Toda semana José Nenquimo sobe uma pequena montanha de onde observa a floresta primária que circunda o território Waorani na Amazônia equatoriana. Sem a necessidade de óculos ou binóculos, ele consegue identificar um espaço onde foi derrubada madeira a mais de 20 metros de distância. Como se tivesse asas, ele corre pela vegetação da mata para tirar fotos da ameaça com seu celular. Sua habilidade não surpreende seus companheiros. Nenquimo faz parte da equipe “harpias”, que protege e monitoriza a casa desta nacionalidade indígena.

Segundo a visão de mundo dos Waorani, uma das 11 nacionalidades indígenas da Amazônia equatoriana, essas aves são como se fossem sentinelas do seu mundo. Com a sua visão até sete vezes mais poderosa do que a dos humanos e com as suas garras do tamanho das de um urso, as harpias guardam os 800.000 hectares que pertencem a esta cidade nas províncias de Pastaza, Napo e Orellana.

Existem muitos motivos para estar alerta: de repente, uma mancha densa e oleosa cobre parte de um estuário na reserva protegida de Yasuní. Os waorani clamam pelo fim da exploração petrolífera. As “harpias” entram em ação.

A luta dos Waorani em defesa da floresta

“Já é hora de dizer basta, chega, já abusaram de nós”, diz à AFP Ene Nenquimo, vice-presidente da organização Nacionalidade Waorani (Nawe).

Um derramamento de petróleo mancha a vegetação ao longo de uma estrada que leva à comunidade de Guiyero em Yasuní, lar dos waorani e povos nômades que vivem em isolamento voluntário.

“Lagartos grandes morreram”, lamenta Pablo Ahua, de 44 anos e um dos quase 100 indígenas que vivem na pequena aldeia próxima a um dos muitos poços da reserva, de onde é extraído o ouro negro valioso para o cofre do Estado.

Em junho, a estatal Petroamazonas admitiu que o vazamento não quantificado de petróleo no bloco 16 (chamado Iro) contaminou fontes de água de várias comunidades e atingiu o rio Napo, um afluente do Amazonas.

No ano passado, um plebiscito ordenou ao governo a suspensão das atividades em outro bloco, o 43 (conhecido como ITT), que ocupa uma pequena parte do território de Yasuní; 59% votou para deixar centenas de milhões de barris de petróleo debaixo da terra indefinidamente. Mas muitos dos waorani sonham com uma floresta livre da exploração petrolífera.

O ITT começou a ser explorado em 2016, após o fracasso do plano do ex-presidente socialista Rafael Correa (2007-2017) de evitar a extração em troca de uma compensação internacional de 3,6 bilhões de dólares (R$ 20,2 bilhões na cotação atual).

Na reserva, foram identificadas 600 espécies de aves, 220 de mamíferos, 120 de répteis e 120 de anfíbios, sendo considerada um dos lugares mais biodiversos do planeta.

Os waorani pedem o respeito ao mandato popular, considerado um exemplo mundial na luta contra a crise climática. O prazo para fechar os 247 poços do ITT, ainda em operação, venceu em agosto.

“Dizem que (o petróleo) é para o desenvolvimento das comunidades e não há desenvolvimento. O único legado é (…) o impacto ambiental”, afirma Nenquimo.

Segundo ambientalistas, os vazamentos de petróleo ocorrem com muita frequência no parque, que possui um milhão de hectares e é uma reserva mundial da biosfera.

Os vazamentos deixam “um impacto imenso que ninguém pode remediar”, acrescenta Nenquimo.

Povo Waorani, Ecuador. Foto: Amazon Frontlines

Os “esquecidos” da floresta

A Nawe, a maior organização waorani, estima em 4.000 sua população proprietária de cerca de 800.000 hectares na Amazônia, embora reivindique mais 1,2 milhão de hectares.

A Constituição reconhece que os povos originários “têm a propriedade coletiva da terra, como uma forma ancestral de organização territorial”, mas mantém a competência do Estado sobre o subsolo.

“Não somos atendidos, somos esquecidos”, diz Nenquimo sobre faltar serviços essenciais como saúde.

Com cerca de 17 milhões de habitantes, o Equador registrou em junho 25,5% de pobreza e 10,6% de pobreza extrema, que afeta principalmente as comunidades originárias.

Trabalhar para as petrolíferas é uma saída para alguns waorani, divididos frente a esta atividade que, em 2023, gerou receitas de 7,8 bilhões de dólares (R$ 44 bilhões na cotação atual).

Respeito ambiental

O governo calcula que levará pelo menos cinco anos para interromper toda a produção no ITT, de cerca de 50.000 barris por dia (10% do total). O primeiro poço foi fechado em 28 de agosto.

Para Nenquimo, o Estado equatoriano “deve respeitar, goste ou não” o que foi decidido nas urnas. Ela sustenta que sua organização poderia “promover” o fechamento de outros blocos em operação em Yasuní.

O Equador estimou em 2023 perdas de 16,5 bilhões de dólares (R$ 93 bilhões) em duas décadas ao fechar o ITT, um dos cerca de 80 blocos na floresta. Os governos locais recebem contribuições dos fundos petrolíferos.

De acordo com Kevin Koenig, da ONG Amazon Watch, outro efeito da exploração de petróleo são as doenças. “Vemos (…) uma relação de pessoas que vivem perto de plataformas de exploração petrolífera, poços, com altos índices de câncer”, afirma.

O ambientalista pede que os países desenvolvidos financiem a proteção ambiental com alternativas como o perdão de dívidas.

*Com informações da AFP