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A questão dos ataques de fundamentalistas radicais continua na pauta.

Estamos sendo envolvidos num quadro totalmente diferente do ambiente ideológico.

Por isso estivemos na Caminhada contra a Intolerância Religiosa, em Copacabana, Rio de Janeiro, em 17/09/17.

Estarreceu-nos assistir a dois vídeos em que bandidos forçam a destruição de locais de culto de religiões de matriz africana; num dos casos, parece que a própria dirigente é intimidada a fazer e, vencida pelo medo, o faz. Uma ignomínia!

São bandidos! Em um dos vídeos o bandido sabia expressões comuns a um dos segmentos do campo evangélico, no outro vídeo, não, embora o bandido evocasse alguma relação com algum segmento desse campo.

Deixemos claro, entretanto, que há em um segmento, em especial, dentro do campo evangélico, ainda que num grupo diminuto, um discurso que pode ser propulsor desse tipo de comportamento, se encontrar ouvinte de má fé.

O fundamentalismo radical divide os seres humanos em fiéis e infiéis.

Houve, na história da humanidade, um tempo em que os seres humanos foram classificados dessa forma, nós chamamos a esse tempo de “Idade das Trevas”.

E o foi, pelo equívoco na noção de fé.

A fé não é para defender ou proteger Deus ou, mesmo, para impor a vontade de Deus; um ser que precise desse expediente não pode ser considerado Deus, por definição.

Não nos iludamos, porém, o radicalismo fundamentalista é trans-religioso, ou seja, não é privilégio de uma religião em particular.

Por exemplo, nos comentários sobre o que aconteceu na França, quando do assassinado dos cartunistas do “Charlie Hebdo” foi comum encontrar frases como: “não concordo com as mortes, mas, também, não dá para conviver com o deboche dos cartunistas…”

E fica a pergunta: o que significa a frase: não dá para conviver?

Será que a pessoa não consegue perceber que quando diz isso, está justificando, de alguma forma, a intolerância para com o que crê de forma diferente?

Será que tal comentador se dá conta de que está abrindo a porta para o assassínio que produz mártires?

Insisto, estamos diante do fenômeno que nos leva para a era pré-moderna, e que os termos da modernidade não conseguem abranger.

Os ataques dos radicais não são contra a inexistência de limites ao direito de expressão, como muitos concluíram no ataque à redação da revista francesa de humor, “Charlie Hebdo”.

Tais ataques estão sendo disferidos contra a noção de Estado Laico.

Quando os cartunistas insistiram em manter a sua crítica à religião, ainda que de gosto duvidoso, insistiam no fato de que o Estado é Laico, e que o mesmo direito dado aos religiosos, é dado aos críticos da religião.

Isso faz sentido: se num Estado, em que todas as expressões religiosas são garantidas, a religião não puder ser criticada, fica denunciada a falácia, isto é, temos um Estado Laico de Direito, mas, não o temos de fato.

É nessa mesma categoria que coloco a proibição à exposição queermuseum Santander, em Porto Alegre, RS ou a retirada no Museu de Arte Contemporânea (Marco), de Campo Grande, MS da obra Pedofilia da exposição Cadafalso, onde a moral religiosa é somada à restrição à liberdade de expressão.

Temos de compreender: num Estado Laico não se legisla sobre religião, mas, também, não se legisla a partir da religião.

Não sou contra à classificação etária, porque a criança tem de ser protegida, (o MARCO o fez, por sugestão da artista) nem contra o protesto dos que, não concordando com o banco patrocinador, decidem fechar suas contas, por não quererem que tais exposições sejam alavancadas por seu dinheiro.

Estamos, entretanto, assistindo a ressurgência do pré-moderno, nossa insistência no Estado Laico e na liberdade de expressão não pode arrefecer.

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