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É lugar comum dizer que a o Muro de Berlim caiu na cabeça da esquerda.

Por uma questão de justiça histórica, devemos hoje reconhecer que a verdade é mais complexa. Os escritos de Chomsky, ao longo dos últimos quarenta anos, descrevem como a direita se reorganizou para a guerra ideológica no final do século XX, desde que um torvelinho crítico assaltou os maiores centros universitários do mundo no decurso da década de sessenta do século passado.

O grande levante da juventude naquela época, que tinha o Vietnã e os direitos humanos como alvos imediatos, desenvolveu em contraponto uma poderosa crítica da cultura, que se expressou no cinema, na música, na dança, nos costumes, na roupa, mas também na reflexão política e filosófica que colocava em cheque o senso comum da guerra fria.

Não é meu propósito nessas poucas linhas fazer a resenha desta disputa. O fato é que em meados da década de setenta os think tanks conservadores estavam recrutando jovens inteligências promissoras para preparar a virada. E a virada veio.
Chegou ironicamente porque a seara crítica dos sessenta nunca poupou as atrocidades do “socialismo real”. Mas quando o muro desabou, com a inestimável contribuição do good friend Gorbachev, estava prontinho para ser entoado o discurso do fim da história.

É importante compreender que a escalada neoliberal dos oitenta (com a liderança de Thatcher e Reagan) não se limitou à esfera econômica e política. A financeirização da economia e o desmanche do Estado social-democrata aconteceram desde então em meio a um violento processo de disputa de hegemonia. Uma guerra cultural, tout court.

Mudanças lexicais – de trabalhadores para colaboradores da empresas– são a ponta do iceberg da colonização mental que coloca o Indivíduo como ator isolado numa cena social com a densidade de cartoon disneyano. É nessa paisagem desolada que se cobra competitividade, mérito, comprometimento, ética do trabalho… para o bem, é claro, dos acionistas! E tome auto-ajuda para sobreviver nesse sombrio universo, que não perdoa os perdedores.

Importante registrar, nesse ponto, o anacronismo brasileiro. Enquanto, no capitalismo avançado, os anos oitenta marcam a reversão neoliberal, no Brasil lutávamos pelas diretas. Pela Constituição Cidadã. Anos de ascenso dos movimentos sociais e da luta democrática. Década de fundação e expansão do PT.

Não passamos, entretanto, incólumes: os anos noventa, do trêfego Príncipe da Sociologia brasileira, reforçaram academicamente o esforço da colonização neoliberal. Isso está posto, por exemplo, nas investidas de Paulo Renato (e trupe) contra a universidade pública. Está posto na introdução de uma concepção de trabalho na pós graduação e na pesquisa que celebra os valores neoliberais. Li a esse respeito um texto brilhante de Wendy Brown, de 2015: Undoing the Demos. Desfazer o legado democrático da era das revoluções, eis o desígnio implacável do capitalismo financeirizado.

Pois a nossa missão é a oposta: reforçar a democracia, expandir a democracia. De um estudioso do Estado de Bem-Estar europeu, Esping-Andersen, há uma síntese bastante eficiente. O sucesso da esquerda naquele continente esteve atrelado ao seu sucesso em desmercantilizar a vida das pessoas. Isso quer dizer: o bem-estar, a qualidade de vida da sociedade, não são mercadorias! O acesso à saúde, à educação, ou mesmo o direito a fazer todas as refeições diárias – algo tão básico, e que ainda temos dificuldades para garantir – são direitos, e devem ser oferecidos gratuitamente pelo Estado, e não promovidos pelo mercado.

O resgate desse tipo de discurso, desse ideário igualitário, já é uma realidade no exterior. Vide o recente sucesso do candidato trabalhista Jeremy Corbyn na recente eleição para o Parlamento inglês, ou mesmo a dimensão adquirida pela candidatura Bernie Sanders nos Estados Unidos. Mais do que vigor eleitoral, tais experimentos demonstraram grande capacidade para reanimar e mobilizar a sociedade, em particular a juventude.

Por aqui, contudo, segue a marcha do atraso. A atual agenda pública é a agenda do capitalismo financeirizado, dos patos amarelos, dos que não aceitam um país onde os interesses do mercado não são os prioritários. Daí a lei das terceirizações e a reforma trabalhista, para aumentar o lucro das empresas a expensas dos salários dos trabalhadores e trabalhadoras; daí a reforma previdenciária para, entre outras maldades, tornar a previdência mais um quinhão para o mercado.

É urgente derrotar tais reformas, sem dúvida. Mas não nos é dado do direito de ficar apenas na pauta reativa. Não haverá vitória sem que se desmistifique aquela visão de mundo construída pelos capitalistas no decorrer das últimas décadas. Para tanto, a esquerda precisa se afirmar. Precisa reconhecer que há um debate em curso – uma luta de classes em andamento – e querer vencê-lo. Nossas convicções, assim como nossos sonhos, não envelheceram. É preciso que esses se expressem, em todas e quaisquer oportunidades.

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