“100 Anos de Liberdade: Realidade ou Ilusão?”. Mangueira em 1988 questionava o grau de liberdade que fora efetivamente garantido após a abolição da escravatura.

Vamos falar objetivamente e sem meias-palavras. A dificuldade das escolas de samba do Rio para conseguir fazer seu carnaval, um dos eventos mais lucrativos do calendário turístico no mundo, não tem outra explicação a não ser um racismo fortemente arraigado na mentalidade do poder público e também da iniciativa privada.

Alguém consegue imaginar que o governo alemão iria deixar a míngua a sua Oktoberfest? Ou que a Espanha viraria as costas para sua tradicional festa do tomate?

Claro que não! Porque esses eventos fazem parte da tradição cultural desses povos, remontam a uma valorização de costumes regionais e da própria gente que trabalha ali.

E, além disso, ainda movimentam a economia com empregos direitos e indiretos, principalmente na cadeia de turismo, com hotéis, bares e restaurantes – até atingindo às vezes sua melhor marca de lucros no ano todo.

A questão específica com as escolas de samba do Rio é que, aqui, no país da Casa Grande e ‘do Quilombo’, a elite que tradicionalmente controlou o poder do Estado sempre viu com maus olhos todos os costumes associados aos pretos. O não reconhecimento de sua cultura como parte relevante da cultura nacional é uma face disso.

O desinteresse de empresas privadas que lucram os tubos durante a festa do carnaval em contribuir mais generosamente para sua valorização cultural, enquanto patrocinam concertos de música “erudita” nos bairros mais nobres, também chama atenção para dimensão do problema. Não estamos falando só da gestão tenebrosa de Crivella a frente da prefeitura, mas de um pensamento amplamente disseminado.

Há quem, buscando outra justificativa para falar dessa contradição, talvez com medo da opinião sincera dos jornais estrangeiros de dezenas de países que vêm fazer a cobertura do evento, prefira dizer que a questão gira em torno do envolvimento de bicheiros. Mascaram o seu desdém atípico com o samba de sentimento anticorrupção.

Ora, aí, uma ova, não é? Se há algum criminoso envolvido com carnaval, que polícia ou ministério público apresentem logo sua queixa, as defesas suas ponderações e os juízes, suas sentenças. O que não se pode fazer é comprometer uma tradição com a força que tem o carnaval do Rio sob o pretexto de punir os crimes de um indivíduo ou outro.

Esse surto de moralidade que acomete cirurgicamente as tradições africanas, enquanto empresas envolvidas com a Fórmula 1, por exemplo, fazem delações premiadas é típico da seletividade punitiva geral contra os negros.

Em 1988, em um desfile antológico, no centenário da assinatura da Lei Áurea, a Estação Primeira de Mangueira veio com enredo que dizia: “100 Anos de Liberdade: Realidade ou Ilusão?”. Atualíssimo. Ele questionava o grau de liberdade que fora efetivamente garantido após a abolição da escravatura.

Neste ano, portanto 30 anos após aquele desfile, a escola decidiu que seu próximo enredo falará na avenida sobre as histórias não contadas ou encerradas de mulheres negras que, como heroínas, contribuíram para dignificação do nosso povo, entre elas Marielle Franco.

É muito provável que venha daí, dessa tradição de zombar da suposta bondade da corte portuguesa e de contar a história de mulheres pretas, entre outras tantas tiradas geniais que expressam o orgulho da negritude em ritmo de tambor de candomblé, que venha este ano, mais uma vez, a dificuldade de botar o carnaval na rua.

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