Foto: Marcelo Costa Braga

 

Por Eduardo Sá

Embora não seja da velha guarda, Teresa Cristina já é uma voz consagrada no samba nacional. Aos 51 anos faz parte de um grupo de músicos entre o das antigas e o da nova geração do samba carioca. Começou a ganhar projeção com o Grupo Semente, na Lapa, no final da década de 90, e desde então não parou mais. Tem parcerias com os maiores artistas nacionais e já passou por todas as famosas casas de shows da cidade, além de ter feito turnês mundo afora.

Atualmente ela está com dois projetos: Um sorriso negro, que com seu grupo de mulheres resgata músicas de autores negros, e a trilogia Cartola, Noel e Zé Keti, cujo último compositor ainda não começou a ser gravado. Mas seu destaque não é só através da música. Ela tem militado sistematicamente nas mídias sociais e participado de todos os protestos políticos desde a saída de ex-presidenta Dilma Rousseff do poder.

Na entrevista à NINJA, ela fala sobre a importância dos artistas se envolverem com política e como a sociedade em geral tem hoje mais ferramentas para controlar os movimentos da classe política e decidir seu próprio voto com mais consciência. Sem poupar críticas ao governo Bolsonaro, ela se diz muito preocupada com os rumos do país. Neste cenário, ela apresenta alguns nomes da nova geração do samba e destaca a contribuição que a cultura pode dar em tempos sombrios como os atuais.

Como você tem visto a nova geração que está renovando o samba?

Temos uma geração pós velha guarda e Fundo de Quintal, os sambas dos anos 80, pós pagode romântico. Depois veio a geração da Lapa com contemporâneos meus, como o Moyseis Marques, Ana Costa, Nilze Carvalho, Luiza Dionizio, Áurea Martins, que não é da Lapa mas cantou com a gente, quando o Carioca da Gema começou. Do Semente as casas começaram a abrir na Mem de Sá, e depois vem outra geração. Deu uma misturada, porque nunca entendi a Lapa como um movimento, sabe? Não tinha nada combinado, foi acontecendo não como uma ação da cidade, do Estado, foi algo bem independente desses donos de casas: Semente, Carioca da Gema e depois o Centro Cultural Carioca, na Praça Tiradentes. Uma atitude muito isolada que acabou trazendo as pessoas, e cresceu de uma forma que ninguém esperava.

Hoje vejo cantoras e compositores novos que têm uma visão muito ampla sobre o samba. Temos uma cantora como a Marina Iris, também compositora, que grava Paulinho Tapajós, Aldir Blanc, mas também grava João Martins, músicas dela, Manu da Cuíca, etc. Ela tem uma maneira de cantar muito verdadeira, um timbre de voz bem gostoso. Outra cantora interessante é a Renata Jambeiro, que está morando em São Paulo agora, e outras pessoas que continuam fazendo um bom trabalho como Nilze Carvalho, Ana Costa, Mariana Baltar, etc.

Mas ao mesmo tempo essas “cantoras novas”, que estão por aí há algum tempo, como a Thaís Macedo, cada uma tem a sua identidade e uma cara muito carioca, as músicas mais antigas e inéditas nessa mescla de repertório muito interessante e rica. Tem uma música que Marina gravou do João Martins que é linda, parece antiga sabe? Mosquito, Inácio Rios, Renato Milagres, André da Matta, Leandro Fregonesi está uma coisa bem colorida.

Foto: Marcelo Costa Braga

Você acha que já é um movimento grande?

Nunca consigo enxergar como movimento, como estou dentro fica difícil, é mais fácil ver de fora. Alfredo Del Penho, além de um grande conhecedor de samba, pesquisador, bom cantor, compositor e grande ator, está fazendo musicais importantes. Vai lançar agora da Bia Lessa o Macunaíma, com repertório autoral muito bacana. Estamos com uma base boa para continuar.

Você pode falar mais um pouco sobre esse movimento de mulheres no samba?

