Uma visão unilateral e anacrônica, para dizer o mínimo. Essa é a única análise possível do artigo escrito pelo antropólogo baiano Antonio Risério ao desqualificar a luta antirracista do Movimento Negro Brasileiro, os intelectuais e os ativistas negros como o senador Abdias do Nascimento (1914-2011) e o antropólogo Kabengele Munanga.

8/03/2012 – Marcha das Mulheres em São Paulo. Foto: Mídia NINJA

É no mínimo curioso o tom acusatório e deselegante do artigo para reforçar a tese laudatória de que somos todos mestiços no Brasil.

É típico da hegemonia branca tentar distorcer o que o Movimento Negro e os intelectuais antirracistas desvelaram: durante muito tempo, o Brasil fez uso da tese da mestiçagem a fim de encobrir a existência do racismo. O fato de se afirmar que não existem negros e brancos no país, mas, sim, mestiços, possibilitou durante séculos a neutralidade estatal no que se refere à construção de políticas públicas para a superação da desigualdade racial. Foi o protagonismo e a luta política do Movimento Negro e de ativistas e intelectuais como Abdias do Nascimento e Kabengele Munanga, assim como Lélia González, Beatriz Nascimento e outros que desvelaram nacional e internacionalmente a realidade injusta e violenta vivida pelos negros brasileiros.

A discussão política e ideológica protagonizada pelos ativistas negros não é contra o mestiço em si, mas, sim, contra a construção ideológica do racismo brasileiro, via apologia à mestiçagem. Uma idéia de mestiçagem que sempre negou que a nossa “sociedade miscigenada” foi forjada sob o jugo do processo violento da escravidão. E não por relações amistosas entre brancos, negros e mulatos, como gostam de afirmar alguns autores.

Mas não cabe aqui gastar o nosso precioso tempo discutindo o teor rancoroso do artigo do antropólogo baiano. Cabe alertar aos leitores e às leitoras para as sutilezas político-ideológicas dos racialistas brancos que começam a sair das sombras em tempos de retrocessos políticos do país. Tempos neoconservadores nos quais esse grupo presente na intelectualidade, na política, na cultura e nos meios religiosos tem se sentido empoderado para dizer o que quer. Não basta discutir ideias das quais se diverge a respeito da questão racial no país, mas apontar o pertencimento étnico-racial dos autores e de forma jocosa.

O que é isso senão racializar? E depois são os ativistas e intelectuais negros os culpados pela “racialização da sociedade”? Desde que nasci, aprendi por meio da convivência social, que a sociedade brasileira é racializada. Aprendi isso quando percebi o contraste do lugar ocupado pelas pessoas brancas nos lugares de poder e decisão, no fato de serem a maioria nas universidades, morarem nos bairros de elite enquanto as pessoas negras constituem maioria nas periferias, na escola pública, nos empregos como faxineiras, domésticas e babás. E mesmo as negras e os negros que conseguem algum grau de ascensão social lidam cotidianamente com o racismo.

Merece a nossa atenção observar qual foi o veículo midiático que publicou o artigo. A Folha de São Paulo não dá ponto sem nó. Recentemente ela publicou um artigo contrário às cotas raciais e falando de forma negativa sobre o desempenho dos estudantes cotistas negros, mesmo quando todas as análises e pesquisas sobre o tema mostram o contrário.

Vigilância democrática neles! Vários de nós acompanhamos este e outros veículos da mídia hegemônica, no início dos anos 2000, quando atacaram a demanda por cotas raciais protagonizada pelo Movimento Negro, aterrorizando a população brasileira para o perigo de um novo apartheid, caso o Estado adotasse políticas de ações afirmativas para corrigir desigualdades raciais históricas (até parecia que a entrada de negras e negros na universidade teria tão grande poder!).

Estamos em tempos de golpe parlamentar. As forças conservadoras tentarão de toda forma induzir a população para um novo “perigo racial” desencadeado pela afirmação da negritude. O que incomoda não é a afirmação da frase escrita no cartaz dos ativistas negros durante a Marcha da Consciência Negra, em São Paulo, no dia 20 de novembro, a qual foi tomada totalmente fora de contexto pelo autor.

O que está em disputa é a perda de espaço da hegemonia branca. É o fato de negras e negros saírem corajosamente às ruas denunciando o racismo e afirmando a identidade negra das formas mais diversas. Ora mais radical, ora mais negociada.

Esse medo da elite intelectual, política, cultural e empresarial branca diante da afirmação identitária dos negros no século XXI, resulta em desespero. Por isso, aproveitam o seu fácil acesso aos meios midiáticos e lançam mão de uma foto, uma frase, uma citação, um capítulo de livro, retirando-os do seu contexto e constroem um texto cheio de tecnologias gramaticais e metáforas para desqualificar um processo político e uma discussão intelectual séria que tem feito justiça cognitiva e reeducado o país sobre o que é, de fato, racismo, desigualdade racial e identidade negra.

Todo o meu respeito à memória do ativista e ex-senador Abdias do Nascimento e a atuação competente e exemplar do professor e antropólogo Kabengele Munanga.

Ambos continuam presentes na história do nosso país com dignidade e respeito enquanto outros simplesmente passam.

A branquitude surta quando os negros e as negras ocupam o seu lugar de direito com a sua corporeidade, a sua interpretação política e intelectual da história, da cultura e dos fatos.

Como aprendi com a juventude negra: o contrário de casa grande não é a senzala. É o quilombo. Por isso, a branquitude anda surtada.

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