Como construir a identidade étnica dessa criança, que já não se vê nas grandes mídias e tem sua história apagada na escola?

Hillary Grace e Jaqee Fernandes, professora e contadora de histórias: sobrinha e irmã da Preta-Rara. Foto: Cibele Appes| Fuzuê Filmes

Nasci em uma família que, desde cedo, trabalhava com a minha autoestima, já visando o que o mundo me reservaria em um futuro próximo. Descobri que tinha a cor da pele diferente de outras crianças bem cedo, em uma atividade que a professora elaborou dizendo para os alunos sentarem com quem mais gostavam. Eu me vi sozinha, ninguém me chamou para compor os pequenos grupos. Sem entender, perguntei para a professora o porquê ninguém gostava de mim. Ela disse pra eu não ligar, me deu uma folha de sulfite e lápis de cor para eu ficar desenhando na mesa dela enquanto os demais alunos faziam a tal da atividade.

Foi dessa forma que eu descobrir o quanto é solitário ser preto nesse país racialmente atrasado.

O processo de embranquecimento deu tão certo no Brasil, que existem pessoas que são pretas mas ainda não descobriram sua negritude, pois são vários traumas carregados desde a infância que levam a não aceitar suas origens.

Na escola ainda são reproduzidos estereótipos de pensamento coletivo pelos educadores que reproduzem a ideia de que negro é burro, lento, tem dificuldade no aprendizado e que não tem estrutura familiar.

Ainda hoje é reforçado nas histórias infantis a princesa loira do cabelo liso, de pele branca, sempre de influência européia no ensino. Em um país no qual mais da metade são afrodescendentes não estudamos a nossa história através dos contos africanos valorizando o nosso nariz, nosso cabelo e todos os traços que nos ligam às nossas origens. Isso acarreta uma série de violência às crianças desde muito cedo, quando muitas vezes o racismo é negado nas escolas, não é abordado e não há diálogo entre família X escola.

De fato, é possível notar a falta de perspectiva de algumas crianças negras quando não querem estar nesses lugares inabitáveis, de tão violentos que eles podem ser. Diversos alunos negros, em algum momento da vida, já pediram pra sair da escola, não querendo voltar mais por causa dos apelidos e discriminação racista por parte dos professores, funcionários e/ou alunos.

Houve um apagamento da nossa história, como se os africanos não tivessem contribuído com a construção desse país, levando os alunos a acreditarem que não havia resistência na época escravocrata. Ao abrir os livros didáticos parece que foram escritos na Europa e traduzidos para o português, pois não existem imagens de pretos bem sucedidos, sempre aparecem como escravizados ou maus elementos em alguma manchete de jornal.

Dessa forma, como construir a identidade étnica dessa criança, que já não se vê nas grandes mídias e tem sua história apagada na escola?

Em pleno 2017 ainda existem meninas negras querendo ser a “Miss Caipirinha” e a “noiva da festa junina”, mas nunca são escolhidas, ao contrário, na maioria das vezes nessas festas há o reforço do que seja ‘belo’, a menina e o menino branco de cabelo liso.

A escola não traz conforto e nega afeto para as crianças negras que são silenciadas quando apontam a discriminação racial. São seres tão pequenos e já aprendem logo cedo na escola a se odiarem. São marcas que não saram, feridas abertas que carregamos até a fase adulta.

Eu hoje, com 32 anos de idade ainda me pego chorando no banheiro da escola por causa dos apelidos, da professora que não acreditava em mim e por nunca ser escolhida pra ser a “noiva na festa junina”.

Assistam a nossa websérie Nossa Voz Ecoa,  3° episódio “Racismo na Infância”: serão as crianças falando sobre a atual situação escolar.

Lançaremos dia 12 de outubro, às 19h no meu canal:

Saudações Africanas,

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