A história da mulher no samba foi muito apagada e precisamos ocupar esse lugar. O samba veio ao Rio pelas mãos de uma senhora baiana, a Tia Ciata, de Santo Amaro. Ela era tão influente que na sua casa reuniu toda a nata do samba (Pixinguinha, João da Baiana, Cartola, João da Gente, etc). Tem imagem de todos eles, mas nenhuma dela, nem gravação de voz. Não sabemos como era ela falando, não tem vídeo nem muita informação. É um apagamento que vai ficando natural e acabam falando mais de outras pessoas. Temos grandes mulheres no Brasil e foi preciso o samba da mangueira trazer esses nomes à tona, a gente saber quem foi Luiza Mahin.

O samba precisa ter também a voz da mulher, o nosso olhar sobre as coisas, temos o direito de sentar na roda e tocar violão ou cavaquinho, pandeiro, surdo, fazer arranjo.

Quando era criança meu pai falava da Maria Quitéria, que para mim depois virou uma rua em Ipanema. Não falamos muito dessas coisas, e esse lugar exótico da mulher na roda de samba fazendo coro pro homem cantando, enfeitando a roda com sua beleza e corpo exuberante, ou como tema daquele samba que na maioria das vezes nos citam com um olhar masculino. O samba precisa ter também a voz da mulher, o nosso olhar sobre as coisas, temos o direito de sentar na roda e tocar violão ou cavaquinho, pandeiro, surdo, fazer arranjo. Não ser mais uma coisa exótica, uma mulher instrumentista tocando muito bem e dizerem tão bem que parece um homem tocando. Isso não é elogio e acho que é um caminho sem volta.

Você chegou a comentar que não está acontecendo somente no Rio este movimento.

É um caminho sem volta no Brasil inteiro, em qualquer cidade tem grupos de mulheres se reunindo e tocando. Em Buenos Aires, Suíça, Portugal, Uruguai, etc. As mulheres estão se fortalecendo e é urgente. Qualquer ação que possa retroagir sobre o apagamento da história da mulher, seja no samba ou na cultura brasileira, é importante e válido. Tem o Moça Prosa, Samba que elas querem, muito grupo feminino e meninas instrumentistas novas com qualidade. Elas não só cantando, mas compondo, fazendo arranjos, arregimentando músicas, tendo um olhar de musicalidade muito bom.

Isso é um alento frente a essa perda constante, a ida da Beth Carvalho acho que ainda está cedo para ter dimensão da sua perda. O samba dela teve alcance desde Noel até essa juventude com garotos de nem vinte anos. Influenciou muita gente, graças a essa força e olhar sobre o samba. Plantou árvores que ainda vão crescer bastante, seu trabalho aponta vários lugares inclusive para esses compositores novos. Gravou, por exemplo, Wanderley Monteiro, Toninho Gerais, que a gente conhece agora, mas ela via antes e aonde gostava se envolvia.

No meu show Um sorriso negro montei uma banda só de mulheres que admiro muito: Samara Líbano, Jéssica Zarpei, uma ótima nova percursionista, de 21 anos, Ana Paula Cruz que toca flauta, a Elisa Dor, Roberta Nistra, cavaquinista. Procuramos saber o trabalho de outras mulheres, porque acabamos ficando num ritmo só pensando no nosso, como sustentar e ganhar dinheiro, e esquecemos de olhar ao lado e que existem mulheres com a mesma demanda. Tenho procurado conhecer outras mulheres, trabalhos, ir a outras rodas, lugares onde o samba está sendo feito.

Criamos um movimento de Mulheres na roda de samba, Movimento de mulheres sambistas, o dia nacional da mulher sambista, no aniversário da Dona Ivone Lara, que é 13 de abril. Tudo isso é muito importante e não tem volta. A gente se olhando se respeita, valoriza a história da outra para também dar valor à nossa. Uma coisa fácil para você pode ser difícil para outra, e vice versa. Isso faz bem ao crescimento de todo mundo.

E após esse período da Lapa hoje existem várias casas de samba em toda cidade, como você vê o cenário?

