelham ao que vimos em ‘A Substância’ e aos preceitos do body horror. Exemplos como os citados por Martine Beugnet em “Cinema and Sensation: French Film and the Art of Transgression” (2007): ‘Baise-moi’ (2000), de Virginie Despentes e Coralie Trinh Thi; ‘Desejo e Obsessão’ (2001), de Claire Denis; ‘Romance X’ (1999), de Catherine Breillat, entre outros. 

Outros mais contemporâneos como ‘American Mary’ (2012), das irmãs cineastas Jen Soska e Sylvia Soska; ‘Love Lies Bleeding: o Amor Sangra’ (2024), de Rose Glass; ‘Titane’ (2021), de Julia Ducournau; e o primeiro filme body horror de Coralie Fargeat, ‘Vingança’ (2018).

Béatrice Dalle em ‘Desejo e Obsessão’ | Foto: Divulgação

Encaminhando ao fim, gostaria de afirmar como a ElisaSue (o monstro) figura como uma metáfora da sociedade contemporânea que nunca se importou com a personagem tal. Acredito que essa é uma resposta que se elucida na escolha de Coralie Fargeat no final frenético da transformação das personagens no monstro. 

Esse aspecto se reflete  no que, na literatura, Izabel Fontes considerou sobre os corpos nos contos da autora argentina Mariana Enriquez: “o corpo monstro configura-se também como um espaço de sobrevivência em um mundo de violência social e de gênero, ele transforma-se em um espaço de enunciação política” (FONTES, 2018, p. 257).

Foto: Divulgação

Ou seja, o intuito da cineasta foi criticar o estímulo ao consumo dos produtos de beleza, assim como a própria busca da eterna perfeição e juventude. Ela mostra que estamos em uma sociedade em que as mulheres sempre poderão ser substituídas por outras. Para o espectador, a metáfora de “vocês são uma só”, entendida literalmente, reflete que a beleza não é apenas o clichê de “a beleza é o que vem de dentro”, vai muito além. A afirmação discute certos padrões permeados na sociedade que colocam a mulher sempre como um objeto substituível e em busca de uma perfeição inalcançável. Isso porque cada um tem o seu valor.

Ao levar toda essa discussão em consideração, podemos pensar que a diretora do filme utiliza da “deterioração” do corpo feminino como metáfora narrativa e isso reflete em como o cinema está utilizando novos recursos para trabalhar as imagens do corpo no audiovisual, sejam elas com body horror ou em outros gêneros cinematográficos.

Entre banhos de sangue na plateia e um sorriso angustiante no fim da narrativa, entenda: firme-se na mulher que você é.

Indicações bibliográficas:

BEUGNET, Martine. Cinema and sensation: French film and the art of transgression. SIU press, 2007.

BLOOM, Clive (Ed.). The Palgrave Handbook of Contemporary Gothic. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2020.FONTES, Izabel. O horror vem de dentro: o abjeto e o corpo político em três contos de Mariana Enriquez. REVELL: Revista de Estudos Literários da UEMS, v. 3, n. 20, p. 244-260, 2018.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.