Povo krain-a-kore à beira da rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163). Orlando Brito/03-03-1974

por Áurea Carolina e Rafa Barros

A paralisação dos caminhoneiros e a greve dos petroleiros escancarou, para além do desmonte e da venda do setor energético brasileiro e da inoperância do governo ilegítimo, o fracasso do modelo rodoviarista e sua consequente dependência do petróleo. A opção por esse modelo vem desde o governo JK, foi ampliada durante a ditadura militar e exacerbada com a privatização – e também o desmonte – da malha ferroviária nos anos FHC, como nos mostra o excelente artigo publicado pela socióloga Fernanda Regaldo na Revista Piseagrama. É uma opção que nos leva a gastar mais, poluir muito e morrer aos milhares. Uma opção não somente predatória, mas colonizadora, tanto por aumentar a dependência econômica do Brasil no contexto internacional quanto por devastar territórios e modos de vida dos povos e comunidades tradicionais.

O não reconhecimento das diversas formas de vida, aliás, é uma condição da colonização. O projeto colonizador não é de convivência, encontro ou partilha – como alguns discursos hegemônicos tentam romantizar desde a invasão portuguesa. Ele pressupõe que existem grupos que, por terem mais poder econômico e, portanto, mais “poder de fogo”, também seriam superiores em termos culturais, simbólicos, étnico-raciais e religiosos, e que têm o direito – divino – de subjugar, massacrar e aniquilar.

O mestre quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, nos diz em Colonização, Quilombos: modos e significações: “(…) as pessoas afro-pindorâmicas foram e continuam sendo taxadas como inferiores, religiosamente tidas como sem almas, intelectualmente tida como menos capazes, esteticamente tidas como feias, sexualmente tidas como objetos de prazer, socialmente tidas como sem costumes e culturalmente tidas como selvagens”.

Na década de 1970, o governo militar estabelecia como prioridade a abertura de estradas no norte do país e a propaganda oficial vendia à população a ideia de um Brasil em desenvolvimento, orgulhoso de seu crescimento e da integração com suas áreas mais remotas. O que o ufanismo escondia era o genocídio de cerca de 8 mil indígenas, exterminados sobretudo nas frentes de construção de estradas. O número foi revelado em 2013 pela Comissão Nacional da Verdade, sabendo que a precariedade dos registros é ainda um obstáculo para a averiguação do tamanho real dessa matança.

A Transamazônica, a Perimetral Norte e as BRs 174 e 163 deixaram pelos caminhos abertos um rastro de destruição não apenas de vidas, mas de modos de vida, de existências inteiras. A Comissão apontou, por exemplo, o extermínio quase total do povo Jiahui e dos índios Yawarip, um sub-grupo Yanomani, de boa parte dos Tenharim e dos Wairimi-Atroari. Muitos sobreviventes passaram a trabalhar nas obras em regime de escravidão.

A opção rodoviarista-colonialista não se encerrou com o fim da ditadura militar. Em 2017, a comunidade quilombola Abacatal, do Pará, entrou com ação na Organização Internacional do Trabalho para tentar impedir a construção da rodovia ironicamente chamada Liberdade, que impedirá o acesso a seu território tradicional. No mesmo ano, o Conselho Indigenista Missionário denunciou a ameaça que a construção da estrada Puerto Esperanza – Iñapari, na fronteira do Brasil (Acre) com o Peru (Madre de Dios), traz a povos indígenas amazônicos.

A dicotomia entre natureza e produção, presente e futuro, sagrado e profano, vida e morte, indivíduo e comunidade são fruto da cosmovisão ocidental eurocêntrica, construída a partir da temporalidade linear. Para os povos e comunidades indígenas e quilombolas, o tempo é circular – ou espiralar – e, na roda infinita da vida, o que foi ainda é, e o que é será. Ou seja, passado, presente e futuro não se dividem, e o território ancestral é sagrado, inviolável, é o chão dos mortos, da comunidade e dos descendentes. É para a comunidade que se vive, se trabalha, se cria: “eu sou porque nós somos”. Do outro lado da estrada, portanto, na cosmovisão afro-pindorâmica, para ficarmos com a expressão de Nego Bispo, o individualismo dá lugar ao bem comum, a destruição à convivência com a natureza, a busca pelo lucro à busca pela autossuficiência.

.

É urgente defendermos a soberania popular sobre o setor energético brasileiro. O tamanho da crise, no entanto, deve nos convidar a uma reflexão mais profunda sobre o modelo de transporte adotado no país e de sociedade que estamos construindo. O que assistimos diante do caos causado pela paralisação dos caminhoneiros, do crime inacreditável e até hoje sem responsabilidade imputada da Samarco/Vale em Mariana, dos conflitos no campo, do genocídio dos povos indígenas e da população negra, é o colapso de um modo de vida que privilegia alguns poucos em detrimento das maiorias sociais e que se tornou insustentável e incompatível com a felicidade e a sobrevivência. Temos muito a aprender com os povos e comunidades tradicionais. Saberes que as rodovias – a mineração, o agronegócio, a especulação imobiliária, a urbanização predatória… – insistem em ameaçar e destruir.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Copa FemiNINJA

Histórias de quem trabalha nos bastidores do futebol

Daniel Zen

As mensagens secretas da Lava-jato: crime e castigo

Tainá de Paula

Execução por no mínimo 15 tiros não pode ser tipificada como crime banal

André Barros

Moro contra Lula

Laio Rocha

Taça das Favelas coloca futebol de várzea no centro

Colunista NINJA

'A única coisa que salva um país é a cultura', afirma Moacyr Luz

Mônica Horta

Moda autoral brasileira presente!

Daniel Zen

É a economia, estúpido!

André Barros

Marchas da Maconha foram maiores que atos de Bolsonaro

Colunista NINJA

Mosquito e Inácio Rios: “A gente respeita o samba autêntico”

André Barros

Aperta a pauta, Toffoli

Colunista NINJA

“Fazer samba é uma resistência e está totalmente ligado à política”, afirma Júlio Macabu da nova geração

Cleidiana Ramos

#15M: Uma lição para esperança e vigilância

Margarida Salomão

Balas e Chocolates: o ataque de Bolsonaro à Universidade brasileira

Fatine Oliveira

Sinto muito, Damares. Meu lugar é na universidade federal