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* Por Tiago Neto da Silva

Falar sobre Paulo Freire constitui algo de fundamental importância na atualidade. Não somente, porque reconhecemos a justa homenagem de Patrono da Educação brasileira ao professor, mas, devido ao contexto histórico de sua vida e obra – forçado a sair do país sob acusação de “subversão”, o educador foi exilado a partir da instauração da Ditadura Militar de 1964 que durou 21 anos, onde o país ficou sujeito a censura, desaparecimentos, torturas e assassinatos. Contudo, é comum parcelas da sociedade denominarem o Golpe de Estado dado pelos militares de “revolução”. Como se não bastasse isso, há quem “vista verde e amarelo” pedindo Intervenção Militar sentindo orgulho. Bem, sabemos o significado dos regimes autoritários, a começar pela impossibilidade do livre pensamento. Nesse sentido, como contraponto a lógica da opressão, o educador cultivou a amorosidade, o diálogo e a generosidade, daí a relevância de sua abordagem para a educação como prática da liberdade.

O educador “subversivo” à época estava na direção e coordenação do projeto político que visava erradicar o analfabetismo, com a alfabetização de jovens e adultos. Emergências – urgências, significa conhecer as 40 horas de Angicos – Rio Grande do Norte.

O significado de reexistência ou resistência, podemos verificar na obra de Pedagogia do Oprimido publicada em 1968. Ao tomar contato com o livro verifica-se a seguinte sentença: “A leitura do mundo, precede a leitura da palavra”, que diz muito sobre memória, história, autonomia, liberdade e direitos.

Da perseguição política das décadas dos anos de chumbo até a máxima de “expurgar a ideologia de Paulo Freire” escrito no programa – proposta de governo ou carta de intenções na campanha eleitoral de 2018, cujo presidente eleito foi Jair Messias Bolsonaro. Compreendemos que a sanha persecutória ao pensamento educacional freiriano vem desde 1964 e nos dias atuais a criminalização – demonização do educador aumentou.

Essa lógica tem como fio condutor o avanço das forças conservadoras, que no campo educacional verificou manifestações representadas pela noção de “Doutrinação Marxista”, “Ideologia de Gênero”, talvez sob o guarda-chuva do projeto Escola Sem Partido. Ainda na carta de intenções, diz que no Brasil vigorou “nos últimos 30 anos o marxismo cultural e suas derivações como o gramscismo” responsáveis pela corrupção “da moral e dos bons costumes”, prejudicando a “Nação” e a “família” brasileira. Ou seja, existe uma singularidade perversa em demonizar Paulo Freire – Patrono da Educação – atrelado ao pensamento único, ao silenciar e invisibilizar aquelas e aqueles que são considerados inimigos. Não desejam uma escola livre, mas sim uma instituição escolar amordaçada, sem o contraditório, a divergência, sem o direito ao livre pensamento e liberdade de expressão. Transgredir à ordem estabelecida encontrou eco na juventude nas ruas no #15M.

O neofascismo radicado no país tem como fio condutor a extrema direita sem nenhuma vergonha de demonstrar-se abertamente adepta de uma ideologia conservadora e reacionária, cujo pensamento e linguagem está estruturado no processo de corrosão do propalado Estado Democrático de Direito, interrompido bruscamente no impedimento da presidenta Dilma Vana Rousseff, na prisão -interdição política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para sacramentar o Estado de Exceção ou a fraude eleitoral retirando do pleito o candidato à frente das pesquisas que mais fez pela democratização da educação básica e superior em toda da república. “Balbúrdia” é a dilapidação com os direitos do povo brasileiro à educação. “Idiotas (in)úteis” são a tríade arcaica que alçou ao poder ocupando lugar de destaque no Ministério da Educação: Ricardo Vélez Rodrigues – ‘no meio do caminho’ Olavo de Carvalho – e Abraham Weintraub.

É preciso estar atento sobre a nova dinâmica das relações de poder no Brasil, a contra-ofensiva de setores conservadores, tradicionais de nossa sociedade mesclam com o surgimento de uma nova direita, ultraconservadora nos costumes e extremada na política econômica, o Estado mínimo possível, à luz do austericídio, cuja seleção de inimigo interno a ser neutralizado é a educação, sobretudo as Universidades e Institutos Federais. Nessa perspectiva, a demonização do educador Paulo Freire é sintomática, corrobora com o avanço da Escola Sem Partido, Militarização das Escolas, Educação Domiciliar; o debate educacional de maior fôlego é suplantado pela Reforma do Ensino Médio por Medida Provisória, com a Reforma Trabalhista que geraria “milhões de empregos”, com a Reforma da Previdência e o Pacote Anticrime de Moro. A reestruturação do capital a nível internacional tem severos impactos na América Latina, sobretudo no Brasil.

No dia 15 de Maio de 2019 fui ao ato político em Brasília – Distrito Federal consciente da importância do atual momento histórico fazendo a defesa de Lula Livre. Consciente que a luta pela educação contra os cortes é indissociável do desejo de saber quem mandou matar Marielle Franco e Anderson Gomes. Em defesa da memória, vida e obra do educador Paulo Freire. E que apesar de você – Bolsonaro – amanhã, há de ser outro dia!

* Tiago Neto da Silva tem 28 anos e é estudante de Licenciatura em Química Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Goiás – Campus Luziânia.

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