Quase não frequento mais a Lapa, quando vou é mais ao Beco do Rato, que não é tão novo mas na época que era mais cheio não frequentava. Vou mais ver meus amigos tocarem. É um lugar que mexe muito comigo, porque me deu uma experiência, um jeito de trabalhar, de me relacionar com músicos, que marcou a minha carreira. A cena musical do Rio é bem diversificada, são teias bem abertas: centro da cidade, que já tinha sido revigorado, tem lugares importantes do samba, a Lapa, Pedra do Sal, além do Samba do Trabalhador, que reúne muita gente diferente e cantores e compositores com o Moacyr Luz. Eu quando vou acabo cantando, tem quem ache que faço parte do grupo.

Reparando nas suas mídias sociais, você divulga sistematicamente várias artistas, principalmente as mais novas. Qual a importância disso?

Tem que acontecer não só através de mim, é um trabalho de formiguinha. Toda segunda-feira posto, comecei pelas mulheres negras porque tudo para a gente é depois. Estamos acostumadas a esperar muita coisa acontecer para depois fazer algo, então procuro elogiar uma mulher negra: cantora, compositora, artista, pessoas que estejam no meu meio ou que eu observe. É muito importante e espero que esta ação desencadeie outras, e que as mulheres tomem esse costume de se elogiar. O único caminho é unir forças, vozes, ações.

Está tudo muito estranho, não vou nem falar do mundo, tem muita mudança no Brasil e o país está indo para um lugar que não consigo definir. Vejo muita gente preta nova morrendo, muita mulher sendo agredida e assassinada, tendo a voz silenciada, numa velocidade absurda. Neste governo de morte que estamos vivendo, as pessoas estão se sentindo encorajadas a cometer esses absurdos. Tem que ter uma contra resposta, temos que nos fortalecer, principalmente entre cantoras. Essa coisa de uma cantora ser rival da outra, melhor ou brilhar, é muito cafona e antiga. Não podemos nos dar esse luxo, é uma coisa muito Marlene, Emilinha, Dalva de Oliveira, de uma geração que não é nossa. Até a geração Bethânia, Gal, Elis, as pessoas escolhiam de quem eram fãs, isso não existe mais.

Estamos com o bloco na rua e precisamos ter voz junto para acabar com essa onda de extrema direita, de conservadorismo, hipocrisia, mal uso da religião e da fé. Os valores estão todos invertidos, vemos um montão de gente hipócrita, demagoga, sem moral, completamente suja falando de família e valores que não cultivam. Jogam isso na nossa cara como se fosse uma cartilha, que eles não seguem, mas o discurso deles está muito afiado.

O movimento do samba pode contribuir nessa questão política? Alguns afirmam que a política se revela muito nas músicas, mas não enquanto movimento seja partidário ou não.

Isso tem que ser feito de todas as formas, se você consegue num momento desse sombrio e de treva fazer uma boa canção que retrate o que estamos vivendo é muito bom. O que importa é não ficar calado e se movimentar de alguma maneira. Não dá é para ficar encastelado e achar que essa lama não vai chegar no seu pezinho porque você não fala, não se posiciona ou não fica indignado. Não é possível que não incomode as pessoas que estão quietinhas se fingindo de mortas também.

Mas em relação ao artista específico, não tem também uma questão de mercado no sentido de não se expor para preservar a imagem e não ter portas fechadas?

Isso sempre existiu, e agora não dá mais. Até porque se continuar deste jeito esse mercado não vai nem existir para quem está caladinho. Quando ficar ruim, vai ficar para todo mundo. Já temos censura, mortes, agressão, um discurso pesado, um lunático no poder propagando notícia falsa, colocando as pessoas num lugar esquisito. Pessoas sujas, desonestas, com um discurso de moralidade completamente falso. Não existe nenhuma verdade nesse discurso de família, fé e meritocracia, é tudo balela. Estão tentando criar um rolo compressor para cima da gente.

Foto: Marcelo Costa Braga

Qual análise de conjuntura está sendo feita pelos artistas e políticos com quem você convive, levando em consideração que ele foi eleito com todo esse discurso?

Foi eleito por 30% da população, teve muito voto nulo e branco, isentos que continuam traumatizados com o PT achando que ele acabou com o país. Aí a gente pega todos os números e feitos e esfrega na cara dessas pessoas, mas não adianta. Está com merda até o pescoço, mas falando: pelo menos a gente tirou o PT do poder. As pessoas não querem se informar, estão cegas.

A mídia contribuiu nesse processo?

A mídia construiu esse ódio ao PT. Quando teve a história do avião de cocaína do cara pego na Espanha, a primeira coisa que o telejornal fez foi botar a cara da Dilma. O que ela estava fazendo ali, se não tinha nada a ver? Ele não foi piloto dela, é mentira. Então tem muita desinformação e o mais criminoso é tentar colocar como se fosse tudo do mesmo saco.

O PT não é do saco do Bolsonaro, não dá para comparar. O governo do Bolsonaro, aliás, não se compara a nenhum: a FHC, Lula e Dilma, nem ao Figueiredo na época que eu peguei. O atual governo tem muito mais militares e o do Figueiredo foi de abertura. Com tudo que aconteceu na ditadura eu nem sei dizer o que está acontecendo hoje no Brasil.

Não sei se você está filiada a algum partido, mas transita alguns meios. Quais as ações estão sendo traçadas de resistência?

Não sou de nenhum partido, mas me envolvo com as pessoas que acredito e trabalho. As mobilizações precisam acontecer, ao mesmo tempo que tem essa galera que diz ser tudo culpa do PT e tapa o olho e grita. Não é tão difícil ver as ações dos políticos hoje em dia. Sei que é horrível, mas dá para acompanhar qualquer votação na TV. Saber em que o PSL ou o PSOL votaram, saber quem está ao lado do povo e quem contra. Quem votou contra tirar do bolso do pobre para pagar o rombo da previdência? Quem está querendo valorizar a educação e o trabalhador? Não é difícil fazer isso. Fui filiada a partido na época do movimento estudantil, hoje me envolvo com pessoas e ações e é uma trincheira pesada. A minha esperança é com o carnaval de rua, o samba da mangueira trouxe um alento para a gente este ano.

A cultura tem um papel importante nesse debate todo, inclusive de comportamento?

Tem porque discute num lugar onde tem liberdade para falar, e quando fica tudo nesse discurso de política e rede social é um maniqueísmo que não interessa à discussão porque não leva a lugar nenhum. Precisamos resistir de outras formas, tentando pensar de outras formas e em novos agrupamentos também, porque hoje em dia você acaba concordando com gente que há um tempo atrás discordava. A discrepância é tão absurda e gritante que para discordar do Bolsonaro você concorda com a Raquel Scheherazade, Lobão e Reinaldo Azevedo.

Voltando pra questão musical, como você vê as mudanças tecnológicas no trabalho?

Para mim é meio misturado, porque uso rede social para falar coisas da minha vida e tenho um escritório que fala também do meu trabalho. Tento falar também de outras pessoas, de outras mulheres, dar voz a pessoas que não têm tanto espaço assim. Acho que isso é o futuro da rede social, não estou inventando a pólvora mas que naturalmente será feita por outras pessoas também.  Essa coisa dos artistas se divulgarem acaba virando uma rede que fortalece o todo.

E o que você está fazendo atualmente, seus projetos?

Acabei de gravar um DVD do Noel Rosa, não sei ainda quando vai sair. Estou fazendo o show Um sorriso negro, que canta só compositores negros com essa banda de mulheres. Estou no meio de uma trilogia que comecei a fazer com o Cartola, Noel e o próximo será Zé Keti, mas ainda não pensamos direito. Tenho datas para fazer Um sorriso negro, o Carlinhos Sete Cordas está tocando com a Maria Bethânia, mas também está tudo tão suspenso no ar. Devo fazer shows no segundo semestre e ano que vem entender se faço Zé Keti ou meu trabalho autoral.

Quando você diz tudo suspenso no ar tem a ver com os cortes nas verbas para cultura, dificuldade em acesso aos editais e incentivos?

As pessoas me acusam de mamar nas tetas da Lei Rouanet, mas o meu trabalho nunca foi incentivado. A dificuldade de se trabalhar acho que é geral para todo mundo, este ano está sendo bem atípico.

Foto: Marcelo Costa Braga

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